Cremona, Uma Cidade em Silêncio

Cremona, Uma Cidade em Silêncio

António Maurício

Durante o mês de Janeiro, o Museu do Violino, em Itália, necessita de regime de silêncio absoluto para preservar sons em vias de extinção. A cidade de Cremona está a cumprir.

Os habitantes de Cremona, cidade em Itália, estão actualmente em regime de silêncio durante um mês. O autarca Gianluca Galimberti implorou aos habitantes da cidade que evitassem a propagação de sons bruscos e desnecessários e ordenou à policia o fecho de algumas ruas tal como o desvio de transito. Porquê? Necessitam de salvar violinos em vias de extinção.

Um violino, violoncelo ou viola Stradivarius representam o som de excelência e, até hoje, ninguém conseguiu replicar os seus sons tão distintos. De acordo com Fausto Cacciatori, curador do Museu do Violino em Cremona, cada Stradivarius possui a «sua própria personalidade». O grande problema é que estes sons tão ricos e singulares «vão inevitavelmente mudar» dentro de algumas décadas e, consequentemente, ficar perdidos para sempre. «Faz parte do seu ciclo de vida», continua Cacciatori«Nós preservamos e restauramos os instrumentos, mas depois de atingirem uma certa idade, tornam-se demasiado frágeis para serem tocados e vão dormir, assim dizendo.»

Os músicos do futuro vão ter a oportunidade de gravar uma sonata com um instrumento que já não funciona

Os heróis desta história são Mattia BersaniThomas KoritkeLeonardo Tedeschi, três engenheiros de som responsáveis pela produção da “Stradivarius Sound Bank” – a base de dados que armazenará todos os sons possíveis e imagináveis de quatro instrumentos Stradivarius seleccionados a partir da colecção do Museu do Violino. «Os músicos do futuro vão ter a oportunidade de gravar uma sonata com um instrumento que já não funciona» – afirmou Mattia Bersani, justificando a base de dados que poderá ser manipulada com software e produzir novas gravações com o som dos instrumentos originais.

Durante todo o mês de Janeiro, quatro músicos vão ter a responsabilidade de tocar em dois violinos, uma viola e um violoncelo, centenas de escalas e arpejos, utilizando diversas técnicas com os seus arcos, ou através do dedilhado. Trinta e dois microfones ultra-sensíveis ficam responsáveis pela captação do som. «Será fisicamente e mentalmente desafiante…», diz Thomas Koritke, um dos engenheiros de som, «Vão ter que tocar centenas de milhares de notas individuais durante oito horas por dia, seis dias por semana durante mais de um mês.» Além disso, as negociações com o museu para a execução deste “armazenamento digital”, a procura dos músicos adequados e o estudo do auditório onde as gravações serão realizadas, foram variáveis estudadas e organizadas durante anos.

No auditório, toda a ventilação e elevadores estão desactivados e todas as lâmpadas presentes na sala de gravação foram desaparafusas para eliminar qualquer tipo de burburinho.

O ambicioso projecto foi inicialmente agendado para 2017 mas, durante o soundcheck, surgiu um problema inesperado. As ruas presentes à volta do auditório, construídas em pedra arredondada, amplificam imensos as vibrações dos carros ou até de saltos altos que por ali passam, tornando todas as gravações inúteis. A salvação ficou nas mãos de Gianluca Galimberti, o mayor da cidade, que é simultaneamente o presidente da Fundação Stradivarius. Como tal, ordenou o fecho de todas as ruas à volta do museu e apelou ao bom senso dos habitantes de Cremona para que evitassem barulhos altos e escusados. No auditório, toda a ventilação e elevadores estão desactivados e todas as lâmpadas presentes na sala de gravação foram desaparafusas para eliminar qualquer tipo de burburinho.

Podem ler mais detalhes sobre esta finíssima história no New York Times. Se quiserem conhecer melhor o museu, podem visitar o site oficial que inclui visita virtual. As gravações começaram no dia 7 de Janeiro e continuam a ser efectuadas. Boa sorte!