Beth Gibbons regressou a Portugal para um concerto soberbo em Lisboa.
No dia 16 de Julho, Beth Gibbons voltou a deslumbrar uma plateia em terras lusas. Sem os seus Portishead, a razão da visita era outra: apresentar ao público português o seu novo álbum a solo, “Lives Outgrown”. E que forma extraordinária de o fazer.
Vínhamos de três semanas frenéticas de festivais: Primavera Sound, MEO Kalorama e NOS Alive, onde o ritmo acelerado se impunha entre o saltitar de palco em palco, o olhar sempre atento do relógio, com receio de perdermos algum concerto planeado. A caminho do Coliseu de Lisboa, demos um olho na atualidade: Trump a ser Trump, mais um ataque mortífero na Faixa de Gaza, o palco do Tomorrowland em chamas a dias do festival (felizmente sem vítimas), novas erupções na Islândia, casos de violência sexual em Portugal, discursos de ódio e xenofobia nas redes sociais a propósito dos despejos em Loures…
Entrámos no Coliseu, provavelmente a sala de concertos mais especial da cidade, e sentimos que estávamos no sítio certo, à hora certa. Ainda bem que a Everthing is New não inventou e escolheu o local apropriado. Um concerto de Beth Gibbons neste espaço é um luxo, e o público sabia disso e esgotou a sala.
Bastaram os primeiros acordes de “Tell Me Who You Are Today” para que o tempo parasse. Assim que a voz de Beth ecoou, o Coliseu suspirou. Respirou fundo. Parou. Escutou. E esqueceu.
Nem sabíamos o quanto estávamos a precisar desta voz, desta presença, desta pausa. Por momentos ingénuos, perguntámo-nos: será assim tão impossível vivermos num mundo sereno, sem ódio, sem ruído? Será que os males do mundo não se curam, ao menos um pouco, com a voz de Beth Gibbons? A resposta talvez seja evidente. Mas naquela noite, por instantes, quisemos acreditar que não era.
Na penumbra, como Beth gosta, a sua voz soava como sempre: crua, frágil, imensa.
Este não foi um concerto para se “ver”, sem qualquer tipo e cenário ou projeções audiovisuais, foi um espectáculo para se escutar e sentir. Cada nota, cada nuance instrumental, pedia atenção e entrega. Na penumbra, como Beth gosta, a sua voz soava como sempre: crua, frágil, imensa. Arrepiava em temas como “Floating on a Moment”, “Lost Changes” ou “Mysteries”, um recuo ao já longínquo 2002. Da sua colaboração com Rustin Man ouvimos ainda “Tom the Model”.
A banda que a acompanhava esteve à altura, com arranjos belíssimos e uma secção rítmica de uma delicadeza sóbria. Nada sobrava, tudo estava onde devia estar.
E a cereja no topo do bolo: o público. Respeitoso, silencioso, disponível. A voz de Beth ecoava sem burburinhos nem conversas paralelas. Houve exceções, claro, há sempre o engraçadinho da turma que quer ser notado, mas os bem comportados simplesmente reviraram os olhos, e de vez enquanto vinha a reprimenda com um “shiuuuu” coletivo, para que o silêncio voltasse a reinar. E foi sempre respeitado.
Aqueles que esperavam ouvir clássicos dos Portishead tiveram de esperar até ao encore. Foi aí que chegaram os tão esperados momentos: “Glory Box” e “Roads”. E que saudades tínhamos de os ouvir ao vivo. O final deu-se com “Reaching Out”, um adeus quase sussurrado, envolto em gratidão e reverência. As portas abriram-se. Ligámos os telemóveis. O mundo voltou. A realidade voltou.
Mas durante pouco mais de hora e meia, esquecemos os males do mundo e os dramas pessoais. E foi tão bom esquecer.
Obrigado, Beth.
























