Os Guns N’ Roses regressaram a Portugal para um concerto no Estádio de Coimbra. Quarenta anos depois do seu primeiro espetáculo, a 6 de junho de 1985, como relembrou Duff McKagan nas redes sociais, continuam a subir aos palcos e a manter vivo o espírito do rock n’ roll. Foi perfeito, longe disso…
[Não foi permitida pela banda, a habitual reportagem fotográfica]
Seria fácil, e talvez preguiçoso, começar esta crítica a escrever sobre o assunto do momento: as limitações vocais de Axl Rose ou da inevitável passagem do tempo. Há quem insista em comparar cada nota cantada hoje com os agudos de há trinta anos, como se o tempo tivesse congelado e os palcos fossem cápsulas imunes à idade. Mas cair nessa armadilha seria ceder à desilusão pronta-a-servir, aquela que já vem escrita antes mesmo do primeiro acorde.
Há críticas que se escrevem sozinhas, especialmente nos dias seguintes aos concertos, focadas em tudo o que “já não é”. Mas talvez o essencial esteja em olhar para o que “ainda é”. E ali, no Estádio Cidade de Coimbra, o que houve foi entrega. Foi suor. Foi emoção. E isso, convenhamos, não se mede em decibéis nem em falsetes perdidos.
Os Guns N’ Roses são uma instituição mundial, um nome poderoso e respeitado que continua a atrair, aos estádios por todo o mundo, fãs de todas as idades. Desde o jovem Pedro, que assistia entusiasmado ao lado do pai nas bancadas do Estádio Cidade de Coimbra, até ao Sr. António Bento que, com os seus 64 anos, 40 deles a ouvir com paixão os clássicos da banda, exibia um semblante de euforia e ansiedade pelo que estava prestes a acontecer.
Há críticas que se escrevem sozinhas, especialmente nos dias seguintes aos concertos, focadas em tudo o que “já não é”. Mas talvez o essencial esteja em olhar para o que “ainda é”. E ali, no Estádio Cidade de Coimbra, o que houve foi entrega. Foi suor. Foi emoção. E isso, convenhamos, não se mede em decibéis nem em falsetes perdidos.
O espetáculo teve poucas pausas, quase como se a banda estivesse ali com a missão de entregar um legado, mais do que uma simples performance. Em tempos de digressões excessivamente coreografadas e artificiais, ver uma banda como os Guns subir ao palco com a força bruta da música, sem grandes artifícios ou pirotecnias, é testemunhar um tipo de autenticidade rara.
Logo de início, “Welcome to the Jungle” foi o sinal de que a noite prometia: luzes explosivas, riffs inconfundíveis e Axl Rose a surgir com energia renovada. A sequência com “Chinese Democracy”, “Bad Obsession” (ressuscitada em 2022 após anos fora dos palcos) e “Out ta Get Me” mostrou que a banda ainda sabe equilibrar o peso dos clássicos com resgates ousados do próprio repertório.
Axl Rose, embora já não alcance os agudos e falsetes com a mesma precisão de antigamente, compensou com carisma e entrega. Alternando entre vocais rasgados e momentos mais suaves, comandou a plateia com autoridade. O seu desempenho em “Estranged” e, mais à frente, em “November Rain” foi especialmente emotivo.
Axl Rose, embora já não alcance os agudos e falsetes com a mesma precisão de antigamente, compensou com carisma e entrega. Alternando entre vocais rasgados e momentos mais suaves, comandou a plateia com autoridade. O seu desempenho em “Estranged” e, mais à frente, em “November Rain” foi especialmente emotivo.
Mais adiante, após um solo envolvente de Slash, daqueles que dispensam palavras, o público foi ao delírio com a introdução inconfundível de “Sweet Child o’ Mine”. O guitar hero, com precisão cirúrgica, fez cada nota vibrar como nos tempos áureos, enquanto Axl, apoiado pelo competente backing vocal de Duff McKagan e companhia, entregava uma das performances mais intensas da noite.
Falando em solos, Slash esteve, como sempre, magnético. Mesmo com quase seis décadas de vida, a sua presença em palco é uma das mais impactantes do rock mundial. O seu carisma e domínio da guitarra transformaram cada momento em que se destacou num espetáculo à parte. Entregou emoção, técnica e intensidade. Mas seria injusto não mencionar o brilhante trabalho de Richard Fortus, que, para além da entrega constante, utilizou guitarras icónicas como a Gretsch White Falcon, proporcionando timbres distintos e uma aura quase cerimonial a vários momentos do concerto.
E precisamos falar dele: Duff McKagan. Com a sua postura punk e energia inabalável, foi uma peça fundamental. É ele quem ancora o espetáculo com a sua credibilidade sonora e “grooves” espetaculares. O baixo sente-se no peito e serve de ponte entre a fúria das guitarras e o carisma do vocalista.
E precisamos falar dele: Duff McKagan. Com a sua postura punk e energia inabalável, foi uma peça fundamental. É ele quem ancora o espetáculo com a sua credibilidade sonora e “grooves” espetaculares. O baixo sente-se no peito e serve de ponte entre a fúria das guitarras e o carisma do vocalista.
Também merecem destaque os músicos que completam esta poderosa engrenagem. Dizzy Reed, o membro mais antigo depois do trio principal, trouxe elegância e textura às faixas com os seus pianos e teclados, além de backing vocals pontuais e precisos. Melissa Reese, por sua vez, mostrou uma sintonia fina com Reed, acrescentando camadas eletrónicas e orquestrais que enriqueceram arranjos como “Better” e “This I Love”. Já Isaac Carpenter, que assumiu a bateria nesta etapa da digressão, impressionou com uma pegada firme, técnica apurada e respeito absoluto pelas levadas originais de Steven Adler e Matt Sorum, preenchendo o palco com vigor e precisão, sem exageros.
Seguiu-se “Civil War”. Forte, atual, com uma letra que continua a ressoar como um grito político sempre necessário. É a minha preferida, permitam a minha opinião. Veio então, talvez, o momento mais emocionante da noite. “November Rain” transformou o estádio num mar de luzes, uma verdadeira catarse coletiva conduzida ao piano. Axl foi contido, mas incrivelmente competente. A música é a cara desta banda. Eterna.
Mas ainda havia espaço para pérolas menos óbvias, como a belíssima versão de “Wichita Lineman”, de Glen Campbell, inesperada, sim, mas muito bem recebida, e a sempre delicada “Patience”.
Foi então que veio uma sequência de três canções que, embora muito distintas entre si, ajudaram a consolidar a atmosfera mágica daquele momento: “Don’t Cry”, executada com rara harmonia por toda a banda, arrancou lágrimas e suspiros; “Used to Love Her”, com o seu humor ácido e melodia irresistível, pôs toda a gente a cantar de forma leve e descontraída; e “Down on the Farm” trouxe uma energia punk algo inesperada que serviu de gás para o sprint final do concerto.
Quando “Nightrain” começou, já se sabia que estávamos nos minutos finais de uma noite memorável. Mas ninguém parecia querer ir embora. E foi com “Paradise City”, em meio a explosões de luzes, solos incendiários e uma entrega visceral de todos os músicos, que Coimbra foi ao delírio absoluto.
Porque ali, diante de dezenas de milhares de fãs a vibrar como um só, os Guns N’ Roses mostraram que o rock, quando vem da alma, não envelhece, amadurece. Não se esgota, resiste. E não morre, torna-se eterno.
Não houve dançarinos, coreografias nem pirotecnia em excesso. Apenas músicos e os seus instrumentos, numa conexão verdadeira com o público. E talvez seja por isso, um concerto como o dos Guns, com todos os seus defeitos (humanos) continue a ser grandioso. Porque ali, diante de dezenas de milhares de fãs a vibrar como um só, os Guns N’ Roses mostraram que o rock, quando vem da alma, não envelhece, amadurece. Não se esgota, resiste. E não morre, torna-se eterno.
Nesta noite de 6 de junho, em Coimbra, não assistimos apenas a um concerto. Vimos uma lenda viva a ser celebrada com suor, entrega, paixão e distorção. Um capítulo final? Talvez. Mas, se assim for, que despedida gloriosa. Daquelas que ficam cravadas na memória, e no peito, para sempre.
Uma ressalva final: mais uma vez a qualidade sonora não esteve à altura do preço de bilheteira praticado.
