jose cid c rita carmo
Foto (c) Rita Carmo

AUDIOGEST: José Cid: O Tempo, A Música, e a Consciência de um País

24/04/2025

Aos 81 anos, e com o Prémio Carreira nos Play – Prémios da Música Portuguesa 2025 (cujo promotor é a Audiogest) a coroar uma vida de dedicação e irreverência, José Cid continua a ser uma figura que obriga à reflexão sobre o que é a longevidade artística, a inovação e o valor da cultura num país em constante mutação.

Em Portugal, há artistas que passam pelas décadas como quem atravessa salas: entram, marcam presença, e eventualmente saem de cena. E depois há artistas como José Cid — um artista que não atravessa, mas permanece. Que não faz parte, apenas, da história da música portuguesa, mas ajuda a escrevê-la, reinventá-la e desafiá-la.

Aos 81 anos, e com o Prémio Carreira nos Play – Prémios da Música Portuguesa 2025 (cujo promotor é a Audiogest) a coroar uma vida de dedicação e irreverência, José Cid continua a ser uma figura que obriga à reflexão sobre o que é a longevidade artística, a inovação e o valor da cultura num país em constante mutação.

Desde os seus primeiros passos com os Quarteto 1111, José Cid mostrou que não estava interessado em repetir fórmulas gastas. O rock progressivo, as influências psicadélicas, os sintetizadores e as letras metafóricas chegaram a Portugal com a sua assinatura. Num tempo em que a música portuguesa ainda procurava encontrar-se entre a tradição e a modernidade, ele ousava misturar influências de Pink Floyd e Moody Blues com temas que tocavam o imaginário nacional. Foi vanguardista, sem nunca abandonar a emoção. Foi moderno, sem nunca trair as raízes.

Mas, se a sua fase progressiva é hoje objeto de culto, foi nas canções românticas que José Cid se transformou num fenómeno popular. “A Rosa Que Te Dei”, “Como o Macaco Gosta de Banana” ou o eterno “20 Anos” tornaram-se hinos para gerações inteiras. Não se tratava apenas de fazer canções — tratava-se de saber falar diretamente ao coração de um público diversificado, sem perder a sua marca autoral. O equilíbrio entre a simplicidade lírica e a sofisticação musical fez dele um caso raro de transversalidade: é ouvido por melómanos exigentes e por fãs das baladas mais radiofónicas. E todos reconhecem o seu valor.

Se o 25 de Abril abriu as portas à liberdade política, artistas como José Cid já vinham, com coragem e criatividade, pavimentando o caminho para uma sociedade mais consciente e livre.

Ni01NjczLmpwZWc
Álbum “Quarteto 1111” editado em 1970.

Abril é um mês carregado de simbolismo em Portugal, que celebra a liberdade conquistada a 25 de abril de 1974. Antes dessa revolução, a expressão artística em Portugal era severamente limitada pela censura imposta pelo regime ditatorial. José Cid, com o Quarteto 1111, enfrentou diretamente essas restrições: canções como “Pigmentação”, que abordava questões de racismo, e “João Nada”, que refletia sobre desigualdades sociais, foram proibidas pela censura devido às suas temáticas ousadas e críticas sociais. Além disso, o álbum homónimo “Quarteto 1111”, lançado em 1970, foi retirado do mercado pela Comissão de Censura por conter temas considerados subversivos. Mesmo sob tais restrições, José Cid e seus companheiros continuaram a produzir músicas que desafiavam o status quo, preparando o terreno para a explosão cultural que se seguiria após a Revolução. Se o 25 de Abril abriu as portas à liberdade política, artistas como José Cid já vinham, com coragem e criatividade, pavimentando o caminho para uma sociedade mais consciente e livre.

A sua personalidade, simultaneamente teimosa e generosa, valeu-lhe tantos afetos como polémicas. Nunca fugiu de uma boa provocação, nunca aceitou o papel de “artista conformado”. Cid sempre teve uma voz ativa — ora contra o marasmo da indústria cultural, ora contra o esquecimento a que muitas vezes são votados os criadores mais antigos. Falava alto, mas cantava mais alto ainda. E, quando parecia que o tempo ia apagar a sua presença, reinventava-se com novos álbuns, colaborações e até memes. José Cid tornou-se ele próprio um género, uma figura da cultura pop que atravessa as redes sociais com a mesma naturalidade com que enche salas de espetáculo.

O reconhecimento tardio, com o Grammy Latino de Excelência Musical em 2019 e agora o Prémio Carreira nos Play 2025, confirma aquilo que muitos já sabiam: José Cid é património cultural vivo. A sua obra é um espelho das transformações musicais, sociais e tecnológicas de Portugal nas últimas seis décadas. É um artista que nos obriga a pensar no valor da persistência, da autenticidade e da reinvenção contínua. Porque enquanto muitos se adaptam ao que o mercado exige, Cid sempre nos deu aquilo que ele achava que a música precisava — mesmo que, por vezes, o público só viesse a entender isso anos mais tarde.

Num mundo obcecado pela juventude, pela novidade constante e pelo algoritmo, a carreira de José Cid lembra-nos que o verdadeiro talento resiste ao tempo.

Num mundo obcecado pela juventude, pela novidade constante e pelo algoritmo, a carreira de José Cid lembra-nos que o verdadeiro talento resiste ao tempo. E que a cultura precisa de memória, de referências, de pessoas que desafiam o “agora” com a força de quem já viu muitas modas passar. É nesse ponto que a sua história se cruza com as preocupações do nosso presente e futuro.

Vivemos tempos de grandes transformações tecnológicas, com a inteligência artificial a redesenhar o modo como criamos, comunicamos e consumimos cultura. A União Europeia discute atualmente um código de conduta para a IA que, espera-se, garanta que estas ferramentas sejam utilizadas de forma ética e responsável. É uma discussão urgente, porque ao contrário de José Cid, a inteligência artificial não tem consciência, não tem memória, não tem alma. E se queremos um futuro onde a arte continue a ser feita de humanidade, emoção e ousadia — qualidades que definem a carreira de José Cid —, então devemos olhar para a tecnologia com espírito crítico e com exigência ética.
Porque o talento é insubstituível. E a cultura, tal como a música de José Cid, deve sempre colocar o humano no centro. Nisso a Audiogest tem tido um papel incansável: em relembrar, a todo o setor musical, esses desafios e ameaças.

PRÓXIMOS EVENTOS