O último dia do CA Vilar de Mouros 2026 pedia uma despedida menos arrumada. Depois de quatro dias a saltar entre mundos muito diferentes, o sábado trouxe guitarras mais duras, memória punk, psicadelismo pesado, fusão de estilos, rap metal e uma festa final debaixo de chuva.
O último dia do CA Vilar de Mourof foi uma noite de energia frontal, mas também de contrastes difíceis. Houve celebração, descoberta, grandes músicos, público em alta e um momento incómodo que não pode ficar escondido atrás do volume.
Primeiros sinais de distorção
Os Devil of a Woman, vencedores do concurso de bandas de garagem António Barge, abriram a tarde com uma atuação competente e com sinais claros de potencial. A voz de Ana Beatriz tem força, alcance e presença suficientes para prender a atenção mesmo num horário ingrato. A banda mostrou bons riffs, músicos criativos e canções bem construídas, com partes definidas e uma produção sonora já acima do mero ensaio de garagem. Falta estrada, como é natural, e por isso mesmo faz sentido que passem por mais palcos de festivais portugueses. Há ali matéria para crescer.
Os TRAVO subiram logo a fasquia. A banda bracarense fez exatamente o que se espera de uma banda psicadélica pesada, só que com mais pressão do que a etiqueta costuma prometer. O som chegou a atravessar o recinto a ponto de incomodar a conferência de imprensa que decorria fora dele, ironia justa num festival em que o essencial estava mesmo no palco. As guitarras vinham densas, a bateria empurrava, e a música tinha aquela mistura de viagem e pancada que prende quem gosta de psicadelismo com volume.
O mais interessante nos TRAVO é que a música não fica presa à contemplação. Há repetição, há transe, há melodias a abrir por baixo da distorção, mas há também uma vontade clara de tornar tudo mais pesado. Esse cruzamento pega bem quando a banda encontra o ponto certo entre psicadelismo e força. Em Vilar de Mouros, encontrou. Para um horário ainda cedo, deixaram a impressão mais forte entre as atuações portuguesas do festival.
Fotos: Ricardo Rego
Foram cinco dias em que o festival pareceu testar a própria elasticidade, entre pop, punk, eletrónica, psicadelismo, funk, metal, canção de autor e regressos improváveis.
Marky Ramone e o relógio punk do “one, two, three, four”
Com Marky Ramone, o recinto entrou em modo Ramones. Foi saudosista, sim, mas no melhor sentido. Marky ainda toca como um relógio, e a banda funciona exatamente como o repertório pede. Era “one, two, three, four”, música atrás de música, sem tempo para respirar nem para pensar muito. O concerto avançou em velocidade máxima, com “Do You Wanna Dance?”, “Teenage Lobotomy”, “Commando”, “Beat on the Brat”, “Sheena Is a Punk Rocker”, “I Wanna Be Sedated”, “California Sun”, “Rockaway Beach” e “Rock ’n’ Roll High School” a passarem como descarga contínua.
Sentiu-se falta de temas mais comerciais e melódicos como “Poison Heart” ou “I Believe in Miracles”, mas percebeu-se a escolha. Este projeto parece desenhado para manter o ritmo lá em cima, sem canções que baixem demasiado a pulsação. Perto do fim, Marky fingiu sair de palco quando o público já pedia mais, antes mesmo de ele se levantar da bateria. Voltou, claro, para fechar com “What a Wonderful World” e “Blitzkrieg Bop”. Foi nervoso, rápido e eficaz, como o punk deve ser quando precisa de preparar terreno para uma noite pesada. Entregou aquilo que o público queria.
Fotos: Ricardo Rego
Rudeboy, DJ DNA e uma fusão que ainda merecia mais gente
Quando Rudeboy entrou, percebeu-se uma coisa curiosa. Depois da celebração direta e reconhecível de Marky Ramone, o público junto ao palco diminuiu. O concerto não começou vazio, longe disso, mas ficou mais disperso pelo recinto, como se parte da plateia não soubesse bem o que esperar daquele nome no cartaz. Foi pena, porque o que veio a seguir merecia mais concentração à frente do palco. No ecrã, surgia o nome Sons of the Culture Clash, que não era apenas detalhe gráfico. O nome apontava para a nova etapa de Rudeboy e DJ DNA, depois da recuperação da herança dos Urban Dance Squad. Em Vilar de Mouros, essa transição ficou no ar, entre memória e futuro.
A banda soou muito bem. “No Kid”, “Harvey Quinnt”, “Alienated”, “Good Grief” e “Step Off” mostraram porque os Urban Dance Squad continuam a ser uma peça menos lembrada do que merecia na história da fusão entre rap, funk, rock, punk e hip-hop. A comparação com Red Hot Chili Peppers, Fishbone, Faith No More ou Beastie Boys aparece naturalmente, mas a linguagem deles tinha assinatura própria. O DJ não era enfeite. Era parte da arquitetura. A voz não vinha por cima da banda. Entrava na engrenagem.
O baixo e a bateria seguravam o balanço, enquanto a guitarra puxava tudo para um lado mais nervoso. Ao vivo, o som ficou mais pesado do que nas gravações, e isso trouxe vantagens e perdas. A pressão da banda ajudou a ocupar o palco, mas também retirou um pouco daquele balanço mais solto que faz os temas de estúdio respirarem tão bem. Mesmo assim, foi um grande concerto. Para quem gosta destas zonas de cruzamento, fez perguntar como é que esta música não circulou mais por cá. O público, porém, dispersou-se pelo recinto e nem sempre respondeu à altura do que estava a acontecer.
Fotos: Ricardo Rego
Body Count e o peso que também obriga a olhar para o discurso
Depois veio Body Count, e o último dia ganhou o seu grande trunfo musical. “Body Count’s in the House” abriu o concerto com a banda a assumir de imediato o lugar mais pesado da noite. A versão de “Raining Blood”, dos Slayer, confirmou essa entrada no terreno do metal sem rodeios, e a partir daí o grupo de Ice-T avançou entre rap, hardcore, riffs densos e palavras feitas para provocar reação. Ernie C continua a ser decisivo na guitarra, Juan of the Dead reforça essa muralha, Vincent Price dá profundidade ao baixo e Ill Will segura a bateria com uma força que mantém tudo em combustão.
Musicalmente, a banda foi fortíssima. “Point the Finger”, “There Goes the Neighborhood”, “The Purge”, “Manslaughter” e “No Lives Matter” mostraram que os Body Count continuam capazes de transformar raiva social em música de grande impacto. Sean E Sean e Little Ice acrescentaram resposta, presença e energia ao lado de Ice-T, que domina o palco como veterano absoluto. O som era pesado, claro, no entanto também era muito bem tocado. Guitarras afiadas, base sólida e repertório com história.
O ponto mais sensível chegou com “Psychopath”. Ice-T surgiu como uma figura de assassino caricatural, com o rosto coberto por uma máscara improvisada de collants, faca cenográfica e sangue falso. A encenação passou pela simulação do homicídio de um dos elementos em palco, papel assumido por Little Ice, filho de Ice-T, e provocou reações diferentes na plateia, entre entusiasmo, surpresa e desconforto. O problema maior, no entanto, não esteve apenas na teatralidade. Esteve nas falas de Ice-T, sobretudo quando entrou num discurso misógino sobre homens, mulheres e virilidade. Num mundo atravessado por violência contra as mulheres e pela normalização de movimentos como redpill e MGTOW, esse tipo de provocação já não soa apenas datado. Soa irresponsável.
É possível reconhecer a importância dos Body Count, a força da banda e o papel histórico de Ice-T sem passar por cima desse momento. A provocação sempre fez parte da linguagem do grupo, e “Cop Killer” continua a carregar uma história política que não desapareceu. Mas há uma diferença entre confronto social e discurso que alimenta uma masculinidade pobre, agressiva e velha. Em Vilar de Mouros, essa fronteira ficou exposta. A música aguentou-se muito melhor do que algumas palavras.
Ainda assim, a reta final voltou a mostrar a potência do concerto. “Disorder”, dos The Exploited, puxou a ligação ao punk, “Talk Shit, Get Shot” manteve o confronto direto, e “Cop Killer” foi o ponto alto musical da atuação. A canção continua a chegar carregada de polémica, memória e energia, mas ao vivo também funciona pela força do riff, pela resposta do público e pela tensão acumulada. Os Body Count foram enormes enquanto banda. O desconforto ficou, e talvez tenha de ficar. Foi parte da noite.
Fotos: Ricardo Rego
Skindred e a chuva transformada em festa
Cinco minutos antes dos Skindred, começou a chover. Depois de Body Count, era expectável que o recinto esvaziasse, e a chuva podia ter feito o resto. Não aconteceu dessa forma. Algumas pessoas foram saindo, no entanto ficou um público próprio, animado e preparado para responder a uma banda que vive precisamente da mistura, da participação e da confusão bem comandada.
Benji Webbe entrou com chapéu chamativo e roupa de brilho, assumindo desde logo o lado teatral da banda. Ao longo do concerto foi trocando peças ali mesmo, como quem faz da roupa parte da encenação. Os Skindred saltaram entre metal, reggae, rock, eletrónica e referências inesperadas, passando por acenos a AC/DC, Cypress Hill, Van Halen, Queen, The White Stripes e até uma homenagem a Ozzy Osbourne. Houve momentos em que a banda parecia imitar um rádio a atravessar estações, com o baterista a comandar samples enquanto baixista e guitarrista saíam de palco.
A certa altura, depois de confirmar que Portugal gostava de reggae, Benji abriu espaço para circle pits em modo heavy metal. A brincadeira funcionou porque os Skindred têm público que aceita a troca brusca de linguagem. A banda provoca barulho, puxa pela plateia e transforma mudanças de estilo em jogo de festival. Tocando depois de Body Count, escolheram outro caminho. Menos confronto, mais festa, mas ainda com volume suficiente para manter a noite acesa.
A sequência final foi excelente. “Nobody”, “Gimme That Boom” e “Warning” levaram a participação ao ponto mais alto de todo o dia, talvez até acima das bandas anteriores. “Warning” trouxe o momento esperado, com o público a rodar camisolas e casacos no ar no já conhecido Newport Helicopter, ritual dos Skindred que transformou a chuva em parte da festa. Foi um grande final. Depois da violência problemática de Body Count, os Skindred fecharam o festival com uma catarse também pesada, só que mais aberta e muito mais divertida.
Vilar de Mouros terminou molhado, barulhento e longe de qualquer ideia de encerramento arrumado. Foram cinco dias em que o festival pareceu testar a própria elasticidade, entre pop, punk, eletrónica, psicadelismo, funk, metal, canção de autor e regressos improváveis. Nem sempre de acertos vive um festival. Também vive de diferenças, de públicos que reagem de forma desigual, de culturas, gerações e maneiras distintas de ocupar o mesmo vale. Nem tudo teve a mesma força, nem tudo encontrou o público que merecia, mas essa irregularidade também faz parte do encanto. A edição de 2026 deixou momentos de comunhão, descobertas inesperadas, concertos que chegaram tarde demais a Portugal e outros que talvez tenham vindo na hora certa. No último dia, entre a chuva, a provocação, o desconforto e a festa, o festival despediu-se como viveu estes dias, com música a mais para caber numa só direção. E, quando se sai do recinto pela última vez, fica aquele aperto pequeno no peito, o de quem se despede cansado, mas já com saudade. “Isto é Vilar”, como diz o próprio festival. Cansa, sim. Mas ama-se por isso mesmo. Até para o ano.