A música de raiz tradicional também precisa de lugar
Vencedores da 1ª edição dos Play Tradicional ©luisrocha

A música de raiz tradicional também precisa de lugar

20/06/2026

 A 2.ª edição dos PLAY Tradicional – Prémios da Música Portuguesa de Raiz Tradicional, promovidos pela Audiogest, terá lugar no dia 19 de julho, novamente no âmbito do festival Artes à Vila, que decorre entre 17 e 19 de julho.

A música de raiz tradicional portuguesa é uma das áreas mais respeitadas em abstrato e, ao mesmo tempo, uma das menos centrais na conversa pública sobre a música em Portugal. É facilmente convocada quando se fala de património, identidade ou memória, mas raramente é tratada com a mesma atenção que damos a outros géneros quando falamos de criação, circulação, edição, públicos, programação ou reconhecimento profissional.

Esse é, talvez, o ponto mais importante: a música tradicional portuguesa não existe apenas como herança. Existe como prática artística em discos, em palco, em instrumentos, em arquivos e recolhas, em vozes, nas comunidades e nos artistas que continuam a trabalhar a partir dessa matéria sem a transformar numa peça de museu.

É nesse contexto que regressam os PLAY Tradicional – Prémios da Música Portuguesa de Raiz Tradicional, promovidos pela Audiogest. A 2.ª edição terá lugar no dia 19 de julho, novamente no âmbito do festival Artes à Vila, que decorre entre 17 e 19 de julho.

Esse é, talvez, o ponto mais importante: a música tradicional portuguesa não existe apenas como herança.

Depois de uma primeira edição realizada em 2025, no Mosteiro da Batalha, os PLAY Tradicional voltam a afirmar um espaço próprio para artistas, grupos, obras e personalidades que têm contribuído para preservar, renovar e projetar a música de raiz tradicional portuguesa. Na primeira edição estiveram a concurso 16 nomeados, distribuídos por quatro categorias.

Foram distinguidos Janita Salomé, com “Pássaro Azul”, na categoria Melhor Álbum de Música Tradicional; Júlio Pereira, com “Rasgar”, em Melhor Álbum ou EP Instrumental; Vitorino, como Melhor Artista ou Grupo Tradicional; e Cara de Espelho, com “Cara de Espelho”, em Melhor Reinterpretação de Música Tradicional.
A lista é relevante porque mostra a amplitude deste território. Há percurso, composição, interpretação, trabalho instrumental, recriação e continuidade. E se há artistas que fazem parte da história da música portuguesa, também há projetos recentes que olham para a tradição como matéria viva, disponível para novas leituras e novos contextos.

Este ano, os prémios passam a contar com cinco categorias: Melhor Álbum de Música Tradicional, Melhor Artista ou Grupo Tradicional, Melhor Álbum ou EP Instrumental, Melhor Recriação da Música de Raiz Tradicional e Prémio Guardião da Tradição.

A nova categoria é particularmente importante. O Prémio Guardião da Tradição pretende distinguir personalidades cuja dedicação tem sido determinante para preservar, valorizar e transmitir a música tradicional portuguesa às gerações futuras. Poderão ser reconhecidos construtores de instrumentos tradicionais, produtores dedicados à música tradicional portuguesa, investigadores, recolhedores de património oral e outras figuras cuja atividade tenha contribuído de forma relevante para a conservação e desenvolvimento deste património musical.

É uma escolha acertada porque há muito trabalho essencial que acontece fora do centro da exposição pública. A música chega ao palco, mas antes disso há quem recolha, documente, ensine, fabrique, grave, acompanhe, estude e mantenha vivo um conhecimento que não se transmite sozinho. Reconhecer esse trabalho é também reconhecer que a música é feita por ecossistemas, e não apenas por momentos de visibilidade.

Reconhecer esse trabalho é também reconhecer que a música é feita por ecossistemas, e não apenas por momentos de visibilidade.

Durante a gala da 2.ª edição dos PLAY Tradicional atuarão Romeu Bairos, Joana Alegre e Cristina Maria, três nomes que, de formas diferentes, ajudam a mostrar como a música de raiz pode dialogar com o presente sem perder densidade, identidade ou ligação ao território de onde parte. Mas a presença da Audiogest no Artes à Vila não se limita à entrega dos prémios. A associação apoia também o palco PLAY Tradicional, que este ano contará com atuações de Tomás Wallenstein e Jorge Palma, no dia 18 de julho, e de Ana Lua Caiano, no dia 19 de julho.

Esse ponto é importante: premiar é relevante, mas criar contexto para a música acontecer ao vivo é igualmente decisivo. A valorização da música de raiz tradicional portuguesa passa por lhe dar palco, público, comunicação e continuidade. Passa por a colocar em diálogo com artistas de diferentes gerações e linguagens, demonstrando que a tradição não é um compartimento fechado, mas uma dimensão ativa da música portuguesa.

Os PLAY Tradicional não resolvem todos os desafios desta área. Nenhum prémio o faz. Mas ajudam a corrigir uma ausência: a falta de espaços regulares de reconhecimento público para uma parte da música portuguesa que tem história, público, criação e futuro.

Num tempo em que se fala muito de diversidade musical, importa que essa diversidade não seja apenas uma palavra simpática. A música de raiz tradicional portuguesa faz parte dessa diversidade. E deve ser tratada como tal: com atenção crítica, com estruturas de valorização, com presença em palco e com reconhecimento profissional.

As candidaturas à 2.ª edição dos PLAY Tradicional estão abertas até 26 de junho, através do formulário disponível na página dos PLAY – Prémios da Música Portuguesa.