Com a bravura característica dos escoceses, os Bleed From Within regressaram a Portugal após uma ausência prolongada de catorze anos. Entre refrões épicos, breakdowns com gaita de foles e uma menção muito especial aos já extintos More Than A Thousand, a noite fez-se de muita entrega de ambas as partes.
Para recordarmos a estreia dos Bleed From Within em Portugal é preciso recuar ao dia 15 de Maio de 2010. Na altura a banda, que só tinha editado dois álbuns, “Humanity” (2009) e “Empire” (2010), ainda encontrava-se na sua fase deathcore e na procura em singrar numa cena que continuava em crescimento. O concerto, que decorreu no Revolver Bar, em Cacilhas, contou ainda com a bandas portuguesas Before The Torn, Thirteen Degrees to Chaos e For Godly Sorrow e gerou um certo burburinho à volta desta banda que vinha de um país com pouca tradição no metal. Passado um ano, em 2011, eis que a banda regressou a Portugal não para um, mas para dois concertos a 28 e 29 de Abril no Berlim Bar, no Bairro Alto, e no Sociedade Capricho Musical Setubalense, em Setúbal, respetivamente.
Desde então a banda cresceu e a sua sonoridade foi transformando-se numa fusão de metalcore e death metal melódico. Porém, Portugal deixou de constar nos roteiros dos escoceses, algo deveras surpreendente se tivermos em conta que a banda já passou por Espanha em onze ocasiões. Se foi por falta de aposta dos promotores ou por questões de logística, não sabemos, mas o que é certo é que os Bleed From Within são inquestionavelmente uma das bandas mais importantes da música pesada ao fazerem a ponte entre o core e o metal. Desta forma, não é de estranhar que o seu regresso a Portugal já fosse há muito esperado. Apesar do LAV – Lisboa ao Vivo não ter esgotado, podemos dizer que a sala 1 esteve muito bem composta para receber a produção destes rebeldes escoceses.
Great American Ghost
A estreia dos Great American Ghost poderia ter sido um desastre quando a meio da primeira música, “Hymn of Decay”, deu-se um apagão que prolongou-se durante vários minutos. Desamparado, o vocalista Ethan Harrison tentou distrair o público naquele momento de alguma tensão, mas a situação parecia estar mesmo complicada. Com sensivelmente trinta minutos de atuação planeada, os Great American Ghost começaram a sentir uma certa pressão para reduzir o tempo em palco. Mas, assim que a energia regressou, também apercebemo-nos de que o concerto iria cumprir com a setlist pré-definida. O público que não tinha manifestado grande agitação nos primeiros instantes, sentiu-se no dever de proporcionar aos Great American Ghost a melhor receção possível. Daí até ao final do concerto, e em temas como “Altar of Snakes”, “Kerosene” e “Forsaken”, a entrega foi total, com Ethan Harrison a fazer muito crowd surf e a incentivar uma wall of death precisamente no meio da zona de impacto.
After The Burial
Na segunda estreia da noite, os After The Burial trouxeram até ao LAV o seu metalcore progressivo carregado de elementos de djent. Com mais de vinte anos de carreira são uma das bandas que melhor representam o catálogo da mítica Sumerian Records com uma discografia vasta. Porém, no concerto do LAV a banda centrou-se nos dois álbuns mais recentes, “Dig Deep” (2016) e “Evergreen”. Desfalcados em palco sem a presença do baixista Adrian Oropeza, que sofreu um acidente a meio da tour, a banda fez-se acompanhar por Grayson Stewart e Anthony Laur dos Great American Ghost, que repartiram funções de baixista. A juntar ao instrumental cortante estiveram os growls tremendos de Anthony Notarmaso, que sobressaíram em temas como “Behold the Crown”, “Death Keeps Us From Living” e “Collapse” invocando assim uma participação ativa do público.
Bleed From Within
«Na última vez que tocámos em Lisboa estavam cerca de vinte pessoas na sala», disse Scott Kennedy, vocalista dos Bleed From Within, na sua primeira interação com o público. Desta vez estiveram cerca de 700/800 pessoas no LAV num reflexo para com a popularidade que a banda gerou, sensivelmente, ao longo dos últimos cinco anos. A edição do seu mais recente álbum “Zenith” (2025) também contribuiu para esse factor com a crítica a elogiar, e muito, a maturidade sonora da banda. Para o grupo, este também é indubitavelmente, até à data, o seu melhor trabalho, como comprova a setlist do concerto onde o álbum constou quase na sua totalidade.
“Violent Nature”, a primeira malha do álbum, deu início ao concerto com um vendaval de riffs, growls e circle pits. Sem tempo para respirar, a sessão de cardio e de headbang prosseguiu com “Zenith” com a primeira aproximação do guitarrista Steven Jones ao microfone, o responsável pelas vozes limpas.
Mais à frente, num momento de profunda comunhão com o público português, os Bleed From Within não quiseram perder a oportunidade de dar uma palavra sobre uma das bandas portuguesas mais queridas da cena, os já extintos More Than A Thousand, com quem partilharam palcos e privaram. Desta forma, e numa demonstração de amizade, Scott dedicou “I Am Damnation” à mítica banda de Setúbal.
Num sinal da evolução da sonoridade dos Bleed From Within encontramos uma maior primazia da melodia nas vozes, cujo o destaque vai sempre para a ala esquerda do palco onde Jones se posiciona. As suas dinâmicas enquanto guitarrista ritmo casam bem com os solos e leads de Craig “Goonzi” Gowans, mas, é mesmo a sua voz que rouba todo o protagonismo em malhas como “A Hope in Hell” e “Levitate”.
O contraste da destruição de “Hands of Sin” com a semi power ballad “Edge of Infinity” revelou, mais uma vez, a riqueza das composições de “Zenith” e a forma como estas tão bem encadeiam entre si.
Mais escondido atrás do kit, Ali Richardson também não deixou os seus créditos em mãos alheias. Num ressuscitar de um segmento clássico de um concerto de rock e metal, Ali partiu para um inspirado solo de bateria que permitiu, essencialmente, a Scott repousar a voz por breves instantes.
Regressada a banda a palco, pairámos por instantes os olhos no gear que os músicos estavam a rodar. Steven Jones desferiu todos os seus riffs na sua Caparison Horus FX-AM, Craig “Goonzi” Gowans atacou os seus leads com uma ESP LTD M-1000HT e David Provan trovejou nas cinco cordas com um Ibanez BTB805MS.
O contraste da destruição de “Hands of Sin” com a semi power ballad “Edge of Infinity” revelou, mais uma vez, a riqueza das composições de “Zenith” e a forma como estas tão bem encadeiam entre si. Já com os alicerces do LAV a pedir misericórdia, os Bleed From Within reservaram para o fim os dois pratos fortes do seu catálogo. Primeiro, o hino “The End of All We Know”, não deixou nenhuma voz em silêncio, tal foi o coro colossal que se levantou num refrão que se fez para as arenas. Já, “In Place Of Your Halo”, levou-nos numa breve viagem até à Escócia com o seu breakdown avassalador acompanhado por gaita de foles, uma aposta vitoriosa da banda que até então ainda não tinha explorado elementos da sua cultura musical. Já com Scott a fazer a sua imagem de marca, um crowd surf de joelhos, a banda despediu-se dos fãs portugueses com uma imagem postal que certamente ficará guardada na memória de todos os que estiveram no LAV.




















































