Passados nove anos os escoceses Biffy Clyro regressaram a Portugal para matar as muitas saudades que já se faziam sentir. Desfalcada de uma unidade e sem o fulgor de outros tempos, a banda veio apresentar “Futique” num concerto que contou com apontamentos orquestrais sublimes.
Banda de culto dentro do universo do rock alternativo, e bastante acarinhada pelo público português, os Biffy Clyro sempre personificaram aquela essência do rock que muitos tentamos pôr em palavras, mas que nem sempre se revela uma tarefa fácil. O power trio composto pelo vocalista e guitarrista Simon Neil e pelos irmãos gémeos James e Ben Johnston, baixista e baterista, respetivamente, tem vindo a construir o seu legado através de uma abordagem visceral e crua ao vivo, algo que lhes ajudou a desenvolver algumas imagens de marca bem reconhecidas. Das silhuetas em tronco nu, às harmonias vocais, passando pela presença enérgica em palco e pela forma como Simon dispõe a sua guitarra a tiracolo bem ao nível do peito, os Biffy Clyro são um caso sério de estilo e de excelência no que diz respeito à sua performance ao vivo.
Mas, os anos passam, e a irreverência que outrora foi imagem de marca da banda dá agora lugar a uma postura mais contida. As imperfeições, que sempre definiram o caráter sonoro e performativo dos seus concertos, surgem agora mais disfarçadas e polidas.
Por sua vez, a leg europeia da Futique World Tour trouxe um grande desafio para a banda de Killmarnock. Pela primeira vez em trinta e um anos, os Biffy Clyro apresentaram-se como um duo e não como um trio. O baixista James Johnston abdicou da tour para tratar de questões associadas à sua saúde mental. Para o seu lugar, a banda recrutou Naomi Macleod, baixista dos Empire State Bastard, projeto paralelo de Simon Neil.

Numa tour que tanto está a passar por arenas como por salas mais pequenas, os Biffy Clyro optaram por não apresentar uma produção megalómana. Deste modo, tornou-se mais fácil adaptar o espetáculo às diferentes configurações das salas. O grande elemento cenográfico presente nesta produção é um palco com vários andares, algo que tornou o concerto mais dinâmico com Simon a posicionar-se em diferentes sítios consoante as músicas.
A longa espera de nove anos para rever os Biffy Clyro em Portugal antecipava um concerto esgotado. Porém, o Sagres Campo Pequeno esteve longe de estar cheio. Nas bancadas verificaram-se grandes clareiras, o que nos leva a pensar se este concerto não teria resultado melhor numa Sala Tejo.
Independentemente da afluência, quem esteve no Sagres Campo Pequeno sentiu uma ânsia indescritível nos minutos que antecederam o concerto. A banda soube jogar com isso ao reproduzir no PA uma música eletrónica que gerou uma grande tensão entre os presentes.
De seguida veio a primeira explosão sonora e luminosa da noite na forma de “A Little Love”. Mas, algo não estava a bater certo. O som demasiado polido, sem aquela crueza característica dos Biffy, o tempo mais lento e a voz de Simon com sinais de algum cansaço geraram alguma estranheza. Este que foi o terceiro concerto seguido da banda pode ter contribuído para que a energia da banda não estivesse exatamente nos parâmetros a que nos habituaram. Seguiu-se “Hunting Season”, mas manteve-se nesse mesmo registo com Simon a fugir muitas vezes aos seus deveres vocais e a apoiar-se em demasia nas vozes de Ben, Naomi Macleod e Mike Vennart, guitarrista de tour dos Biffy Clyro desde 2010 que em palco sempre se manteve na retaguarda, mas que nesta tour, devido à ausência de James, conquistou uma presença na dianteira do palco.
Se este foi o melhor concerto de Biffy Clyro em Portugal? Não
De seguida, vieram duas malhas mais ferozes do repertório clássico dos Biffy. Era altura do tira teimas com “That Golden Rule” e “Who’s Got a Match?”. Mas, mais uma vez a faísca não deu lugar à chama. O público também ele ainda algo contido perdeu a oportunidade de abrir um mosh pit em “That Golden Rule” uma das malhas mais esgalhadas dos escoceses.
Em “Shot One” as coisas começaram a mudar com a voz de Simon a dar finalmente sinais de um aquecimento. A música de “Futique” (2025) fez-se ainda acompanhar de um duo de cordas que tornou toda a performance ainda mais épica. O mesmo manteve-se em “Space”.
Um sinal da mudança dos tempos nos concertos dos Biffy Clyro é o facto de Simon ter sido o único a aparecer em palco em tronco nu. O baterista Ben parece já não aventurar-se nessas andanças. Pode parecer ridículo, mas é dos elementos mais distintivos dos concertos da banda, e Simon ao saber disso “sacrifica-se” para manter essa estética icónica. No âmbito do gear, o músico teve sempre a tiracolo um arsenal de Fenders Stratocasters, alternando-as por vezes por uma Gretsch G2622 Streamliner e uma Takamine Pro Series P7DC, esta última utilizada exclusivamente em “Machines”.
Pouco interventivo para com o público, Simon deixou as músicas falarem por si. Da explosiva “Wolves of Winter ao hino “Black Chandelier”, passando pela balada “Goodbye” e pela épica “Biblical” não faltaram momentos para que os grandes coros vindos do público se elevassem e sobrepusessem à banda.
Pouco interventivo para com o público, Simon deixou as músicas falarem por si. Da explosiva “Wolves of Winter ao hino “Black Chandelier”, passando pela balada “Goodbye” e pela épica “Biblical” não faltaram momentos para que os grandes coros vindos do público se elevassem e sobrepusessem à banda.
Já na reta final, os Biffy Clyro prepararam uma sucessão avassaladora de clássicos intemporais. “Mountains” antecipou o encore. A versão ao vivo presente no álbum “Revolutions: Live at Wembley” (2011) estará para sempre gravada nos compêndios da banda, mas ouvi-la presencialmente é sempre impactante e catártico. Já de regresso ao palco, “Machines” trouxe aquela lágrima no canto do olho. A meia luz e com apenas Simon, Ben e uma das violinistas sentados num dos andares do palco, fomos serenados por um coro de vozes que acompanhou Simon do princípio até ao fim do tema, com particular destaque no verso «take the pieces and build them skywards».
Para colocar o público de volta a mexer-se a banda serviu-nos de rajada “The Captain”, “Living Is a Problem Because Everything Dies” e “Bubbles”. A fechar, o derradeiro coro na forma de “Many of Horror” esgotou as lágrimas que ainda subsistiam.
Se este foi o melhor concerto de Biffy Clyro em Portugal? Não. A falta de James aliada a uma performance menos vertiginosa deixou-nos com um sabor agridoce. A competência esteve lá, mas faltou aquela dinâmica em palco tão característica que carimbou os Biffy Clyro como uma das melhores bandas de rock do séc. XXI.
A abrir a noite esteve o músico Bartees Strange numa fusão de indie rock e folk. Na bagagem trouxe o seu mais recente álbum “Horror”(2025) que foi apresentado num concerto que teve tanto de intimista como de entediante.

































































