O Bonds Festival chegou pela primeira vez à Casa da Música. Um festival indie de fato e gravata, mas sem perder a proximidade, a irreverência e os aviões de papel.
No dia 19 de setembro aconteceu a terceira edição do Bonds Festival, pela primeira vez na Casa da Música. Parece irónica a formalidade em organizar um festival indie naquele edifício. O som ganha outra responsabilidade e o evento passa a vestir fato e gravata até que, de repente, se levantam cartazes com “Quero um filho teu” e uma sala inteira é atravessada por aviões de papel “Para o Jack”.
A Casa da Música serve tal como a luva de renda assenta na mão de Manuel Couto, dos Astra Vaga: espaço suficientemente grande para existirem diferentes palcos e na medida certa para circularmos sem que se trate de uma prova de orientação. A Sala 2 ficou com o palco principal. A Sala Laranja tinha luzes azuladas a contrastar com aquele planalto cor de laranja que exigia muita aderência ao calçado.
Fotografar concertos também é sobre sobreviver. O público que quase lotou a sala principal acabou por ajudar àquilo que o Bonds quer vender como ideia central: proximidade. Os músicos apareciam por ali, falavam com pessoas, havia merch, discos, conversas depois dos concertos. Não existia aquela barreira muito marcada entre “artista” e “resto da população”. Contudo, durante os concertos, a barreira invisível foi marcada. O público tinha receio de avançar para junto do palco. Parece que não entranharam o facto de não existirem as habituais barreiras. Até os colegas de imprensa estavam surpreendidos por existir tanto espaço livre junto aos palcos para se poderem registar os melhores momentos.
A Bonding Lounge, instalada na Sala Roxa, devia ser a materialização mais óbvia dessa ideia. E a ideia é boa. A execução ainda precisa de ser polida. Nem todos os artistas pareciam saber exatamente até quando deviam lá estar, a adesão do público ficou abaixo do que o espaço provavelmente pedia e a iluminação também não o tornava propriamente irresistível. Estes momentos precisam de algum charme para romper o iceberg que ali congelou.
Passemos à música e a algumas notas de destaque da noite. Filipe Karlsson foi o concerto da noite. Foi também onde o público mais se mexeu e cantou.
Passemos à música e a algumas notas de destaque da noite. Filipe Karlsson foi o concerto da noite. Foi também onde o público mais se mexeu e cantou. E Karlsson ajuda bastante a que isso aconteça porque passa uma onda de descontração que sintoniza as rádios mentais do público. Já tem estrada suficiente para saber exatamente o que está a fazer, mas ainda não parece minimamente esmagado pela ideia de ser Filipe Karlsson. Ele que se prepara para abrir o concerto dos Duran Duran no dia 3 de novembro, na MEO Arena.
Fala com o público sem transformar cada intervenção numa cerimónia. Ri-se, a banda ri-se, as músicas continuam. Houve tema novo, “Rota” (lançado na semana que antecedeu o festival), alguns problemas de som que nunca chegaram a descarrilar o concerto e uma banda que interage de forma automática. São muitos anos a “virar frangos”. Carl Karlsson, rodeado pelos teclados com a marca dos “Zanibar Aliens”, é o rigor sueco aplicado à pop que homenageia o século passado. Martim Seabra, com um belíssimo Höfner Violin Bass ao peito, tem uma maneira muito própria de se mexer enquanto toca.
Não é uma performance de dança contemporânea, são gestos gentis, subtis. Quanto à bateria, é precisamente boa porque nunca tenta convencer ninguém de que é importante. Não atropela, não pede atenção, está ali a segurar e a abraçar as músicas. A determinada altura apareceu na plateia um cartaz com a frase “Quero um filho teu”. Karlsson viu-o. Podia ter continuado a tocar e fingido que não. Em vez disso, foi ter com o fã e cumprimentou-o. O fã saiu dali com o sorriso de orelha a orelha, o público ganhou um momento de boa disposição e de quebra daquela parede de gelo. Ganharam todos!
Luís Severo também esteve entre os melhores da noite. Na manhã do próprio dia, pediu aos fãs na rede social Instagram que enviassem sugestões de músicas para compor a setlist. Os fãs corresponderam e o artista cumpriu durante a viagem de comboio até ao festival. Uma das mensagens dizia: “Hoje não é “Domingo”, mas também “Ainda é cedo” para estar no Bonds. Espero apenas não ficar com a “Incerteza” que “Cedo ou tarde” acabes por dizer “Cheguei bem”. De todas as músicas referidas, apenas “Domingo” acabou por ficar de parte. Severo também avisou com boa disposição que não pretendia gastar demasiado tempo a falar: «Vou só usar o tempo que tenho com aquilo que, apesar de tudo, faço melhor. Portanto, acho que não vou assim, pá, falar muito. Não é por não ser simpático. Acho que é mais tipo rentável.»
Os MANILA foram provavelmente o concerto que mais contrariou aquilo que eu tinha levado de casa. Nas gravações, o groove pop tinha-me parecido demasiado polido e a voz de Carmo Braga da Costa remeteu-me imediatamente para aquela grande linhagem da pop portuguesa feminina que, em diferentes versões, atravessa rádios nacionais comerciais. Ao vivo foi outra coisa. A vocalista apareceu com uma presença que eu simplesmente não tinha ouvido nas gravações.
Não houve grande introdução nem necessidade de vender personagem. Começou a cantar e ficou imediatamente claro que estava muito confortável ali. A banda também ganhou outra dimensão, o groove deixou de parecer tão “certinho e direitinho”. Havia mais músculo, mais movimento, mais espaço. Apresentaram músicas novas, incluindo a nova “Rosa”. Acabei a gostar bastante mais dos MANILA ao vivo do que esperava. Às vezes é para isso que os concertos servem.
Astra Vaga trouxe outro vocabulário. Pop sonhador, algum pós-punk e aquela névoa sonora que faz lembrar música portuguesa de outras décadas sem obrigar ninguém a fazer cosplay dos anos 80. Pensei várias vezes nos Sétima Legião. E depois reparei nas flores. Nas guitarras e no baixo levavam pequenas statice roxas, Limonium sinuatum. Para mim, são inevitavelmente flores de cemitério. É uma associação talvez demasiado pessoal, mas ficou. Não sei se estavam ali apenas para completar a identidade visual ou se eram uma pequena vénia ao dark wave. Seja como for, combinavam com o resto. Pode também acontecer que eu esteja a atribuir significados rebuscados a um ramo de flores. Aceito essa possibilidade.
CRIS (Cristiana Silva) aproveitou aquele que foi apenas o seu terceiro concerto para mostrar material que ainda não foi lançado oficialmente, a mais recente “Maré” e ainda encontrou espaço para “Problemas de Expressão”, dos Clã. É uma daquelas músicas que, nas mãos erradas, se transforma num karaoke coletivo. Foi tratada pela artista de neo-soul com contenção suficiente para continuar a ser uma canção e não apenas uma memória partilhada. E com as segundas vozes a introduzirem a música a cappella com um “uhum dép dép” que deu uma nova dimensão à música.
O Bonds entrou de fato e gravata, mas não passou a tratar toda a gente por “Exmo. Senhor” nem a ser um coletivo de agentes especiais britânicos vestidos de gala. É indie. É jazz. É soul. “Parece, Parece” que tem alma e corpo de música portuguesa em todo o seu esplendor.
Vitória Vermelho também apresentou músicas em direto e exclusivo. Tivemos um pequeno teaser daquilo que será o seu próximo trabalho bem como a sua mais recente “Para o Jack” acompanhada por aviões de papel. O seu maior hit “Não me o dês” despertou em mim uma associação mental que eu preferia não ter tido, mas agora já é tarde. O refrão acumula verbos como “rasgá-lo, perdê-lo, gastá-lo”. O meu cérebro foi buscar Marco Paulo. Mais concretamente, “Taras e Manias”. Aquele encadeamento verbal abriu a porta do imaginário das viagens até Fátima num Agosto qualquer e, durante alguns segundos, Vitória Vermelho e Marco Paulo passaram a coexistir no mesmo espaço mental.
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Entretanto, os aviões de papel iam aterrando junto ao palco e Vitória não podia esconder a felicidade daquele momento de simbiose. É aí que o Bonds acerta em cheio. Nas pequenas coisas: músicos que acabam o concerto e ficam por ali, alguém que compra um disco, uma t-shirt ou até um espelho de bolso (merch oficial de Astra Vaga), uma artista a pedir que façam voar aviões de papel ou Filipe Karlsson a aproximar-se de alguém que lhe acabou de pedir um filho.
O festival continua pequeno e não precisa de fingir que já é outra coisa. A Casa da Música poderia facilmente ter-lhe roubado escala e deixado tudo com um ar demasiado institucional. O Bonds entrou de fato e gravata, mas não passou a tratar toda a gente por “Exmo. Senhor” nem a ser um coletivo de agentes especiais britânicos vestidos de gala. É indie. É jazz. É soul. “Parece, Parece” que tem alma e corpo de música portuguesa em todo o seu esplendor.