Tana Douglas, A Primeira Roadie Feminina do Mundo

Tana Douglas, A Primeira Roadie Feminina do Mundo

Redacção
Lisa Johnson

“Loud: A Life in Rock’n’Roll by the World’s First Female Roadie” é o nome do livro editado dia 3 de Fevereiro e que conta, na primeira pessoa, a história daquela que é conhecida como a primeira roadie feminina da história do rock. Esta é a incrível história da vida de Tana Douglas.

Tana Douglas é conhecida na indústria musical como a primeira roadie feminina do rock’n’roll. A sua (já longa) viagem começou em 1973, na Austrália, com apenas 15 anos de idade e, em apenas um ano, começou a trabalhar com os na altura iniciantes AC/DC, primeiro a tratar do backline e depois a fazer som para a banda. Mas tudo começou por acaso…

Foi no festival australiano Nimbin Aquarius, num encontro casual com Philippe Petit (equilibrista francês que ficou famoso pela sua caminhada ilegal entre as Torres Gémeas em Nova Iorque no dia 6 de Agosto de 1974). O primeiro trabalho de Tana surgiu totalmente por acidente: Petit queria apanhar boleia para casa com membros dos Fox, mas os roadies da banda britânica estavam a ser tão lentos a carregar o equipamento que Tana Douglas pôs mãos à obra e fê-lo tão bem que foi contratada de imediato.

Nesse início da carreira, Tana acumulou experiência durante uns tempos a trabalhar na iluminação para uma grande promotora australiana e, num ápice, integrou várias digressões internacionais fazendo parte das equipas técnicas de nomes tão distintos como Santana, Suzi Quatro, Neil Diamond, David Essex, Leo Sayer e Status Quo. Isto tudo… antes de completar 18 anos! Depois de conseguir que o pai assinasse o seu passaporte para que pudesse viajar para fora da Austrália, Tana embarcaria em mais uma grande aventura, desta vez em Londres, onde trabalharia – durante quatro anos – com os Status Quo, ao leme do equipamento de iluminação.

Terminada a tour dos Status Quo, Tana levou o equipamento de luz e, principalmente, o seu know-how para a Tasco, uma grande empresa de produção de Londres que até essa altura só tinha realizado som para digressões de bandas. Com a Tasco, desenvolveu uma relação que duraria vários anos e que incluiria trabalhos com os The Who, Ozzy Osbourne, Whitesnake, The Police, Elton John, Iggy Pop e Johnny Halliday.

A sua relação com a empresa inglesa permitiu a sua transferência para os EUA após a abertura de uma divisão da Tasco em Los Angeles. Depois de se ter tornado residente dos EUA, alargou as suas relações de trabalho de modo a incluir também a Delicate Productions e a Light & Sound Design, ao serviço das quais trabalhou com Elton John, INXS e Men at Work, antes de ser novamente chamada de volta à Europa para gerir, na altura, a maior plataforma de iluminação alguma vez construída para uma residência de sete meses para o seu velho amigo Johnny Halliday, no Le Zenith, em Paris, para a Light & Sound Design (LSD).

Concluída a tarefa na capital francesa, era tempo de mudar novamente para Los Angeles, que por esta altura lhe oferecia trabalho na área da logística, o que significava que onde estivesse uma digressão, Tana também estava, pois era a pessoa certa para garantir que tudo acontecia, fosse com Lenny Kravitz, Pearl Jam, Red Hot Chili Peppers, Luther Vandross ou Ice-T e Ice Cube, só para citar alguns.

A carreira de Tana, que actualmente vive em Los Angeles, Califórnia, durou mais de 30 anos e a sua posição única na indústria musical foi, ao longo do tempo, objecto de citação em vários livros. Agora, é altura de Tana contar a sua história com as suas próprias palavras, num livro chamado “LOUD: A Life in Rock’n’Roll by the World’s First Female Roadie”, disponível a partir de 3 de Fevereiro.

Nem todos os homens querem ser informados sobre o que fazer por uma mulher. Descobri que havia diferentes maneiras de propor uma situação

E foi precisamente à volta da edição deste livro que girou a conversa de Tana Douglas com a edição australiana do jornal Guardian, passando em revista alguns episódios descritos no livro. Tana, hoje em dia consultora para a indústria de produção, diz-se muito longe do seu início «selvagem como uma adolescente à boleia» que se sentia «indesejada pela família».

Tendo como canção preferida dessa época “We Gotta Get Out Of This Place”, dos Animals – que esta semana viram desaparecer o guitarrista Hilton Valentine -, Tana conta que foi como roadie dos AC/DC que encontrou a sua vocação, recorda que o segundo vocalista da banda australiana, Bon Scott, dizia-se preocupado por ser demasiado velho (na altura tinha 20 e poucos anos) e confidencia: «Estávamos a tocar em bares a fingir que éramos adultos, conduzíamos com ou sem carta de condução. Crescer não acontecia realmente, apenas se supunha que iria acontecer algures no tempo».

Tana reconhece que a vida como roadie era muitas vezes louca e frequentemente perigosa e sublinha que o facto de ser mulher nem sempre a ajudou, pois muitas vezes significava ter de trabalhar o dobro dos colegas para ser aceite por estes. «Tornei-me muito rapidamente chefe de equipa e era responsável por pessoas de diferentes departamentos, mas é preciso ter mais cuidado, porque nem todos os homens querem ser informados sobre o que fazer por uma mulher. Descobri que havia diferentes maneiras de propor uma situação. Por exemplo, em vez de dar ordens, perguntava-lhes: “Porque não fazemos isto?“».

Se dissesse “acho que tenho um pequeno problema de saúde mental”, era como se tivesse apanhado a peste negra

Quando engravidou, Tana não contou a ninguém e depois manteve o filho em segredo – e as opções eram ou encontrar um trabalho das 9 às 5 ou ir para a estrada. Escolheu este último, claro, e mais tarde acabou numa longa batalha judicial pela custódia do filho com a sua mãe, com quem a criança tinha ficado. Outro dos temas do livro são as questões de saúde mental, uma séria preocupação para as equipas na estrada. «Finalmente as pessoas estão a pedir ajuda. Foi visto como um sinal de fraqueza. Podia cair-se de bêbedo sete noites por semana e ninguém veria isso como um problema, mas se se dissesse “acho que tenho um pequeno problema de saúde mental”, era como se tivesse apanhado a peste negra».

Tana recorda ainda um episódio que remonta aos seus primeiros concertos, referindo que cedo se agarrou à regra: “nunca os deixes ver um sinal de fraqueza”. Tana lembra-se de ter dado esse conselho a uma chorosa Sharon Osbourne, numa casa de banho do lobby de um hotel durante a digressão “Blizzard Of Ozz”, de 1980, de Ozzy Osbourne. «[Sharon Osbourne] parece ter levado isso a peito. Oops!», diz Tana Douglas, entre risos, sobre a mulher que se tornaria uma gestora notoriamente dura.

Outro problema que vai surgindo à medida que os roadies envelhecem diz respeito a estes nem sempre se adaptarem ao ambiente fora da indústria musical. Tana remata com um conselho: «Viveram num mundo isolado com regras completamente diferentes. Mas confiem em mim, podem fazer uma centena de outros trabalhos. As pessoas da área da produção trabalham horas a fio em ambientes perigosos… Podem pensar fora da caixa e pensar em situações extremas, podem lidar com cidades diferentes, línguas diferentes».

Além do livro agora publicado, Tana Douglas tem um blog, onde escreve com frequência sobre os mais variados assuntos, muitos deles relacionados com a profissão que abraçou um certo dia, na Austrália, corria o ano de 1973. Vale a pena espreitar.

Enfrentamos tempos de incerteza e a imprensa não é excepção. Ainda mais a imprensa musical que, como tantos outros, vê o seu sector sofrer com a paralisação imposta pelas medidas de combate à pandemia. Uns são filhos e outros enteados. A AS não vai ter direito a um tostão dos infames 15 milhões de publicidade institucional. Também não nos sentimos confortáveis em pedir doações a quem nos lê. A forma de nos ajudarem é considerarem desbloquear os inibidores de publicidade no nosso website e, se gostam dos nossos conteúdos, comprarem um dos nossos exemplares impressos, através da nossa LOJA.

EGITANA