As Implicações Severas do Brexit nas Digressões Musicais

As Implicações Severas do Brexit nas Digressões Musicais

Redacção

Mais de 219.600 pessoas, incluindo músicos, actores e comediantes do Reino Unido assinaram uma petição exortando o seu governo a negociar uma licença de trabalho cultural gratuita que lhes permita actuar nos países da União Europeia.

A petição online foi iniciada pelo técnico de vídeo Tim Brennan, conta com assinaturas de estrelas como Ronan Keating, KT Tunstall, Gary Kemp ou Tim Burgess e exige que os músicos, bandas, celebridades da televisão e do desporto, bem como outros profissionais, possam viajar sem visto por toda a União Europeia, a fim de facilitar a sua circulação.

Uma vez que o Reino Unido está oficialmente fora da União Europeia, os artistas temem «enfrentar mais dificuldades ao tentarem fazer uma digressão profissional pela UE, com cada país a pedir o seu visto, que seria válido apenas para uma viagem». «Isto tornar-se-á impossível devido ao custo e ao tempo que se perde», diz a petição, ressalvando que, de agora em diante, os artistas poderão estar sujeitos a custos adicionais de vistos e outros requisitos, receando, por isso, que as digressões musicais possam estar definitivamente em risco.

Desde 01 de Janeiro de 2021, os cidadãos do Reino Unido devem ter um visto para estadias de duração superior a 90 dias num período de 180 dias, podendo também enfrentar restrições às suas actividades, enquanto anteriormente eram elegíveis para viajar livremente para e pelos países da União Europeia. Alguns países da UE como Itália, Dinamarca e Espanha requerem autorizações adicionais; por conseguinte, estas diferentes regras aplicadas noutros países poderão também trazer novas complicações.

A Incorporated Society of Musicians (ISM) diz-se «profundamente preocupada com a ausência de disposições de viagens sem visto para músicos que trabalham». O organismo para músicos profissionais salientou que a situação actual traria enormes implicações para os músicos britânicos que trabalham dentro da UE, uma vez que o mais recente relatório Brexit do ISM salientou que 78% dos músicos visitam a UE/EEE pelo menos uma vez por ano para actuarem.

«É extremamente decepcionante ver que os músicos e outros criativos não serão abrangidos pelas disposições de viagens de negócios de curto prazo sem visto. Depois de tudo o que o sector tem passado nos últimos dez meses, como é que isto aconteceu? É mais que tempo de o valor da música para as nossas vidas e para a nossa economia ser plenamente reconhecido», salientou a chefe executiva do ISM, Deborah Annetts.

O governo do Reino Unido, que tem instado outros países a estarem preparados para o seu novo sistema de imigração baseado em pontos, iniciado a fim de tratar as pessoas em todo o mundo de forma igual, diz que tentou assegurar melhores condições para os músicos britânicos durante as negociações do Brexit, mas as suas propostas foram todas rejeitadas pela UE. Quanto ao Sistema de Liquidação da UE, que permite aos cidadãos da UE, do EEE e da Suíça, juntamente com as suas famílias, continuarem a viver no Reino Unido pós-Brexit, o Ministério do Interior anunciou anteriormente que já foram apresentadas mais de quatro milhões de candidaturas.

«Os visitantes a curto prazo da UE podem continuar a participar em reuniões de negócios, receber formação e participar em eventos desportivos e culturais, entre outras actividades permitidas, sem necessidade de visto», disse entretanto uma porta-voz do governo à BBC. «Alguns estados membros podem permitir outros tipos de viagens de negócios sem visto, pelo que as pessoas devem verificar as regras do país para onde viajam», afirmou ainda.

No ano passado, o antigo ministro da cultura Nigel Adams afirmou que a livre circulação dos artistas seria absolutamente essencial no período pós-Brexit. Após o acordo ter sido anunciado na semana passada, o deputado trabalhista Thangam Debbonaire disse que as disposições relativas a vistos de turismo deveriam ter feito parte do acordo.

Exigências da Indústria

A indústria musical significa cerca de 5,8 mil milhões de libras para a economia britânica. E, em 2019, quase 20% da música ao vivo contribuiu para esse número, mesmo em ano de pandemia. O secretário-geral da União dos Músicos, Horace Trubridge, disse à BBC que o resultado actual sugere que «o governo não compreende os problemas enfrentados pelos músicos em digressão» que viajam para ambos os lados e que na maior parte das vezes transportam mercadorias.

«O nosso entendimento a partir da análise do acordo comercial é que as principais barreiras para os músicos a curto prazo serão as autorizações de trabalho, que podem variar de território para território, e as carteiras [autorizações] dispendiosas de circulação de instrumentos e equipamento», disse ainda Horace Trubridge, concluindo: «Temos vindo a apelar a um acordo recíproco. Compreendemos que os artistas e a tripulação baseados na UE vão querer trabalhar aqui, incluindo o Reino Unido numa digressão internacional, por exemplo, e muitos dos nossos membros dependem fortemente do trabalho nos países da UE. É extremamente decepcionante que tal acordo não tenha sido acordado. Continuaremos a trabalhar com o Governo do Reino Unido para tentar assegurar um acordo aceitável. Dado o enorme impacto da crise da Covid-19 na indústria musical britânica, este é outro golpe devastador».

Por sua vez, o director técnico de vídeo Tim Brennan, que iniciou a petição acima referida, declarou que as digressões «tornar-se-ão impossíveis devido ao custo e tempo se não tivermos viagens sem visto», através dos 27 estados membros, assinalando ainda a necessidade de existir uma «excepção para o equipamento de digressão».

Falando sobre exemplos práticos, a cantora Jane Weaver está habituada a viajar na carrinha com a banda e o equipamento, desde a sua casa, em Stockport, conduzindo por todo o continente «sem qualquer controlo particular» e sem ser parada. «A ideia de não poder fazer isso… É muito esmagador não ter essa liberdade», disse a artista em declarações à BBC.

Com o seu novo álbum, “Flock”, que deverá sair no início do próximo ano, Weaver está determinada a manter-se optimista e a tocar o mais depressa possível em segurança, mas acredita que a vida está a tornar-se cada vez mais difícil para ela e para os seus pares. «Os músicos são cronicamente desvalorizados e a informação de que toda a gente está a falar precisa de ser muito clara, porque vai haver muitos problemas de saúde mental devido ao facto de não podermos fazer digressões. Não somos devidamente pagos por empresas como o Spotify… e agora não podemos visitar o resto da Europa, não podemos ganhar dinheiro. É bastante deprimente, recuso-me a deixar-me sentir completamente condenada».

Já a banda pós-punk do sul de Londres Shame – que adiou o lançamento do seu próximo segundo álbum, “Drunk Tank Pink”, até que a possibilidade de uma digressão pelo Reino Unido fosse considerada – está optimista e acredita que poderá aparecer em festivais na Europa no próximo Verão, tais como o Primavera Sound de Barcelona.

«Penso que isto apenas tornou tudo muito mais complexo», disse o frontman Charlie Steen. «A tragédia é – embora tudo seja muito duro neste momento, ainda temos muita sorte por termos uma editora, temos um agente de reservas e, devido aos nossos anos anteriores de viagens incansáveis, temos algum tipo de experiência e conhecimento. É uma necessidade de avançar, de fazer todos esses festivais, e de pensar em todas as pessoas que estão apenas a começar e que podem não ter a oportunidade, porque podem apenas arranjar o dinheiro para ir a Paris ou o que quer que seja, mas não podem pagar os vistos…». Transportar merchandise, continuou Steen, é também crucial hoje em dia. Para concertos sem cachet fixo, a venda de merch é «por vezes a única maneira de se equilibrar ou ganhar algum dinheiro quando em digressão», afirmou.

É altamente provável que a pandemia impeça os artistas de fazerem digressões e promoverem os seus produtos nos primeiros meses de 2021, mas, no futuro, o regulamento de vistos poderá apresentar muitos mais problemas práticos. Resta então esperar pelos próximos capítulos desta novela para perceber se a indústria musical britânica está, irremediavelmente, ameaçada, e que efeitos colaterais poderá ter nos restantes países da UE.

EGITANA