Ícones do acid jazz e do disco funk, os Jamiroquai apoderaram-se do Hipódromo Manuel Possolo, onde proclamaram uma autêntica febre de sábado à noite. Jay Kay, o eterno mestre de cerimónias da banda, liderou um banquete de groove que se estendeu do primeiro ao último segundo do concerto e confessou que Cascais já faz parte da sua história há muitos muitos anos.
Foram precisos 24 anos e 11 concerto para Jay Kay, vocalista e líder dos Jamiroquai, se sentir verdadeiramente em casa em Portugal. «Hoje de manhã falei com a minha mãe e disse-lhe que ia tocar em Cascais. Ela disse-me que foi aqui que eu fui “feito”!» Numa das poucas intervenções para com o público, Jay Kay procurou assim mostrar que aquilo que o liga a Portugal é algo muito mais profundo que apenas o carinho dos fãs e a quase dúzia de concertos que já deu por cá. Na verdade, a sua relação com o nosso país é umbilical, pois o seu pai, que segundo o vocalista esteve presente no concerto, é português e curiosamente tem um passado ligado à música. Falamos de Luís Saraiva, aka Luís Waddington, que foi guitarrista do Conjunto Mistério nos anos 60. O mesmo, em 1970, acabaria por acompanhar Fernando Tordo no célebre Festival da Eurovisão.
Foi então com o sabor de tocar em “casa” que os Jamiroquai partiram para a última data da perna europeia da The Heels of Steel Tour, uma digressão que cruza os grandes êxitos com a pré-promoção do 9º álbum da banda, um registo que ainda não foi lançado. A estratégia tem assim passado pela apresentação de dois temas inéditos, “Shadow in the Night” e “Disco Stays the Same”. No decorrer do concerto esta pareceu-nos uma excelente estratégia, visto que os novos temas surgiram bem encadeados e “disfarçados” entre clássicos que já fazem parte das playlists das pistas de dança há décadas como é o caso de “Space Cowboy”, “Alright” e “Travelling Without Moving”.
Mas, mesmo que o repertório do concerto fosse na sua maioria composto por material mais recente o público certamente não iria importar-se. Afinal, esta é a primeira grande tour dos Jamiroquai desde a Automaton Tour 2017-2019, e mais do que as letras e as melodias, é o groove que atrai o público para uma noite de boogie com uma das mais fascinantes e dotadas bandas de música de dança. Mas, tal não seria possível se Jay Kay não tivesse na sua retaguarda uma banda composta por músicos do mais elevado calibre. Como único membro fundador, o músico tem assistido à entrada e saída de vários elementos, assegurando-se sempre que a proficiência técnica e a coesão rítmica estão no nível mais alto.
Juntos elevaram o repertório dos Jamiroquai para patamares estratosféricos, com longas secções instrumentais onde o pocket surgiu como o elemento agregador de uma explosão sonora psicadélica.
Com a The Heels of Steel Tour entrou precisamente uma nova fornada de elementos: Romina Johnson nos coros, Sara De Santis nos teclados e Fabio De Oliveira na percussão. Dos três, Fábio foi quem roubou o maior protagonismo com a sua precisão latina nas congas a cruzar-se com a bateria, o baixo, a guitarra e os teclados dos veteranos Derrick McKenzie, Paul Turner, Rob Harris e Matt Johnson. Juntos elevaram o repertório dos Jamiroquai para patamares estratosféricos, com longas secções instrumentais onde o pocket surgiu como o elemento agregador de uma explosão sonora psicadélica. Neste registo onde acid jazz, funk e disco se cruzam é mandatório fugir aos arranjos originais que encontramos gravados nos álbuns. Aliás, exige-se mesmo que os músicos se percam em variações e improvisações para que o público se possa entregar por completo a uma dança extática. E assim foi ao longo de 1 hora e 30 minutos de concerto.
O público correspondeu à chamada sonora, com vários fãs a envergarem orgulhosamente os chapéus espalhafatosos que Jay Kay popularizou ao longo dos anos e a celebrarem temas icónicos como “Little L”, “Canned Heat”, “Cosmic Girl”, “Love Foolosophy” e “Virtual Insanity”.
Pode ser apenas a nossa perceção, mas sentimos que ainda existe uma ideia generalizada de que a música de dança ao vivo deve ser minimalista em termos de recursos humanos. Em Cascais, os Jamiroquai provaram-nos que não é bem assim. Aliás, já tínhamos chegado a essa conclusão nos concertos dos Parcels e L’Imperatrice. O impacto que um conjunto de músicos a groovar entre si tem no público é algo transcendental, e não pode ser substituído por um dj e uma mesa de mistura. E isso viu-se na performance de Moulinex, irrepreensível na escolha de repertório e no trabalho de mistura, mas não tão impactante. É por isso que bandas como os Jamiroquai continuam a ser fundamentais, não só para manter viva a essência da música de dança, mas também o valor de um repertório que por vezes é desvalorizado quando escutado noutro contexto.