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“Blizzard of Ozz”, A Ressurreição de Ozzy Osbourne

24/07/2025

Após a sua saída dos Black Sabbath, Ozzy Osbourne resgatou a sua carreira com “Blizzard of Ozz”, álbum que marcou não só o seu triunfante regresso aos grandes palcos do heavy metal, mas também o início da sua parceria com o guitarrista prodígio Randy Rhoads.

No dia 11 de Dezembro de 1978, os Black Sabbath terminavam no Johnson Gymnasium em Albuquerque, New Mexico a conturbada tour de promoção ao seu oitavo álbum “Never Say Die!”. Este que viria a ser o último concerto com Ozzy Osbourne, antes da primeira reunião da formação original no Live Aid de 1985, colocou bem à vista as disrupções que se faziam sentir no seio da banda, isto porque o grupo de Birmingham estava a atravessar uma fase bastante negativa devido ao consumo excessivo de cocaína e álcool, o que acabou por ter efeito no processo de composição e consequente lançamento dos álbuns “Technical Ecstasy” (1976) e “Never Say Die!” (1978), considerados fracassos comerciais e pouco apreciados pela banda.

Regressados da tour os Black Sabbath, que se encontravam desiludidos e pouco motivados, procuraram refúgio nas drogas e na bebida. A rejeição e a critica estavam a dar cabo da estabilidade emocional da banda, principalmente de Ozzy que desde criança desenvolveu problemas de confiança e autoestima devido aos abusos que sofrera por parte da família e dos colegas de escola, procurando assim nos vícios uma espécie de escape para os seus receios. No entanto, a banda não ponderou desistir, e foi em busca de restabelecer a identidade sonora que os tinha demarcado no princípio dos anos 70 como os pioneiros do heavy metal. Para tal, alugaram uma casa em Los Angeles, montaram um estúdio na garagem e começaram a trabalhar no sucessor de “Never Say Die!”. Porém, o que os Black Sabbath não estavam à espera era que Ozzy desaparecesse durante várias semanas e não comparecesse a grande parte das sessões de composição do álbum, sendo que das poucas vezes que aparecia apresentava-se num estado completamente alterado que o incapacitava de cantar.

Já em 1979, o novo álbum tardava em aparecer e a editora pedia explicações, posto isto Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward “sentaram-se à mesa” para tomar uma decisão drástica. Ou trocavam de vocalista ou a banda tinha que acabar. Após uma longa ponderação, Ozzy Osbourne foi despedido no dia 27 de Abril de 1979.

Após uma longa ponderação, Ozzy Osbourne foi despedido no dia 27 de Abril de 1979.

Passado este momento de tensão a banda conseguiu reerguer-se rapidamente com a contratação de Ronnie James Dio, ex-Rainbow, e começou logo de seguida a trabalhar no que viria a ser “Heaven and Hell” (1980). Já Ozzy encontrava-se completamente perdido, tanto do ponto de vista criativo como mental, tendo acabado por cair numa espiral de autodestruição ao exilar-se durante várias semanas no verão de 1979 num quarto do Le Parc Hotel em West Hollywood, sendo que das poucas vezes que abria a porta era para receber o seu dealer, para entregas de pizza ou para deixar entrar algumas groupies que procuravam passar uma noite com o astro do rock. Porém, quando Ozzy já estava disposto a desistir até da sua própria da vida, eis que surgiu Sharon Arden, filha de Don Arden, manager dos Black Sabbath. Na altura com 28 anos, Sharon já trabalhava nos escritórios da empresa de agenciamento do pai, e foi com a sua astúcia comercial, que ainda hoje sobressai, que Sharon se apercebeu que tinha de fazer algo para ajudar Ozzy a relançar a sua carreira. O acordo era simples, se Ozzy se reabilitasse, a empresa de Sharon iria aceitar a gestão da sua carreira. E assim foi. Um aspecto curioso é que Osbourne viria mais tarde a recordar, talvez de uma forma catártica, este período negro da sua vida, não só na letra, mas também através do videoclip de “Under the Graveyard”, um dos singles do álbum “Ordinary Man” (2020).

Nas semanas que se seguiram, Sharon colocou Ozzy à prova ao definir com ele um plano para realizar várias audições em LA com o intuito de recrutar músicos para uma nova banda. A escolha do guitarrista foi a primeira a ficar definida, depois de várias audições, onde também esteve presente Gary Moore, a decisão recaiu sobre um jovem guitarrista de vinte e quatro anos, proveniente de North Hollywood, de seu nome Randy Rhoads.

Nascido numa família de professores de música, Rhoads teve uma formação musical clássica a partir dos sete anos, tendo mais tarde dedicando-se à guitarra elétrica onde conseguiu atingir um nível proficiência técnica fora do comum. Aos dezasseis anos forma a banda Little Women, que viria mais tarde a dar origem aos Quiet Riot. O nome de Randy Rhoads chegou pela primeira vez aos ouvidos de Ozzy Osbourne através de Dana Strum, baixista dos Slaughter, na altura dos Bad-Axe, e admirador do jovem guitarrista. Strum, que foi fazer a sua audição para a banda de Ozzy, presenciou a prestação de vários guitarristas, entre eles Gary Moore, e apesar de ter elogiado o trabalho do guitarrista da Irlanda do Norte, Strum achou que o seu estilo de tocar, mais bluesy, não iria resultar na estética heavy metal de Ozzy. Desta forma, Strum disse a Osbourne que conhecia exatamente o guitarrista que ele precisava. O baixista contactou então Randy Rhoads, porém o jovem guitarrista mostrou-se inicialmente pouco interessado, pois não era propriamente apreciador dos Black Sabbath. Mesmo assim aceitou deslocar-se até Santa Mónica para fazer a audição. Já no estúdio, a primeira impressão visual de Ozzy face a Randy Rhoads foi algo depreciativa, criticando desde logo a pequena estatura do guitarrista (1,70m) e o seu corpo franzino. No entanto, quando Randy ligou a guitarra ao amplificador e começou a tocar um solo em jeito de aquecimento Ozzy ficou boquiaberto com a sua técnica e decidiu contratá-lo imediatamente.

Ainda com o resto da formação por fechar, mas sem querer perder muito tempo Osbourne começou imediatamente a fazer jams com Randy Rhoads, que contratualmente ainda fazia parte dos Quiet Riot. A estas jams, que decorreram nos estúdios Pasha Music, juntaram-se ainda o baixista Dana Strum e o baterista Frankie Bannali, colega de Rhoads nos Quiet Riot. Após estas sessões, Ozzy acabaria por voltar para Inglaterra para estar com a sua família que já não via há meses. Na altura ainda estava casado com a sua primeira mulher Thelma Riley, com quem teve dois filhos. É então numa das suas saídas ao clube Music Machine em Londres, que Ozzy conhece o baixista australiano Bob Daisley, que tinha feito carreira no Reino Unido com as bandas Chicken Snack, Widowmaker e já nos finais dos 70s com os Rainbow. Daisley tinha sido recomendado para ocupar o lugar de baixista na banda de Ozzy pelo filho de Don Arden, David, que na altura geria os escritórios londrinos da Jet, editora que viria a representar Osbourne. A ideia inicial era reunir uma banda residente no UK, no entanto tornou-se difícil encontrar um guitarrista inglês que estivesse ao nível de Randy Rhoads, pelo que em Novembro o guitarrista voou de LA para Londres para se reunir com Ozzy e Daisley nos escritórios da Jet. Neste momento já se encontravam reunidos 3/4 da formação original dos Blizzard of Ozz.

O processo de composição do primeiro álbum iniciou-se de seguida no Monnow Valley Studio dos estúdios Rockfield, no País de Gales. Este foi levado a cabo por Daisley e Rhoads, como refere o baixista numa entrevista à Classic Rock Magazine: «… eu e o Randy trabalhávamos as partes musicais. O Randy tinha os riffs que eram transformados posteriormente em músicas. Depois tocávamos a música e o Ozzy cantava por cima e inventava uma linha melódica. Eu gravava a melodia vocal e escrevia letras que encaixavam na métrica e na linha melódica. O Ozzy não era um letrista… mas alguns títulos das músicas vieram dele.» Durante o processo de composição a banda trabalhou com o baterista Barry Screnage, amigo de Ozzy. Mas este nunca foi considerado um candidato ao cargo, apenas trabalhava como músico de sessão. A banda continuava assim à procura de um baterista para fechar a formação. A procura terminou quando David Arden apresentou à banda Lee Kerslake, ex-baterista dos Uriah Heep. Segundo Daisley a audição de Kerslake ficou marcada pela sua entrega: «… o Lee tocou com fogo e agressividade…este era o gajo que estávamos à procura.». Ficava assim então reunida a formação que iria gravar os dois primeiros álbuns a solo de Ozzy Osbourne.

O produto final de “Blizzard of Ozz” representou um autêntico triunfo na carreira de Osbourne, pois não só estávamos perante um Ozzy revigorado e com a sua confiança restabelecida, como também do ponto de vista instrumental e composicional Ozzy tinha conseguido reunir uma banda de excelência que fez toda a diferença no resultado sonoro do álbum.

Após o processo de composição, que durou alguns meses, a banda entrou nos estúdios Ridge Farm em Surrey, a 22 de Março de 1980, para dar início às sessões de gravação de “Blizzard of Ozz”. O álbum, que foi coproduzido pelos quatro membros da banda e captado pelo engenheiro de som Max Norman, foi gravado em apenas quatro semanas. O produto final de “Blizzard of Ozz” representou um autêntico triunfo na carreira de Osbourne, pois não só estávamos perante um Ozzy revigorado e com a sua confiança restabelecida, como também do ponto de vista instrumental e composicional Ozzy tinha conseguido reunir uma banda de excelência que fez toda a diferença no resultado sonoro do álbum.

Rhoads, descrito como um prodígio da guitarra, trouxe as suas qualidades virtuosísticas e o seu estilo de tocar neoclássico para faixas como “I Don´t Know” ou “Mr.Crowley” mas também numa abordagem acústica mais pessoal em “Dee”, uma faixa dedicada à sua mãe. No entanto, foi com “Crazy Train”, que Randy alcançou um maior protagonismo. Existem duas teorias quanto à composição do icónico riff de guitarra. Segundo Greg Leon, que substituiu Rhoads nos Quiet Riot, o riff surgiu quando os dois estavam a brincar sobre o riff da música “Swingtown” de Steve Miller, sendo que ao acelerar a passagem Randy começou a criar algo distinto e bastante próprio.

A outra teoria defendida por Bob Daisley refere que o riff está em fá sustenido menor e que surgiu totalmente da cabeça de Rhoads. Sendo que o nome da música surgiu na sequência do efeito sonoro psicadélico que o guitarrista estava a conseguir captar através do seu amplificador. Segundo Daisley, ele e Randy eram fãs de comboios e como tal, em jeito de brincadeira, virou-se para o guitarrista e proferiu a frase: «Isso soa como uma locomotiva louca.» Como Ozzy costumava utilizar a expressão: «Estás fora dos carris», Daisley decidiu também empregá-la na letra da música. Ainda assim, o significado da letra é muito mais profundo do que apenas o gosto por locomotivas, com várias referências à Guerra Fria e à necessidade de acabar com conflitos. Quanto à gravação da faixa, o engenheiro de som Max Norman destaca o empenho e o compromisso de Randy Rhoads em estúdio: «Se escutares a “Crazy Train” com muita atenção, vais ouvir uma guitarra principal ao centro, e duas outras a tocar exatamente a mesma coisa à esquerda e à direita. O que acontece é que tu acabas por ouvir tudo como uma única guitarra. O Randy era o melhor a fazer overdubs…»

Quanto à secção rítmica do álbum tanto Kerslake como Daisley mostraram-se bastante coesos, com o primeiro a demonstrar uma batida sólida e fills dinâmicos em faixas como “No Bones Movies” e “Steal Away(The Night)” e o segundo com linhas melódico-rítmicas ricas e intrincadas em “Goodbye to Romance” e também em “Steal Away(The Night)”. No entanto, o maior destaque de Daisley vai para a sua contribuição no departamento das letras, desde os relatos das experiências autodestrutivas de Ozzy em “Suicide Solution”, passando pela relação com o ocultismo de Aleister Crowley em “Mr.Crowley” ou ainda uma chamada de atenção para a consciencialização ambiental em “Revelation (Mother Nature)”.

Bem vistas as coisas, Bob Daisley foi uma espécie de Bernie Taupin para Ozzy Osbourne. Porém, existe ainda mais uma figura que, apesar de não ter feito parte da formação da banda, trabalhou e contribuiu profundamente para a identidade sonora de “Blizzard of Ozz”. Estamos a falar do teclista Don Airey, que trabalhou em estúdio na gravação do álbum. A sua colaboração é notória em faixas como “Goodbye to Romance” e “Revelation (Mother Earth)”, as duas baladas do álbum, onde Airey delícia os ouvintes com dois solos carregados de emoção e “Mr. Crowley”, cuja introdução de Airey dá à música um carácter horripilante. Segundo o teclista, a introdução foi gravada em meia hora com recurso a um Minimoog e a um Yamaha CS80, um dos primeiros sintetizadores polifónicos.

Ainda antes de “Blizzard of Ozz” ser editado já Sharon Arden começara a organizar a primeira tour do grupo no Reino Unido. A proposta que Sharon fez chegar a Ozzy era simples, ou ele apresentava-se como banda de abertura para uma banda maior como os Van Halen, ou então fazia uma tour como cabeça de cartaz em salas mais pequenas. Sharon acabaria por influenciar Ozzy a escolher a segunda opção, justificando que desta forma os concertos estariam sempre esgotados. O primeiro concerto oficial da tour só aconteceu a 12 de Setembro de 1980 no Glasgow Apollo na Escócia. Mas, Sharon antecipou-se e marcou dois concertos de aquecimento para 3 e 5 de Setembro no Norbeck Castle Hotel em Blackpool, Irlanda do Norte e no West Runton Pavillion em Norfolk. Com o intuito de manter um certo secretismo em relação a este novo projeto de Ozzy Osbourne os concertos foram anunciados com o nome The Law nos cartazes. Depois desses espetáculos começou-se então a espalhar a palavra de que Ozzy tinha um novo projeto e é já no Glasgow Apollo que a banda é recebida em apoteose.

Com o desenrolar da tour algumas tensões internas começaram a surgir entre membros da banda e a gestão de Sharon. É que na altura Arden não tinha acompanhado o processo de composição e gravação do álbum no Reino Unido, pois estava a trabalhar a partir dos escritórios em LA. Sharon só viajou para a Europa dias antes de começar a tour. É então neste contexto, e ao presenciar os ensaios da banda, que apresenta o seu desagrado perante a secção rítmica da banda, isto porque ao contrário de Rhoads, Sharon não tinha dado o seu aval na contratação de Daisley e Kerslake. Claro que não estava em causa a sua qualidade enquanto músicos, mas sim a sua influência visual na imagética da banda. Segundo Sharon tanto Daisley como Kerslake eram demasiado velhos e a sua imagem não ia ao encontro daquilo que ela pretendia para a banda. A partir desse momento, Sharon não descansou até encontrar dois substitutos para ocupar os seus lugares na banda.

Blizzard of Ozz
Créditos: Jet Records Promo Shoot

Entretanto, o lançamento do álbum no Reino Unido, pela Jet Records, aconteceu a 20 de Setembro de 1980, já a meio da tour. Porém, o facto de ter alcançado rapidamente o Top 10 e de ter proporcionado uma tour esgotadíssima não foi suficiente para evitar mais conflitos dentro da banda. Neste caso as divergências estavam relacionadas com o nome da banda, isto porque durante as gravações do álbum tinha ficado acordado que o grupo se iria intitular de Blizzard of Ozz e o nome de Ozzy iria aparecer apenas nos créditos. No entanto, quando o álbum foi lançado o nome do líder da banda estava escrito na capa com uma letra muito maior que o nome Blizzard of Ozz, dando assim a entender que este era um álbum a solo.

Apesar deste desentendimento, Bob Daisley e Lee Kerslake cumpriram com o resto da tour que terminou no dia 1 de Novembro no Canterbury Odeon Theater em Canterbury. Com a tensão acumulada, Sharon atiçou a fogueira ao convidar o baterista Tommy Aldridge, que na altura tocava com a Pat Travers Band, para assistir ao concerto no Brighton Dome que decorreu na penúltima noite da tour. Numa demonstração de autoridade, Sharon procurou então dar a entender que estava ali o substituto de Kerslake, e que muito possivelmente já poderia existir um pré-acordo visto que Aldridge acabaria por entrar na banda em Março de 1981.

Terminada a tour no UK, Sharon demonstrou mais uma vez a sua astúcia para o negócio musical.  Em vez de enviar a banda de seguida para os EUA para iniciar uma nova tour, colocou-os de volta em estúdio para começarem a trabalhar num segundo álbum de originais. Desta forma, a banda teria mais repertório para apresentar nos seus concertos, algo que incentivaria os fãs a comprar mais bilhetes. Maior procura de bilhetes, traduzia-se assim em concertos em salas com uma maior capacidade de espetadores, algo que se haveria de verificar na segunda leg da tour de “Blizzard of Ozz”.

Ciente dos poucos meses de vida que tinha pela frente, o baterista pediu a Ozzy para lhe dar os discos de platina referentes às certificações de “Blizzard of Ozz” e “Diary of a Madman”. Ozzy, que sempre foi reconhecido pela sua natureza humana, acedeu ao pedido e fez-lhe chegar os discos, colocando assim um ponto final numa desavença que durava há décadas.

De regresso a Londres, começaram assim a compor o que viria a ser “Diary of a Madman”. Mas, mais uma vez os antagonismos vieram ao de cima, desta vez por motivos económicos, isto porque, tinha ficado acordado verbalmente que Ozzy receberia 50% dos royalties e os outros 50% seriam distribuídos pelos três músicos. Porém, e já a meio caminho das sessões do novo álbum o acordo ainda não estava assinado, provocando assim desconfiança por parte de Daisley e Kerslake. Ainda assim, em Fevereiro de 1981 a banda seguiu para as sessões de gravação nos estúdios Ridge Farm, com a promessa de Don Arden que os contratos iriam chegar no final do processo de gravação de “Diary of a Madman”.

No entanto, já em Março, quando o álbum se encontrava em processo de mistura e numa altura em que “Blizzard of Ozz” também já tinha sido editado nos EUA, Kerslake recebeu da sua esposa as notícias que já esperava há muito. Ele e Daisley estavam fora da banda, e isto significava que já não participariam na tour norte-americana. Foi a partir desse momento que começaram as acusações e disputas de dinheiro em tribunal, com Daisley a referir que ele e Kerslake foram despedidos não por Ozzy mas sim por Sharon por desafiarem e questionarem muitas das vezes a sua autoridade perante certas decisões. Já a manager defendeu-se ao referir que tanto Daisley como Kerslake representavam um problema para a banda porque estavam sempre em constante conflito devido a repartições de dinheiro. Passado quase quarenta anos, Kerslake voltou a ser notícia ao ser diagnosticado com um cancro terminal. Ciente dos poucos meses de vida que tinha pela frente, o baterista pediu a Ozzy para lhe dar os discos de platina referentes às certificações de “Blizzard of Ozz” e “Diary of a Madman”. Ozzy, que sempre foi reconhecido pela sua natureza humana, acedeu ao pedido e fez-lhe chegar os discos, colocando assim um ponto final numa desavença que durava há décadas.

De volta a 1981, Randy Rhoads sentiu-se igualmente lesado, apesar de não ter estado diretamente envolvido nestas divergências,  esteve também para abandonar o grupo por vontade própria, justificando que a química que existia na banda iria assim desaparecer. No entanto, foi Kerslake que, com a sua postura fria, conseguiu persuadir Rhoads a manter-se no grupo, explicando que o sucesso do guitarrista ainda estava por vir.

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Créditos: Mark Weiss

Conflitos à parte, Ozzy Osbourne tinha já agendada, em menos de um mês, uma tour pelos EUA. Com uma secção rítmica renovada, que possivelmente já vinha a ser preparada há alguns meses por Sharon, Ozzy Osbourne apresentou-se pela primeira vez como artista a solo no dia 22 de Abril de 1981 no Towson Center em Maryland. Na bateria encontrava-se assim o possante baterista americano Tommy Aldridge, que há muito que se encontrava no radar de Sharon, e no baixo apresentava-se um experiente baixista cubano de seu nome Rudy Sarzo, que tinha sido colega de Rhoads nos Quiet Riot em finais dos anos 70. Esta seria assim a formação clássica que iria consagrar o projeto a solo de Ozzy Osbourne como um dos nomes mais respeitados no heavy metal.

Quase a atingir o seu 50º aniversário, “Blizzard of Ozz” continua a representar um marco na história da música pesada. Com mais de cinco milhões de cópias vendidas só nos EUA, Ozzy Osbourne proporcionou um dos maiores regressos da história da música. Com uma nova estética conseguiu afastar-se da sonoridade mais carregada e negra dos Black Sabbath passando a apresentar uma musicalidade mais requintada e até, se nos permitem, mais comercial, isto porque “Blizzard of Ozz” apresentou-se como o ponto de partida para uma década onde o heavy metal ascenderia ao topo das tabelas musicais.

Todavia, nada disto teria sido possível sem o contributo de Randy Rhoads, para muitos o melhor guitarrista do mundo e um dos mais inovadores ao lado de nomes como Jimi Hendrix e Eddie Van Halen. Com o seu estilo de tocar efervescente tanto foi beber a influências clássicas como a nomes que na altura já eram referências como é o caso Ritchie Blackmore e Michael Schencker. Foi também Rhoads quem levou a técnica virtuosística do shredding para outros patamares ao desafiar as leis da velocidade, acabando por influenciar guitarristas como Zakk Wylde e Dimebag Darell a fazerem o mesmo.

Desde então, “Blizzard of Ozz” já foi premiado com o 13º lugar na lista dos 100 Melhores Álbuns de Guitarra de Todos os Tempos da revista Guitar World e o 9º lugar na lista dos 100 Melhores Álbuns de Heavy Metal da revista Rolling Stone. O álbum que deu início a uma carreira a solo de quarenta e cinco anos apresenta-se para muitos como o magnum opus de Ozzy Osbourne. Como obra de arte intemporal estará para sempre gravado nos compêndios da história do heavy metal.

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