Fomos ao Talkfest’16. [dia 4]

Fomos ao Talkfest’16. [dia 4]

Pedro Raimundo

No segundo dia do Talkfest, dia 4 de Março, continuaram as apresentações e conferências da indústria ligada aos festivais de música em Portugal.

No dia anterior realizou-se a gala de entrega dos Iberian Festival Awards, onde foram distinguidos entre outras 17 categorias, o Primavera Sound de Barcelona como Melhor Grande Festival, o Bons Sons de Cem Soldos (Tomar) o Melhor Festival de Dimensão Média, e o Flower Power Fest de Santo André (Santiago do Cacém) o Melhor Pequeno Festival.

Tatiana Ribeiro deu o mote de partida, com “Modelos de Negócios e Criação de Valor – Análise Exploratória Rock In Rio”, onde apresenta a sua dissertação de mestrado do ISCTE, sobre o modelo de negócios deste grande festival. Analisou os vários factores que contribuem para o sucesso da marca Rock In Rio, na proposta de valor e a relação da marca com os seus clientes – sponsors, público geral e público VIP, assim como os canais de comunicação utilizados pela marca: redes sociais, parceiros do festival. Mostrou-nos também uma análise à estrutura de custos e fluxo de rendimentos do festival. Para quem tenha um interesse adicional na temática encontra-se disponível gratuitamente no repositório do ISCTE. Ver aqui.

De seguida, no Auditório I um painel de convidados para nos falar sobre “Segurança e Drogas: Como Controlar e Como Instruir o Público nos Festivais”.
José Neto, Comandante da Divisão da PSP de Oeiras, falou sobre quais as maiores situações e incidentes que ocorrem nos festivais. Antes dos eventos é efectuada uma avaliação por parte das autoridades, analisado o estilo de música, tipo de público esperado no evento. Indica que deve existir uma boa coordenação entre os promotores e as forças de segurança, protecção civil, bombeiros, etc. A responsabilidade é colectiva, em grandes eventos existem centros de controlo que contam com a presença de todas as entidades envolvidas. Esclareceu que a revista de protecção nas entradas dos recintos e segurança é importante, não tendo como objectivo primário a detecção de drogas mas sim controlar a presença de objectos que possam pôr em causa a segurança dos próprios eventos. Focou também o aspecto de, caso determinado evento seja procurado ou o seu público-alvo seja particularmente composto por menores de idade, deverá existir uma especial atenção e comunicação por parte dos promotores com as forças de segurança, para se poder realizar um trabalho de prevenção e informação pedagógica por parte da comunicação da PSP/GNR.

Mário Silvestre, Comandante Operacional da Protecção Civil Nacional, esclarece de início a particularidade e separação de funções das duas instituições: A segurança (security) é competência da PSP/GNR, e a segurança (safety) no sentido de protecção, é competência da Protecção Civil.  A legislação portuguesa estipula que para eventos com capacidade a partir das 3 mil pessoas, é obrigatório existir um plano de segurança. Nestes casos é efectuado um planeamento a nível municipal com todas as entidades e os promotores, uma análise individual ao local do evento e dos seus participantes/público. O evento deverá ser bem planeado, de forma a não causar problemas ou constrangimentos ao promotor, mas tendo todas as regras bem definidas. Indica também que o álcool e seu consumo em excesso costuma ser o principal factor de problemas.

João Romeiras, director comercial da empresa 2045, falou sobre o papel da segurança privada nos eventos e festivais. O planeamento é essencial para que o público não sinta a presença e actuação das várias entidades de segurança, sendo assim silenciosa e mais eficaz também a evitar ocorrências.

Tiago Martins, director do Belém Art Fest, indica que os produtores/promotores devem envolver as autarquias e entidades de segurança (PSP/GNR, Bombeiros) no planeamento e execução dos eventos. O promotor é primariamente o responsável de tudo respeitante à segurança, não só se responsabiliza pelas acções do público, como também deve ter meios para prevenir ou actuar mediante certos comportamentos do mesmo. Habitualmente não existem grandes problemas ou distúrbios, mas que podem acontecer.

João Goulão, director do SICAD indica que a descriminalização das drogas leves foi importante, e as forças de segurança já têm mais tolerância para com os consumidores, o que inicialmente não acontecia. O importante é a prevenção como caminho a seguir e não a repressão.

De seguida Ricardo Simões, CEO da Triciclo, apresenta-nos a “Eficácia na Escolha, Criação e Gestão de Redes Sociais”. Começa por abordar quais as vantagens e desvantagens de comunicar, o permitir alcançar um público-alvo com precisão, o acesso privilegiado à opinião de consumidores de um produto/marca, o medir resultados ou optimizar tecnologias.  O facebook é uma ferramenta importante, sendo que é possível saber o que as pessoas pensam directamente sobre um produto ou marca. Por outro lado, refere também que uma correcta e adequada gestão do espaço das redes sociais requer disponibilidade de recursos humanos, apesar de serem de utilização gratuita têm custos. As pessoas ou utilizadores esperam um contacto/resposta quase imediatos, caso isso não aconteça pode defraudar as expectativas das pessoas.
No contexto de um festival, deverá ser tomada a decisão de quais as redes sociais em que queremos marcar presença. Deu o exemplo de quatro redes a ter em atenção: Youtube (Vídeo), Vine (Vídeo), Snapchat (Messaging e Discovery), WhatsApp (Customer Care).

Para ajudar a clarificar e situar as nossas opções, devemos tentar responder a algumas das seguintes questões: Onde está o nosso público-alvo; quais os objectivos; quantas pessoas têm interesse nas redes sociais; onde é que os nossos patrocinadores estão presentes; onde é que os nossos concorrentes estão presentes; qual o budget total de investimento nas redes sociais (criação de conteúdos e publicidade).

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Fotos: Pedro Silva

“Activação de Marca: Uma Abordagem inovadora para a Gestão de Marca”, por Inês Cordeiro da Universidade Católica, pretendeu mostrar a importância da activação e conexão de uma marca com o seu público. A activação sempre foi um dos drivers da comunicação de qualquer marca que queira estar no mercado. O primeiro factor deverá ser conhecer o consumidor, target (efectuar estudos de mercado). Saber quais os seus interesses e o que o mesmo valoriza, saber porquê e como ele poderá mostrar interesse em se relacionar com a marca que estamos a comunicar, e também perceber o que já foi feito e o que pode vir a ser feito de novo.
Deverá existir diferenciação da marca, conseguir ser distinguida no meio de tantas outras existentes, conseguir estabelecer uma interacção, aproximação e proximidade com o público.

Seguiu-se a apresentação da conferência acerca dos “Meios de Comunicação Online: Qual o Papel e Carácter Diferenciador Perante os Restantes Media na Actualidade e Importância Para os Festivais”. Este diálogo pretendia reflectir sobre os meios de comunicação online e a sua influência nos festivais em Portugal. Nick Nicotine, director do festival Barreiro Rocks afirma que tem um papel preponderante, sobretudo nos festivais com dimensão mais pequena ou com sonoridades mais alternativas, os meios tradicionais de comunicação não fazem a cobertura destes eventos.

Gonçalo Madaíl, director da RTP Memória refere que os músicos actualmente estão a tornar-se cada vez mais eles próprios os responsáveis e gestores da sua presença e divulgação online.
Pedro Dias, da Vodafone FM contou um pouco da história da rádio e do seu percurso. Indica que eles próprios estão a tentar encontrar formas de se reinventarem, com novas rubricas e o reforço de acompanhamento nos festivais que a marca acompanha, o Rock in Rio e o Paredes de Coura. Que apesar dos receios existentes ao início, essa cobertura imediata e ao vivo desses mesmos festivais não retira público ou interesse em ir ao evento. Pelo contrário, os festivais serão sempre uma experiência única pelo convívio, a amizade e o momento de partilha.

“Autoridade Tributária e Aduaneira – VAT Fest”, com Miguel Pinto, subdirector geral IVA, tentou esclarecer da melhor forma a plateia sobre os vários intervenientes no processo de promoção e organização de um evento, e como se diferenciam e classificam para efeitos de declaração do imposto do IVA. Para efeitos de IVA declarado, esclareceu também os vários cenários que podem ocorrer, de quais as despesas que podem ser ou não abatidas na declaração do mesmo, assim como a percentagem de IVA aplicáveis nas diferentes áreas associadas aos festivais, tais como a venda de bilhetes (13%), merchandise, patrocínios ou comissões (23%), direitos de autor ou direitos conexos (isentos).

Assistimos também à apresentação da APORFEST – Associação Portuguesa de Festivais de Música, por Ricardo Bramão, presidente e fundador. A mesma pretende ajudar a estabelecer um ponto de contacto célere entre os players, nacionais e internacionais, na área dos festivais. Presta serviços de consultoria e apoio estratégico, defendendo os interesses de todos os associados perante as diferentes instâncias municipais e/ou governamentais. Tem também uma componente de formação, onde pretende criar conteúdos de valor que possam servir para melhorar conhecimentos e criar talentos (como por exemplo o curso de Music Festivals Management). Uma parte importante tem sido a organização do próprio Talkfest, já na sua 5ª edição, que tem vindo a ter um crescimento sustentável. O público-alvo da APORFEST são os promotores directos dos festivais de música, os promotores indirectos (municípios), artistas, managers, técnicos de som e luz, jornalistas… Estão a trabalhar também na publicação de um livro com a compilação de toda a legislação referente a esta área da organização e promoção de festivais de música.

“ASAE – Acção Fiscalizadora (Área Alimentar Vs. Área Económica)”, onde Pedro Gaspar, inspector geral da instituição fala sobre os vários tipos de contra-ordenações que podem existir durante a realização de festivais, assim como a forma como as inspecções são realizadas. Informa que existem reuniões com as organizações e inspecções prévias aos recintos, para tornar tudo mais fluído no próprio dia da realização dos eventos.
Falou também da especulação dos bilhetes de eventos, algo que se manifesta cada vez mais nas redes sociais e sites de vendas em segunda mão, assim como da venda de álcool a menores. Um esclarecimento importante que lançou bastantes perguntas por parte da plateia sobre a fiscalização, métodos e processos utilizados pela instituição.

Durante a parte da tarde, no auditório III foi feita a projecção de alguns documentários, dos quais destacamos “Rock in Rio – 30 Anos”, que nos mostra onde e como tudo começou, no primeiro festival Rock in Rio realizado em 1985. Podemos ver as dificuldades, percalços na organização, mas também o sucesso e legado desta primeira edição do maior festival do Brasil e da América Latina. “A Scene Called Barcelos”, onde nos é mostrada a forte viagem musical da cidade de Barcelos, desde os anos 90 com o aparecimento de uma multitude de bandas, até ao seu expoente máximo mais recente com o festival Milhões de Festa. “SWR Barroselas Metalfest – 15 Anos”, onde também nos é mostrada a viagem de 15 anos de um festival de música sedeado na vila de Barroselas, concelho de Viana do Castelo, onde as sonoridades mais fortes e extremas encontram a sua casa anualmente durante 3 dias.

Assim terminou um festival que pretendeu esclarecer, informar e sobretudo conectar os mais diversos intervenientes desta indústria. Poder estabelecer diálogos e pontos de contacto, com vista a melhorar a organização e gestão dos eventos, mas também a experiência e vivência de todos os actuais e futuros festivaleiros portugueses.

VÊ AQUI COMO FOI O PRIMEIRO DIA DO TALKFEST.

EGITANA