Depois do berrante e sensual sucesso que fizeram no Primavera Sound Porto, no mesmo palco que Lana Del Rey viria a pisar a seguir, a banda inglesa regressou a Portugal, um ano e meio depois, para um concerto em nome próprio.
Em 2026, foram as The Last Dinner Party, o grande nome da noite e a sua alcunha “baroque ‘n’ roll” encontrou a sala de espetáculos perfeita para completar o visual de quadro do século XVII que a banda sempre pareceu querer pintar, mesmo antes dos seus primeiros singles saírem.
No dia 8 de fevereiro, deram início em Lisboa à digressão europeia de suporte ao seu segundo álbum, “From the Pyre”, lançado em outubro do ano passado. Como primeiro acto, vão acompanhar ao longo desta digressão os Sunday (1994).
À porta estavam voluntários com as famosas fitas a dizer “The Last Dinner Party”, que podem ser adquiridas em todos os concertos. Estas fitas não têm preço fixo, pois são uma iniciativa para ajudar associações de caridade locais, todo o dinheiro gasto nas fitas vai para associações nas cidades onde a banda já tocou e virá a tocar, no caso português revertiam a favor da Refood.
Na audiência, entre a miscelânea de saias, piercings e laços, sentiu-se um verdadeiro espírito de comunidade, especialmente quando eram os aplausos, gritos e assobios, e não a música, que ensurdeciam a sala. E, apesar do público português se ter provado barulhento o suficiente, a acústica do Coliseu nunca se atreveria a lesionar os tímpanos de ninguém. E termos de arquitetura, não há melhor sala de concertos em Portugal para uma banda que invoca um certo aspeto real barroco, quer seja nas músicas, nas vozes, nas roupas ou no cenário do palco.
Às nove da noite abriam o palco, os Sunday (1994) com o tema principal de “Twin Peaks” como introdução, música icónica que gerou uma quantidade de reações aqui e ali. Mais tarde, durante o concerto de The Last Dinner Party, Abigail Morris descreveria como é que a banda conheceu Sunday (1994), com espanto, ao avistarem um grupo de pessoas tão bonitas enquanto passeavam num festival nos Estados Unidos. De facto, o aspecto, juntamente com a energia, tanto suave como feroz, lembram a banda para quem estão a abrir. Começaram o concerto com “Our Troubles”, que rapidamente agarrou a atenção dos presentes. “Still Blue” foi outro destaque, um som mais pesado para uma pura banda de indie da década de 2020, com algumas influências do som do rock alternativo dos anos 1990. Com paciência e treino, conseguiram pôr a plateia a cantar as suas letras, uma esperta combinação entre fazer as pessoas lembrarem-se da banda e conseguir puxar mais do público.
Finalmente,The Last Dinner Party entraram no palco. Para os menos sortudos, o microfone do telemóvel apanhou o som da audiência tão alto, que o início da primeira música passou a ser um barulho de fundo. A voz que lidera o grupo é a de Abigail Morris, nas guitarras estão Lizzie Mayland e Emily Roberts (Lizzie toca também flauta transversal e Emily toca mandolim e flauta transversal), no baixo está Georgia Davies e Aurora Nischevci ocupa-se das teclas, do piano, do órgão, do saxofone, do sintetizador e da keytar. Todas harmonizam com Abigail. Adicionalmente, têm sempre um baterista em digressão, atualmente é Dave Adsett. Para um número tão grande de instrumentos em cima de um palco, a expectativa é alta, e assim que a música se começou a proferir, percebeu-se que The Last Dinner Party são capazes de superar essas expectativas, especialmente no primeiro concerto depois de uma pausa.
Em “Count the Ways” e “Second Best”, dois dos temas mais orelhudos do álbum mais recente, mostraram que o rock and roll pode ser jovial, selvagem e feminino.
Abriram com “Agnus Dei”, primeira faixa de “From The Pyre”, o início perfeito. Gloriosa é a palavra certa para descrever esta entrada que assentou logo o tom de um exército único entre todas as atuais bandas oriundas de Inglaterra e da Irlanda, as duas grandes forças do rock and roll dos últimos anos.
Em “Count the Ways” e “Second Best”, dois dos temas mais orelhudos do álbum mais recente, mostraram que o rock and roll pode ser jovial, selvagem e feminino. Quando chegaram a “Second Best”, já haveriam passado músicas de ambos os álbuns suficientes para agora haver uma maior liberdade para o público perder a vergonha e começar a saltar e a levantar os braços, talvez porque seja a única forma que faça sentido celebrar esta música.
Entre os dois temas anteriormente referidos, houve direito a três faixas seguidas do primeiro álbum “Prelude to Ecstasy”. Em “The Feminine Urge” e “Ceaser on a TV Screen”, os aplausos deixaram uma coisa foi óbvia — apesar de o segundo álbum ser um projeto mais maduro e bem trabalhado, o primeiro continua a ter um impacto enorme na base de fãs e uma força imparável, especialmente quando Abigail Morris perguntou quem é que estava a ver a banda pela primeira vez, e as mãos não foram assim tantas como provavelmente era esperado, significando que muitos testemunharam o seu grande concerto há dois anos no Primavera Sound, quando ainda só “Prelude to Ecstasy” existia. Passando para “On Your Side”, o ambiente acalma e o Coliseu dos Recreios transformou-se num coro disciplinado.
A alegria de Abigail Morris parecia saída de um filme: o seu sorriso constante e as suas infinitas expressões de espanto perante a reciprocidade do público eram capazes de arrancar um sorriso a qualquer pessoa presente. A sua presença em palco exige uma resistência física e uma disposição que nem todos possuem, e é evidente que cantar sem falhar uma única nota enquanto mantém uma performance exultante não é apenas algo que se treina; é algo com que se nasce. Com apenas meia década como voz da banda, Morris já se afirmou como uma das melhores frontwomen da sua geração.
A alegria de Abigail Morris parecia saída de um filme: o seu sorriso constante e as suas infinitas expressões de espanto perante a reciprocidade do público eram capazes de arrancar um sorriso a qualquer pessoa presente. A sua presença em palco exige uma resistência física e uma disposição que nem todos possuem, e é evidente que cantar sem falhar uma única nota enquanto mantém uma performance exultante não é apenas algo que se treina; é algo com que se nasce. Com apenas meia década como voz da banda, Morris já se afirmou como uma das melhores frontwomen da sua geração.
Já de um modo geral, os olhares trocados e Super Bocks na mão entre os elementos da banda mostram que uma amizade profunda e a humilde casualidade no meio da loucura é o que mantém uma banda criativa capaz de constante evolução. Aurora Nishevci protagonizou “I Hold Your Anger” e, seguida por ela, “Gjuha”, que teve direito a um momento de reflexão quando Aurora explicou que o tema se tratava do seu sentimento de falta de conexão ao seu país natal — Albânia do Kosovo — e de não saber a sua própria língua materna.
Seguida de Aurora, veio Lizzie Mayland com “Rifle”. Uma coisa é certa, o talento vocal não é exclusivo a apenas uma pessoa naquela banda. “Rifle”, que rapidamente explodiu em “rockalhada”, aqueceu o público para a gritaria de “Big Dog”. Entretanto, discreta e sempre no seu canto, Emily Roberts fazia-se destacar com os seus dotes na guitarra — a base de riffs pesados que consegue sempre chegar à frente e solos que fazem qualquer um buscar da “air guitar”.
Se já é impressionante replicar as harmonias épicas da versão de estúdio, conseguir elevar ainda mais a fasquia em palco torna “Woman Is a Tree” numa das canções que mais merece ser mencionada quando se fala dos concertos da banda. É em momentos como este — onde a única coisa a preencher o vazio do silêncio é um grupo de vozes isoladas — que o grupo se distingue de todos os seus pares em ascensão.
Entre muito rock and roll que se atreve a assustar o coração de quem não está familiarizado com as músicas da banda, o tema que mais peso aparentou ter foi “Mirror”. Talvez pela sua forte e arrastante lentidão agarrada ao suspense e a sua letra emocionalmente carregada que parece tirar algo que não devia a quem a canta, talvez por isso é que, por uns minutos, houve uma sensação que o Coliseu se tinha transformado no interior de um barco a naufragar, e “Mirror” era a nossa única forma de dizer as últimas palavras a cada um.
Entretanto, Morris fez outra pausa para explicar que as músicas de Last Dinner Party nunca estão realmente completas até serem cantadas com os fãs, e usou a próxima música como um dos maiores exemplos: “The Scythe” já prometia muito nos phones, gira-discos e leitores de CD’s dos fãs, e acabou por ser um dos momentos mais mágicos e coletivos da noite, foi feita para ser admirada e cantada em grupo, uma música que soa a esperança partilhada entre o artista e o fã.
Logo a seguir, a banda abrandou mais um bocadinho com “Sail Away”, música que parece passar despercebida inicialmente, mas, perto do seu fim, as vozes, que faziam lembrar um coro de igreja, encheram a sala. Onde a versão de estúdio abranda e, eventualmente, acaba, a sua versão ao vivo só amplia, e as guitarras preparam-se para o próximo tema “Sinner”, que definiu o início do fim do concerto. Um dos destaques do concerto, com energia cativante, cada pormenor e instrumento é apreciado ao máximo. É obviamente outro favorito dos fãs e a caminho de ser um clássico da banda.
A sua instabilidade faz lembrar a fórmula dos Pixies, a adrenalina de saber que, a qualquer segundo, o que parece ser um música relativamente calma pode mandar abaixo o tecto de qualquer sala em que esteja a ser tocada. A música deu oportunidade a uma interação física e agressiva entre Abigail Morris e as filas da frente.
Mas a reação a “Lady of Mercy” foi ainda mais estrondosa, quase tanto como a faixa em si. O êxtase desta música é monstruoso, é uma canção que implora por um revolução de o outro lado da barreira. A sua instabilidade faz lembrar a fórmula dos Pixies, a adrenalina de saber que, a qualquer segundo, o que parece ser um música relativamente calma pode mandar abaixo o tecto de qualquer sala em que esteja a ser tocada. A música deu oportunidade a uma interação física e agressiva entre Abigail Morris e as filas da frente.
“Inferno”, música que soa ao contrário do que o nome promete, serviu como um descanso para o corpo, sonoramente gracioso e animado, pois o que estava para vir iria criar muita confusão.
No fim de “Inferno”, Abigail Morris dirigiu-se mais uma vez ao público, e nem tinha acabado de dizer as duas últimas palavras — “Nothing Matters” — já o som da audiência era mais forte que os in-ears da banda (algo confirmado por Abigail, que afirmou ouvir muito bem o público, mesmo com os in-ears postos). “Nothing Matters” é o grande hino da banda, capaz de conquistar até os mais cínicos, e estar sempre lá para os fãs. Morris voltou a descer para um momento com o público.
Apesar de “Nothing Matters” ser, sem dúvida, a maior música da banda, assim que saíram do palco era óbvio que ainda faltava algo. Muitos aplausos, assobios, berros, bateres de pés e até direito à típica cantoria para pedir “Só mais uma”, voltaram então para o encore, com uma última canção, seguida de um reprise. “This is the Killer Speaking” começou com uma marcha coreografada por parte da banda toda, e a chegada do seu afetuoso refrão impossível de esquecer preparou a audiência para o que vinha aí — desta vez seríamos nós a ser coreografados. Abigail Morris pediu ao público para fazerem um simples passo de dança, que serviria de fecho do concerto ao som do reprise de “Agnus Dei”.
Segundo Morris, o concerto no Porto mantém-se como um dos mais importantes para a banda e, por isso mesmo, as Last Dinner Party estavam muito entusiasmadas por regressar ao país. A vocalista afirmou ainda que Lisboa é uma das cidades favoritas do grupo e garantiu que não estava a mentir, nem dizia o mesmo em todas as cidades por onde passam e, pela forma convicta como o afirmou, vale a pena acreditar.
As vestimentas elaboradas e excêntricas — algumas particularmente nesta noite, como o flamejante vestido de Georgia Davies, a camisa customizada para Abigail Morris, as calças à boca de sino de Emily Roberts ou as largas camisas e botas altas avistadas entre todos os presentes no palco, estão lentamente a tornar-se num elemento essencial na construção da estética da banda. Parece quase ridículo que um projecto com esta sonoridade demorou tanto tempo a aparecer, mas, na prática, o conceito de conseguir soar a um género perdido algures na Revolução Francesa e ao futuro do rock moderno ao mesmo tempo não é fácil de tirar do papel e requer uma engenharia criativa que, algures em Inglaterra, um grupo de jovens descobriu que tinha.
Em noite de eleições presidenciais misturadas com a confusão da legião de fãs do Benfica a dirigirem-se para o estádio, The Last Dinner Party celebraram a capacidade da música transformar uma sala de estranhos numa fluida forma única com fome de decibéis e letras memorizadas.



























































































