A Sagração do Bailado Negro dos Gaerea no Lisboa Ao Vivo
(c) Inês Silva

A Sagração do Bailado Negro dos Gaerea no Lisboa Ao Vivo

07/12/2025

Review

Voz
10/10
Banda
10/10
Som
10/10
Ambiente
10/10
Overall
10.0/10
Hellbound
Submerged
Hope Shatters World Ablaze
Salve
The Poet’s Ballet
Mirage
Unknown
Wilted Flower
Laude

No seu muito aguardado regresso a casa, os Gaerea presentearam-nos com uma performance profundamente tocante, plena de simbolismo e bem representativa da sua transgressão de fronteiras dentro da música extrema. Carregados a ombros por um LAV-Lisboa Ao Vivo repleto de fãs, este concerto acentuou a ideia que os Gaerea já não são o segredo mais bem guardado do metal nacional.

A primeira vez que este vosso escriba viu os Gaerea ao vivo foi no inquietante ano de 2022, esse mesmo ano em que a pandemia deu-nos ordem de soltura e pudemos, finalmente, regressar aos concertos ao vivo sem quaisquer restrições. Na altura, os Gaerea já levavam na bagagem os seus três primeiros álbuns de estúdio – “Unsettling Whispers” (2018) “Limbo” (2020) e “Mirage” (2022) – que apesar de ainda se apresentarem fieis às raízes do black metal já continham alguns elementos vanguardistas que destacavam a banda não só na cena nacional, mas também no panorama do underground internacional.

Quis o destino que em 2022 os Gaerea se apresentassem pela primeira vez no maior festival de metal do país, o VOA Heavy Rock Festival (hoje conhecido como EVIL LIVE). Porém, esse concerto acabou por mostrar-nos uns Gaerea fora da sua configuração natural. Quem desconhecia a banda, como era o meu caso, não foi percetível, mas quem já acompanhava a banda desde o “Unsettling Whispers”, ou até mesmo desde o EP homónimo, certamente que percebeu que algo não estava igual. A configuração em quarteto com um vocalista/guitarrista e a alteração no timbre vocal rapidamente levantaram a questão de uma possível mudança na formação.

Mais tarde, viria a confirmar-se que esta formação tinha sido apenas um desenrascanço, e que a base do grupo na forma de um quinteto, com duas guitarras e um vocalista, seria para manter. Ainda assim, a transformação mais impactante foi no lugar de vocalista com Alpha, fundador, principal compositor e, até então guitarrista da banda, a ocupar essa função no ressurgimento da formação em quinteto. É caso para dizer que esse concerto do VOA foi uma espécie de primeiro dia do resto da vida dos Gaerea.

Alpha não só trouxe para o microfone nuances vocais com mais textura e registo dinâmico, como também transformou todo o conceito performativo da banda com a introdução de uma fluidez corporal que se aproxima do bailado contemporâneo e que se associa a essa ideia de libertação na forma de catarse emocional, algo tão presente no repertório dos Gaerea.

Entretanto passaram-se três anos. Infelizmente, não houve oportunidade deste redator presenciar o clímax da tour de “Mirage” no LAV-Lisboa Ao Vivo em 2023, mas isso não impediu o acompanhamento contínuo do trajeto em ascendência que os Gaerea têm vindo a fazer.

Sem medo de arriscar e sem nunca se vergarem aos formalismos do black metal, os Gaerea foram novamente em busca de romper com os cânones.

Sem medo de arriscar e sem nunca se vergarem aos formalismos do black metal, os Gaerea foram novamente em busca de romper com os cânones. “Coma” (2024) foi o produto que mostraram ao mundo e que chocou e deslumbrou os mais puristas e progressistas, respetivamente. Um maior enfoque na melodia e em passagens atmosféricas, recurso à voz limpa e a traços de punk (particularmente na bateria) foram os elementos que ajudaram a demarcar os Gaerea no panorama do metal, levando a que o seu nome fosse cada vez mais falado lá fora, particularmente nos EUA onde embarcaram numa tour com os suíços Zeal & Ardor.

“Coma” só viria a ter a sua apresentação em Portugal no festival EVIL LIVE de 2025. Sob um sol abrasador e com os termómetros a bater nos 40º, os Gaerea impuseram a sua imagem de marca sonora e performativa num palco que também foi pisado por vedetas do metal internacional como foi o caso dos Falling In Reverse e dos Slipknot. Na maior montra do metal em Portugal, os Gaerea aproveitaram ainda para anunciar o seu regresso a casa para Dezembro de 2025 com dois concertos no Porto e em Lisboa.

A segunda metade de 2025 trouxe-nos dois singles que desafiaram mais uma vez as convenções de um subgénero tão fechado como o black metal. “Hellbound” e “Submerged” representam a polaridade fogo/água, mas na sua sonoridade convergem numa fusão sonora que gostamos de apelidar de Black Metalcore.

Para 2026, os Gaerea têm já definido o lançamento do seu quinto álbum de estúdio “Loss”, que promete ser, mais uma vez, bastante disruptivo, mas sem nunca perder a marca de identidade que, álbum após álbum, faz dos Gaerea uma das mais fascinantes bandas do metal contemporâneo.

Mas, agora deixemo-nos de retrospetivas e foquemo-nos na comunhão vivida no LAV no concerto de celebração dos Gaerea que ainda contou com os convidados especiais Apotheus.

Apotheus

Provenientes de Paços de Ferreira, os Apotheus tiveram a nobre tarefa de abrir estas duas datas do Porto e Lisboa. A sua sonoridade de metal progressivo poderia parecer algo deslocada face ao registo sonoro dos cabeça de cartaz, mas mal a banda entrou em palco e atacou “Caves of Steel” percebeu-se o porquê da escolha.

Esta é uma banda que está no ativo desde 2008 e que transporta para palco toda a sua proficiência criativa e performativa. Desde as televisões laterais com projeções animadas à complexidade das composições, passando pela mistura muito bem conseguida para uma banda de abertura, deixando apenas a desejar no equilíbrio das guitarras e baixo, este foi um concerto que agarrou o público do princípio ao fim. Temas como “Shape and Geometry”, “Boundaries of Perception” e ” A New Beginning” ilustraram essa experiência adquirida pela banda ao longo de quase duas décadas de carreira. Sabemos que é sempre difícil uma banda de abertura agarrar o público, mas a voz distinta de Miguel Andrade, os riffs intricados a convidar ao headbang e a boa disposição entre banda e plateia ajudaram a quebrar esse gelo.

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Gaerea

A antecipação para este concerto dos Gaerea era palpável, e o LAV estava repleto de fãs de  várias gerações e de vários espectros sonoros da música pesada que convergiram numa celebração orgulhosa do percurso ascendente que esta banda portuense tem feito dentro e fora de portas . 

Do concerto do EVIL LIVE ao concerto do LAV passaram cerca de cinco meses. Pode parecer muito ou pouco, mas no caso dos Gaerea foi o suficiente para assistirmos a transformações profundas na demografia dos seus concertos. Os dois novos singles de “Loss” conseguiram levar a banda até um público mais jovem que se identifica sonicamente com essa dicotomia entre agressividade e suavidade, “barulho” e melodia e com as letras com um caráter mais emotivo e vulnerável.

“Hellbound” com as suas cores quentes levou-nos para as profundezas do inferno, enquanto “Submerged” com tons frios afundou-nos num mar agitado.

Aliás, foi mesmo com a cartada “Hellbound” e “Submerged” que os Gaerea deram início a uma experiência que se revelou multissensorial. Antagónicas ambas soaram com o vigor e o dinamismo que se exige. A primeira colocou logo à vista uma variação das máscaras características da banda numa variante repleta de brilhantes, uma das muitas jogadas artísticas do grupo. Por sua vez, e numa procura de ilustrar as emoções expressadas nas letras e nas respetivas capas dos singles, podemos também testemunhar o imponente jogo de luzes que acompanhou de forma brilhante toda a performance. “Hellbound” com as suas cores quentes levou-nos para as profundezas do inferno, enquanto “Submerged” com tons frios afundou-nos num mar agitado.

As interações com o público entre músicas foram fugazes, mas permitiram perceber toda a emoção e carinho que os Gaerea estavam a sentir naquele ambiente tão caloroso. Sem tempo a perder, a setlist prosseguiu com uma ordem cronológica que se desenrolou do presente para o passado.

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“Hope Shatters” trouxe essa sensação de estarmos a assistir a uma performance de poesia em movimento, com as palavras a saírem da boca de Alpha a converterem-se em movimentos corporais que demonstram esse contraste harmonioso entre brutalidade e delicadeza. Já “World Ablaze” colocou em evidência a força criativa e dinâmica do baterista Xi. Da batida punk ao blast beat, passando pelo double bass com o ride, todos estes estilos surgem bem articulados entre si, sem transições bruscas ou despropositadas.

Algo que também não nos passou ao lado foi o arsenal de LTDs que surgiram nas mãos de Delta, Beta e Rho. Em “Hellbound” Delta e Beta surgiram com modelos de sete cordas. A primeira recorreu a uma MH-1007 Evertune com EMGs 81 e 85, já o segundo usou uma M-7B HT Black Metal com um Seymour Duncan Pretoened. Ao longo do resto do concerto Delta não abdicou da sua EC-1000 EVERTUNE BB e Beta da sua EC-1000T CTM EVERTUNE BLACK ambas com pickups Fishman Fluence Classic. Por sua vez, Rho não largou o seu B-205 SM NS equipado com dois humbuckers ESP SB-5. No que diz respeito ao processamento de efeitos, os Gaerea são fãs da Quad Cortex da Neural DSP, o que nos leva a crer que a sua amplificação em palco seja completamente digital e apoiada por Kempers Profiler. Não menos importante é a escolha de palhetas da banda. Para um estilo de tocar tão preciso, os Gaerea necessitam de uma palheta com uma excelente resposta, desta forma a sua escolha assenta nas icónicas Jazz III.

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Mas, retomemos agora ao concerto. “Salve” e “Mirage” do álbum “Mirage” ainda soam de forma cortante e transmitem toda aquela catarse percecionada nos primeiros registos da banda. Para satisfação dos fãs mais antigos, os Gaerea ainda revisitam este repertório, mas, será que poderemos questionar até quando? Com as novas composições a distanciarem-se cada vez mais do black metal tradicional, será que a banda não irá dissociar-se deste período? No mundo da música pesada, e particularmente do metalcore, são vários os nomes que foram transformando o seu som ao longo dos álbum e que já não se reveem na sonoridade dos primeiros trabalhos como é o caso dos Bring Me The Horizon e dos Architects. Será que os Gaerea também vão chegar a esse ponto? Fica a pergunta.

Os Gaerea já não são só nossos, são agora também do mundo, mas como a banda mencionou em palco, nada se compara a tocar em casa.

Intercalados com a fúria do black metal surgiram momentos de maior introspeção e transcendência. As paisagens sonoras atmosféricas de “The Poet’s Ballet” e “Wilted Flower” aliadas a uma voz hipnótica sugaram-nos numa contemplação profunda. Já “Unknown” absorveu-nos com os seus riffs incisivos.

Para o fim, ficou “Laude”, esse momento cristalizou uma noite que ficará marcada para sempre na história da banda. Os Gaerea já não são só nossos, são agora também do mundo, mas como a banda mencionou em palco, nada se compara a tocar em casa. Com uma estratégia bem definida que procura contrariar a saturação dos concertos da banda em Portugal, os Gaerea acabam por tocar no nosso país uma ou duas vezes por ano, às vezes nem isso. No fundo, é esse afastamento que transforma os seus regressos em experiências profundamente emotivas e especiais, onde o orgulho e o desejo de ver a banda a conquistar o mundo falam mais alto.

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