No encerramento do verão, o Castelo de Leiria transformou-se num ponto de encontro entre música, artes performativas, instalações e comunidade. Durante três dias, o Ágora convidou à escuta, à contemplação e à partilha, numa programação que fez do castelo um lugar de encontro cultural e mostrou uma cidade em plena efervescência artística.
Ágora: praça pública da Grécia Antiga que designava o centro de reunião da vida comercial, social, cultural e política.
Agora, em Leiria, o centro de reunião cultural e social ganhou lugar no Castelo de Leiria, com uma programação artística homónima, condensada num único fim de semana.
A decorrer no encerramento do verão (18, 19 e 20 de setembro), o Ágora abre as portas do emblemático e imponente Castelo de Leiria à escuta, à pausa e à contemplação — tanto da vista sobre a cidade como da música, das artes performativas, das instalações artísticas e das oficinas.
Aquilo que parece fora de moda ou de época ganha outro valor em Leiria: famílias e amigos reúnem-se em torno de um banquete cultural, entre abraços, sorrisos e pausas necessárias para a apreciação interior e exterior. Dos miúdos aos graúdos, a felicidade estende-se pelos corpos que preenchem o castelo.
Da varanda do Castelo sente-se a respiração de êxtase e afeto de uma cidade que sabe acolher quem a habita, mas também quem a visita. “Partir pão, partir pedra” tornou visível o invisível: o amor, o carinho, a partilha e a união ganharam a forma de um piquenique comunitário, tornando a refeição partilhada o gatilho para o diálogo, a reunião e a cumplicidade. Enquanto as papilas gustativas brincavam, a vista sobre a cidade transformou os olhos em binóculos apaixonados.
A noite foi caindo lentamente e, do outro lado da porta das varandas, aguardava-nos o primeiro momento musical, com Israa Shalaby, seguido da instalação artística de Carincur e João Pedro Fonseca, intitulada “Until Nothing Falls, Gravity Waits”. Dois momentos envolventes para o recolhimento da noite que avançava e preparava o segundo dia de Ágora.

O castelo é o ponto de partida para uma viagem cultural dos sentidos onde encontramos o norte, o sul, o este e o oeste como o nosso atlas sensitivo e imaginativo, que nos conduz por imersões constantes.
Ao segundo dia de Ágora, os pés formigaram na subida ao castelo e os corpos ganharam asas de antecipação por mais uma mão-cheia de celebração artística.
Rita Silva e Mbye Ebrima estrearam a tarde quente nas varandas do castelo; Manto Azul levou-nos até à igreja da Pena, onde encantou os crentes de uma modalidade musical que se destaca por nos transportar para um terreno místico de evasão.


Asmâa Hamzaoui e Bnat Timbouktou, um coletivo feminino marroquino que envergou um Guembri e três pares de Qraqeb, apresentou-se como um símbolo revolucionário, quebrando séculos de restrições patriarcais.



Os Paus terminaram o segundo dia num lusco-fusco de cores quentes no céu, naquilo que poderia ser anunciado como o elemento de uma tragédia, ou seja, o anúncio do próprio enterro. Uma despedida que se tem fragmentado em diversos concertos e que leva os seus admiradores a amadurecerem a ideia amarga e penosa da morte. No fim desta parte do enterro, saímos com um sorriso no rosto; afinal, enquanto formos vivos, os Paus viverão dentro de nós.

Constata-se in loco que Leiria, de facto, existe e apresenta-se muito bem de saúde cultural.
Ao terceiro e último dia de uma programação que fala várias línguas artísticas, a romaria voltou a fazer-se até ao ponto mais alto da cidade. Anti-princesas, uma peça de Idade Contemporânea para esclarecer crianças e adultos sobre quem foi Juana Azurduy, rompeu o dia quente que levou os resistentes a caminhar rumo ao fresco das varandas.
El Djin e Margaret Hermant tranquilizaram-nos o coração agitado, provocando um choro de comoção dentro de nós.
No derradeiro adeus desta edição, Djali Binto Kanuté estalou com uma linguagem rítmica e contemporânea, como que a despertar-nos para sacudir a tristeza.

Nem os cálidos dias deste fim de semana nos afastaram das constantes subidas ao castelo. As palavras artísticas faladas pela boca do Ágora foram como água fresca, e nós estávamos, definitivamente, com sede.
Constata-se in loco que Leiria, de facto, existe e apresenta-se muito bem de saúde cultural.