5 razões por que amámos o Festival Trans Musicales de Rennes
(c) Trans Musicales

5 razões por que amámos o Festival Trans Musicales de Rennes

17/12/2025

Integrados na comitiva portuguesa da Why Portugal, viajámos até ao mítico festival Trans Musicales, em França. Fomos sem grandes expectativas, e regressámos completamente rendidos ao festival.

Desde 1979, o Trans Musicales de Rennes tornou-se um dos maiores laboratórios de descoberta musical do mundo. Foi aqui que os Nirvana tocaram em 1991, antes da explosão de “Nevermind”, que a Björk incendiou o palco primeiro com os Sugarcubes (1988) e depois a solo, que os Daft Punk foram descobertos sem capacetes, que os Portishead (1994) deram um dos seus primeiros concertos e que nomes como Stromae, Ben Harper, Lenny Kravitz, Sonic Youth ou Massive Attack passaram antes de se tornarem referências globais.

Quase quarenta anos depois, o espírito mantém-se intacto: o Trans Musicales continua a ser o festival que descobre o futuro antes de ele existir. Um projeto cultural que não só revela a vanguarda da música actual, como a acompanha durante todo o ano, da programação no Ubu aos apoios a artistas emergentes, passando por ações culturais, projetos de memória e um compromisso pioneiro com sustentabilidade e inclusão.

Nos dias 3 e 7 de dezembro de 2025 teve lugar a 47.ª edição. Entre estreias absolutas, apostas ousadas e artistas prontos a explodir, o Trans Musicales continua a ser um barómetro essencial do panorama musical francês e internacional — e um dos últimos festivais onde ainda se podia dizer: “Eu vi antes de toda a gente”.

A Arte Sonora esteve presente na edição de 2025 a convite da Why Portugal, um organismo de exportação da música portuguesa, financiado de forma sustentada pela Fundação GDA e pela Audiogest, entidades que representam os direitos dos artistas e dos produtores fonográficos, contando ainda com apoios pontuais através de concursos, nomeadamente da DGArtes.

Nesta edição, a música portuguesa fez-se representar por Fidju Kitxora e MAQUINA.

Fidju Kitxora, um coletivo e projeto artístico que transita entre Cabo Verde e Lisboa, apresentou ao público francês o álbum, “Racodja”, colocando todos os resistentes a dançar ao som dos ritmos quentes do semba, kuduro e funaná. O trio lisboeta MAQUINA. ofereceu uma prestação visceral de krautrock e eletrónica industrial, onde não houve viva alma que conseguisse ficar quieta, com moshes e crowdsurfing para dar e vender.

Mas o que é que tem de tão especial um festival como o Trans Musicales?

1| Conceito
Como descrito na introdução, o Trans Musicales funciona como um verdadeiro radar de tendências e um palco de descobertas. Antes de os Nirvana serem o nome gigante que conhecemos hoje, foram “pequenos”, uma banda desconhecida do grande público que precisava de palcos e de um público disposto a ouvi-los. Quem assistiu ao concerto da banda de Kurt Cobain em 1991, certamente que ainda hoje se gaba de lá ter estado. E
por isso amámos o Trans: um festival onde vários projectos musicais mostram o seu valor diante de um público que está realmente disposto a escutar, um público atento, curioso e com uma verdadeira fome de novidade. A isto junta-se a presença massiva de profissionais da música, franceses e estrangeiros, que veem o festival como uma espécie de “bolsa de talentos anual”. Tocar ali pode significar abrir portas para editoras, festivais, agentes e tournée europeias, e muitos artistas dão esse salto logo após a sua participação. Plataformas como a Why Portugal trabalham nos bastidores para apoiar os projectos nacionais na sua internacionalização, como foi o caso dos Maquina. e de Fidju Kitxora nesta edição de 2025, criando contactos e oportunidades. Mas isso é conversa para um artigo mais longo, que podes ler aqui.

2 | Localização
Rennes, a capital vibrante da Bretanha, é o cenário perfeito para o Trans Musicales. A cidade respira cultura e arte em cada esquina. Ao passear pelas ruas, cruzamo-nos com lojas de artesanato cheias de personalidade, galerias de arte e de cerâmica, joalheiros, espaços de artistas plásticos, lojas de música e de instrumentos, livrarias e lojas especializadas em BD e anime… Durante o festival há música por todo o lado, conversas animadas em cafés, filas curiosas à porta de salas inesperadas e um ambiente de comunhão que faz com que toda a cidade pareça um enorme campus artístico. É acolhedora, fácil de percorrer a pé e irresistivelmente viva. Não admira que o Trans Musicales seja tão cool como é a cidade, Rennes tem o espírito perfeito para receber quem vai em busca de descobertas musicais. O Trans Musicales espalha-se por quatro espaços muito distintos entre si: a histórica Salle de la Cité, Les Champs Libres, o multiusos Le Liberté, onde ao início da tarde acontecem concertos gratuitos, e o Parc Expo, um complexo de vários armazéns localizado a cerca de 30 minutos do centro. Para lá chegar, basta apanhar os autocarros disponibilizados pelo festival, que circulam de forma contínua, ou de carro. E o mais surpreendente? Tudo funciona impecavelmente: nada de filas intermináveis, nada de esperas frustrantes. Há um senão neste espaço, a acústica.

3 | Só para Music Lovers
A grandeza do Trans Musicales está na adesão de cerca de 50 000 verdadeiros fãs de música nas últimas edições, que se juntam para ouvir bandas de que provavelmente nunca ouviram falar. Quem vai ao festival vai com a disposição de descobrir música nova, conhecer valores emergentes da música francesa e artistas de várias nacionalidades. O público não paga bilhete para ouvir a banda X ou Y; vai para explorar novos sons, independentemente do género musical. É um festival feito para verdadeiros amantes da música e no último inquérito feito ao público, 58,8% responderam que vão ao festival pela descoberta. Em Portugal, seria impensável que um festival com a dimensão de um NOS Alive conseguisse juntar tanto público apenas para ver bandas emergentes. Normalmente, os grandes festivais nacionais até incluem artistas emergentes em palcos menores, tocando muitas vezes para “meia dúzia” de festivaleiros, visto que maioria do público que pagou bilhete vai apenas assistir aos headliners e pouco mais. Numa escala mais pequena, o festival nacional que se assemelha a um Trans é o MIL – Lisbon International Music Network.

5 razões por que amámos o Festival Trans Musicales de Rennes
(c) Nico M | Trans Musicales

4 | A Velha-Guarda é o amor!
Se nos perguntassem que tipo de pessoas frequentam o festival, imaginaríamos maioritariamente jovens que aproveitam para beber uns copos e divertir-se com os amigos. Mas para além desse facto vimos também uma grande percentagem de cabelos brancos ou cabeças com pouco cabelo, pessoas acima dos 45 anos que vêm ouvir música nova, estão atentos e participam ativamente. Espíritos jovens com uma mente aberta, prontos para descobrir novos estilos, independentemente da idade. Amámos o Trans Musicales porque é um festival para todas as idades, sem preconceitos musicais e sem velhos do Restelo a resmungar que já não se faz música como antigamente.

5 razões por que amámos o Festival Trans Musicales de Rennes
(c) Élodie Le Gall | Trans Musicales

5 | Bilhetes acessíveis e água grátis
Amámos o Trans porque, surpreendentemente, é amigo da carteira, mesmo para uma carteira portuguesa. A água é vida, e aqui isso é levado a sério: há vários pontos de água gratuitos espalhados pelo recinto. Não custa assim tanto, pois não? E nem sequer estamos a falar de um festival com temperaturas acima dos 30º. «
E a cerveja?»: 3,50€ por 0,25l. Quanto aos bilhetes, o passe de três dias varia entre 35€ e 83€, e o bilhete diário oscila entre os 9€ e os 39€.