Fotos cedidas por Vera Marmelo

Ágora: Leiria existe, e está culturalmente muito viva

22/09/2026

No encerramento do verão, o Castelo de Leiria transformou-se num ponto de encontro entre música, artes performativas, instalações e comunidade. Durante três dias, o Ágora convidou à escuta, à contemplação e à partilha, numa programação que fez do castelo um lugar de encontro cultural e mostrou uma cidade em plena efervescência artística.

Ágora: praça pública da Grécia Antiga que designava o centro de reunião da vida comercial, social, cultural e política.

Agora, em Leiria, o centro de reunião cultural e social ganhou lugar no Castelo de Leiria, com uma programação artística homónima, condensada num único fim de semana.

A decorrer no encerramento do verão (18, 19 e 20 de setembro), o Ágora abre as portas do emblemático e imponente Castelo de Leiria à escuta, à pausa e à contemplação — tanto da vista sobre a cidade como da música, das artes performativas, das instalações artísticas e das oficinas.

Aquilo que parece fora de moda ou de época ganha outro valor em Leiria: famílias e amigos reúnem-se em torno de um banquete cultural, entre abraços, sorrisos e pausas necessárias para a apreciação interior e exterior. Dos miúdos aos graúdos, a felicidade estende-se pelos corpos que preenchem o castelo.

Da varanda do Castelo sente-se a respiração de êxtase e afeto de uma cidade que sabe acolher quem a habita, mas também quem a visita. “Partir pão, partir pedra” tornou visível o invisível: o amor, o carinho, a partilha e a união ganharam a forma de um piquenique comunitário, tornando a refeição partilhada o gatilho para o diálogo, a reunião e a cumplicidade. Enquanto as papilas gustativas brincavam, a vista sobre a cidade transformou os olhos em binóculos apaixonados.

A noite foi caindo lentamente e, do outro lado da porta das varandas, aguardava-nos o primeiro momento musical, com Israa Shalaby, seguido da instalação artística de Carincur e João Pedro Fonseca, intitulada “Until Nothing Falls, Gravity Waits”. Dois momentos envolventes para o recolhimento da noite que avançava e preparava o segundo dia de Ágora.

O castelo é o ponto de partida para uma viagem cultural dos sentidos onde encontramos o norte, o sul, o este e o oeste como o nosso atlas sensitivo e imaginativo, que nos conduz por imersões constantes.

Ao segundo dia de Ágora, os pés formigaram na subida ao castelo e os corpos ganharam asas de antecipação por mais uma mão-cheia de celebração artística.

Rita Silva e Mbye Ebrima estrearam a tarde quente nas varandas do castelo; Manto Azul levou-nos até à igreja da Pena, onde encantou os crentes de uma modalidade musical que se destaca por nos transportar para um terreno místico de evasão.

Asmâa Hamzaoui e Bnat Timbouktou, um coletivo feminino marroquino que envergou um Guembri e três pares de Qraqeb, apresentou-se como um símbolo revolucionário, quebrando séculos de restrições patriarcais.

Os Paus terminaram o segundo dia num lusco-fusco de cores quentes no céu, naquilo que poderia ser anunciado como o elemento de uma tragédia, ou seja, o anúncio do próprio enterro. Uma despedida que se tem fragmentado em diversos concertos e que leva os seus admiradores a amadurecerem a ideia amarga e penosa da morte. No fim desta parte do enterro, saímos com um sorriso no rosto; afinal, enquanto formos vivos, os Paus viverão dentro de nós.

Paus (c) Vera Marmelo

Constata-se in loco que Leiria, de facto, existe e apresenta-se muito bem de saúde cultural.

Ao terceiro e último dia de uma programação que fala várias línguas artísticas, a romaria voltou a fazer-se até ao ponto mais alto da cidade. Anti-princesas, uma peça de Idade Contemporânea para esclarecer crianças e adultos sobre quem foi Juana Azurduy, rompeu o dia quente que levou os resistentes a caminhar rumo ao fresco das varandas.

El Djin e Margaret Hermant tranquilizaram-nos o coração agitado, provocando um choro de comoção dentro de nós.

No derradeiro adeus desta edição, Djali Binto Kanuté estalou com uma linguagem rítmica e contemporânea, como que a despertar-nos para sacudir a tristeza.

Djali Binto Kanuté (c) Vera Marmelo

Nem os cálidos dias deste fim de semana nos afastaram das constantes subidas ao castelo. As palavras artísticas faladas pela boca do Ágora foram como água fresca, e nós estávamos, definitivamente, com sede.

Constata-se in loco que Leiria, de facto, existe e apresenta-se muito bem de saúde cultural.