Centauri, Dianho

Centauri, Dianho

Redacção

André Fernandes inspirou-se no bestiário tradicional português para criar o segundo álbum dos Centauri. O disco já está disponível para escuta.

Foi em 2018 que André Fernandes estreou em disco o seu projecto Centauri. O álbum “Draco” acabou mesmo como um dos eleitos pela nossa redacção para os melhores discos portugueses desse ano. Agora, o músico que figura como um dos melhores guitarristas portugueses na AS, editou novo disco com os Centauri, “Dianho”. A banda permanece a mesma: João Mortágua (saxofone alto, soprano), José Pedro Coelho (saxofone tenor, soprano), Francisco Brito (contrabaixo) e João Pereira (bateria).

As composições e todo o trabalho de gravação, mistura e masterização são de André Fernandes, tendo sido realizadas nos estúdios Timbuktu. Desta feita, o “mafarriquenho” artwork coube a Maria Bouza. O álbum já pode ser ouvido em vários serviços de streaming e está também disponível na sua forma integral no Bandcamp do projecto (no player em baixo).

É nesse espaço que Fernandes deixa algumas palavras sobre o conceito deste trabalho, cujas canções são inspiradas e intituladas por algumas histórias e criaturas presentes no livro “Bestiário Tradicional Português”, da Escafandro.

«Desde miúdo que nutro um fascínio pelo misterioso. Acho que ainda o procuro na música que ouço, acho que saber demais sobre algo retira parte da sua magia, encanto e interesse. Nessa infância/pré-adolescência encontrei regularmente esse mistério nas histórias que ouvia sobre eventos, personagens reais ou fictícias (mas que para mim podiam ser reais) que relatavam situações ou factos normalmente assustadores, e por isso falados em voz baixa, ou com tendência a serem considerados tabú, ou no mínimo não apropriado para miúdos da minha idade. Isso tornava tudo ainda mais apelativo. Lembro-me que a minha avó, natural da Beira Baixa, referia ocasionalmente esse tipo de contos ou lendas, e também tinha um fraquinho pelo sobrenatural, que aliado ao catolicismo da sua geração (para mim já por si suficientemente rico em histórias assustadoras) era fonte de grande curiosidade da minha parte.

Rapidamente percebi que podia encontrar muitas histórias em livros que devorei (Edgar Allan Poe, Stephen King, Clive Barker, etc) e que havia toda uma indústria de cinema dedicada a isto. Fiquei um fã até hoje. Há uns tempos comprei um livro para as minhas filhas que junta as histórias das personagens que povoam os pesadelos dos portugueses que com elas cresceram. Chama-se Bestiário Tradicional Português (Ed. Escafandro) e aconselho vivamente. Aí descobri imensas histórias portuguesas sobre monstros, demónios, bruxas e animais fantásticos que moram em Portugal, de norte a sul.

Este disco relaciona-se com algumas delas: Dianho é o diabo, mafarrico ou galhardo. Por ser comum a todo o país, dá o nome a este disco. Maria Gancha vive nos poços e é um perigo para crianças curiosas. O Homem Das Sete Dentaduras vive no Algarve, e ataca ao meio dia nos dias mais quentes. O Tardo anda nú a meio da noite e toma a forma de animais diversos até se tornar um lobisomem. As Aventesmas são enormes, usam uma túnica branca e crescem com o nosso medo. A Velha Da Égua Branca monta a sua égua nas noites de lua cheia e tem uma faca gigante com que solta animais enquanto faz um barulho assustador. Os Trasgos são os nossos duendes, e divertem-se em casa a fazer travessuras durante a noite. A Bicha-Serpe come crianças mal-comportadas, tem cabeça de abóbora e às vezes anda disfarçada entre nós com um capuz».