A música de Brigitte Bardot

A música de Brigitte Bardot

28/12/2025

Brigitte Bardot faleceu aos 91 anos, na sua residência de La Madrague, em Saint-Tropez, no sul de França.

A morte da atriz no dia 28 de Dezembro de 2025 foi confirmada pela Fundação Brigitte Bardot, que anunciou «com enorme tristeza» o falecimento da sua fundadora e presidente.

Figura central da cultura francesa do século XX, Brigitte Bardot foi uma das atrizes mais populares e influentes do cinema europeu, contribuindo de forma decisiva para a projeção internacional do cinema francês. Símbolo de libertação sexual, da emancipação da mulher e de uma atitude rebelde face às convenções, tornou-se musa da nouvelle vague e um ícone absoluto da sétima arte.

Ao longo de pouco mais de duas décadas, participou em mais de 40 filmes, construindo uma carreira intensa e marcante. Ainda antes de completar 40 anos, decidiu afastar-se definitivamente do cinema e da vida pública, optando por se dedicar à defesa dos direitos dos animais, causa à qual se entregou de forma total e que viria a definir a sua vida nas décadas seguintes.

Para além do cinema, Brigitte Bardot teve também uma carreira na música, onde revelou outra dimensão da sua personalidade artística. A colaboração com Serge Gainsbourg foi um dos momentos mais significativos desse percurso, deixando canções que se tornaram referências da cultura popular francesa, como “La Madrague”.

Segundo a Fundação Brigitte Bardot, a atriz morreu durante a manhã, no local que escolheu como refúgio longe da exposição mediática e que se tornou um símbolo da sua liberdade e da sua recusa em ceder às pressões da fama. Com a sua morte, desaparece uma das últimas grandes lendas vivas do cinema francês e uma figura que marcou profundamente o imaginário cultural do século XX.

A música de Brigitte Bardot

A música ocupou sempre um lugar central na vida de Brigitte Bardot, não como um exercício de virtuosismo, mas como uma extensão natural da sua personalidade livre, intuitiva e luminosa. «Queria cantar, e sabia o que queria cantar, um pouco de tudo, mas sobretudo canções naturais, felizes e divertidas, que não saíssem de moda com o passar do tempo», disse um dia, uma frase que resume bem a forma como encarou o canto, sem pretensões, guiada pelo prazer e pela autenticidade.

Desde muito jovem, a música acompanhou o seu quotidiano. Nos anos 1950, Roger Vadim falava das suas intensas “obsessões” periódicas com a guitarra, fases em que Bardot se deixava absorver por melodias sul-americanas, com influências de flamenco, tocadas de forma espontânea e despreocupada. Essa relação instintiva com a música acabaria por definir também o seu percurso discográfico.

Foi Sacha Distel quem a ajudou a profissionalizar essa faceta artística, incentivando-a e dedicando-lhe várias canções. Em 1961 surge a sua primeira gravação, “Sidonie”, um tema que causou sensação pelos versos provocadores, revelando desde logo a mistura de ingenuidade e ousadia que marcaria a sua imagem musical.

Ao longo das últimas décadas, Brigitte Bardot foi assumindo posições públicas cada vez mais radicais, incluindo o apoio à extrema direita francesa e declarações contra a imigração e diversas minorias, distanciando-se da imagem libertária que marcou a sua carreira.

Nos últimos anos, somaram-se críticas às vacinas e às políticas sanitárias durante a pandemia, bem como várias polémicas que resultaram em condenações judiciais. Em 2021, foi condenada em França por insultos racistas dirigidos a habitantes da ilha da Reunião, num caso que gerou forte reação de autoridades e organizações antirracistas, segundo a agência France Presse.

Apesar de afirmar concentrar o seu ativismo na causa animal, Bardot manifestou apoio a figuras como Jean-Marie e Marine Le Pen, além de críticas públicas a presidentes franceses, ambientalistas e ao movimento feminista #MeToo, revelando um percurso público marcado por contradições difíceis de ignorar.

Pouco depois, em 1963, seria editado o LP que incluía “La Madrague”, canção que se tornaria inseparável do seu nome e do seu imaginário.

“La Madrague”, filmada na sua própria casa e dirigida por François Reichenbach, é um retrato quase documental da artista. No vídeo, Bardot aparece descalça, vestida de forma simples, caminhando entre a praia e a casa, num registo íntimo e sereno. A letra, com imagens como «Shellfish and crustaceans, on the abandoned beach…», evoca um refúgio longe do ruído da fama, celebrando a tranquilidade e a beleza natural da Riviera francesa. É essa simplicidade que fez da canção um clássico intemporal, capaz de transportar quem a escuta para um mundo de sol, mar e calma.

O repertório de Bardot incluiu ainda colaborações marcantes, entre elas um tema escrito por Serge Gainsbourg, “L’appareil à sous… Pir”, dando início a uma parceria artística que produziria algumas das canções mais memoráveis da artista.

Gainsbourg soube explorar a sua voz falada, quase ingénua, transformando-a num elemento expressivo e moderno, em sintonia com o espírito dos anos 1960.

Não foi apenas atriz ou cantora, foi, e continua a ser, um símbolo de um certo modo de viver, onde a música surge como celebração da vida, da leveza e de uma alegria que resiste ao tempo.

Presença habitual nos programas televisivos de passagem de ano, Brigitte Bardot cantava, dançava e representava com leveza e alegria. «Foi divertido, foi alegre, foi encantador, um tempo de leveza e de joie de vivre, divertimo-nos e levámos um toque de alegria a quem nos via», recordou mais tarde, descrevendo uma época marcada pelo entretenimento despreocupado e pela vontade de partilhar felicidade.

Musicalmente, assumia sem reservas «um gosto exorbitante e inegável pela música sul-americana, bossa nova, cha cha cha, mambo, tango, saudade…», influências que atravessam várias das suas gravações e contribuem para o carácter solar e cosmopolita da sua obra. O legado musical de Brigitte Bardot permanece ligado à ideia de liberdade, prazer e elegância natural.

Não foi apenas atriz ou cantora, foi, e continua a ser, um símbolo de um certo modo de viver, onde a música surge como celebração da vida, da leveza e de uma alegria que resiste ao tempo.