CA Vilar de Mouros 2026: Do “Fuck, Chega” das Lambrini Girls, ao ruído industrial dos Cabaret Voltaire, passando pela liturgia moderna de PRESIDENT
(c) Ricardo Rego

CA Vilar de Mouros 2026: Do “Fuck, Chega” das Lambrini Girls, ao ruído industrial dos Cabaret Voltaire, passando pela liturgia moderna de PRESIDENT

19/08/2026

Review

Tom A. Smith
7/10
The Molotovs
8/10
Lambrini Girls
9/10
Cabaret Voltaire
10/10
President
8/10
Som
8/10
Ambiente
9/10
Overall
8.4/10

O primeiro dia do CA Vilar de Mouros 2026 começou por mostrar uma das forças habituais do festival, a capacidade de juntar públicos que nem sempre parecem vir ao mesmo lugar pelo mesmo motivo.

Antes de YUNGBLUD tomar conta do encerramento, houve rock jovem, punk político, eletrónica industrial e metal moderno de estética meio litúrgica. Foi um arranque diverso, por vezes irregular na forma como o público se distribuía pelo recinto, mas cheio de sinais interessantes.

Guitarras novas para abrir caminho
Tom A. Smith abriu o palco com o recinto ainda a compor-se, num horário em que a energia em palco tinha de correr mais do que a resposta da plateia. Pelo pouco que foi possível acompanhar, temas como “Our Song” e “Put On A Record Tommy” deixaram a impressão de um rock britânico direto, bem resolvido e sem grandes desvios. Não deu para formular uma opinião consistente, mas foi um arranque competente para uma tarde que depressa ganharia mais nervo.

The Molotovs foram uma das primeiras boas surpresas do dia. O trio britânico, formado pelos irmãos Mathew Cartlidge na voz e guitarra e Issey Cartlidge no baixo e voz, com Noah Riley na bateria, apanhou um horário ingrato, com muito público ainda a chegar, mas tocou como se a frente do palco já estivesse cheia. Houve movimento constante, energia, canções em sequência sempre interessantes e uma atitude que compensou a dimensão ainda reduzida da plateia. O concerto não precisou de contexto para funcionar, bastou a banda entrar com vontade.

Issey Cartlidge foi um dos grandes focos da atuação. Não parava em palco, dançava, fazia as suas partes vocais e segurava tudo com um Rickenbacker que, por si só, já traz outro peso ao som. Mathew Cartlidge mostrou competência e não limitou a guitarra a servir de base, intercalando solos curtos, eficazes e complementares. Noah Riley, muito beneficiado por um som bem equalizado, destacou-se como motor da banda. The Molotovs mereciam mais gente àquela hora, ainda assim a falta de multidão não lhes retirou brilho. “Daydreaming” foi o ponto alto de uma apresentação muito boa, que ainda passou por “More More More” e “Rhythm of Yourself”.

Lambrini Girls e o grito punk como confronto
Com Lambrini Girls, o dia elevou a temperatura. Primeiro chegaram Selin Macieira-Boşgelmez e Misha Phillips, e o baixo chegou logo com uma distorção suja e pesada, como se um Big Muff te acordasse a dizer bom dia. Pouco depois, Phoebe Lunny entrou já a pedir duas rodas de mosh, uma de cada lado, e deixou claro que aquele concerto não vinha em modo simpático. Vinha para criar atrito.

Pouco depois, Phoebe Lunny entrou já a pedir duas rodas de mosh, uma de cada lado, e deixou claro que aquele concerto não vinha em modo simpático. Vinha para criar atrito.

O atrito foi musical, físico e político. Depois de saudar Portugal, Lambrini Girls não demoraram a apontar o dedo à extrema-direita. Os ecrãs acenderam com “Fuck Chega!” em vermelho, dirigido ao partido português mais representativo da extrema-direita. Surgiram algumas reações raivosas na plateia, com dedos do meio erguidos, mas foram rapidamente abafadas pelo público, que acabou a cantar a frase acompanhada por um arranjo de baixo saturado ao extremo, enquanto o ecrã estampava “Fuck the Far Right”. Houve ainda palavras por Palestina, Congo e Sudão livres. E havia uma guitarra empunhada pela determinada Phoebe Lunny com adesivos de “Fuck ICE”, reforçando que, para a banda, o punk não é apenas volume e distorção. É confronto.

A baterista Misha Phillips fez também um discurso pelos direitos das pessoas trans, com uma bandeira da causa ao fundo, e esse momento ajudou a confirmar a natureza do concerto. Tal como na história do punk, Lambrini Girls não separaram música de posição política, nem tentaram suavizar a mensagem para caber melhor num festival de verão. A atuação teve raiva, humor, corpo e risco. “Bad Apple”, “Company Culture” e “Lads Lads Lads” ajudaram a consolidar esse embate, “Love” surgiu como um dos pontos fortes do concerto, e o fecho com “Big Dick Energy” confirmou que a recusa de agradar a todos era precisamente aquilo que dava força à banda.


Fotos: Ricardo Rego

 

Cabaret Voltaire, a máquina e o legado
Depois veio o peso histórico dos Cabaret Voltaire, num registo completamente diferente. Para quem não conhecia profundamente a banda, a atuação deixava ainda assim uma evidência clara. Aquela música influenciou muita gente. Nos graves que mexiam com o corpo, na repetição que por vezes levava ao transe, na frieza das máquinas e na concentração quase clínica dos músicos, aparecia uma genealogia inteira da eletrónica, do industrial, do pós-punk e de alguma pop mais sombria que viria depois.

Em Vilar de Mouros, Cabaret Voltaire não apareceram como uma relíquia de museu. O peso histórico estava concentrado em Stephen Mallinder, na voz, no baixo e como presença central desta versão ao vivo. À sua volta, Eric Random, Benge e Finlay Shakespeare formavam um corpo de músicos de competência à altura do legado, com bateria eletrónica, sintetizadores, mesas cheias de equipamento e uma arquitetura sonora feita de tensão e repetição. Chris Watson não estava presente, mas a formação em palco deu corpo a uma reconstrução possível, mais interessada em fazer o som funcionar no presente do que em preservar uma fotografia antiga.

A comunicação foi mínima. Um boa-noite, a apresentação da banda e um agradecimento às Lambrini Girls, elogiadas depois do concerto anterior. De resto, concentração total. O som estava adequado ao que a banda propõe, com graves físicos, texturas densas e uma complexidade que talvez parecesse menos imediata numa noite em que muitos esperavam os nomes mais recentes do cartaz. Ainda assim, muita gente dançou, fixou a atenção e entrou naquela frequência. O alinhamento seguiu a lógica dos concertos recentes, com temas como “24/24”, “Crackdown”, “Yashar”, “Nag Nag Nag” e “Sensoria” como pontos de referência.


Fotos: Ricardo Rego

PRESIDENT e a liturgia do metal moderno
PRESIDENT trouxeram um tipo de máquina mais recente, mais teatral e claramente pensada como experiência visual. O palco tinha um púlpito com a logo da banda acesa, a lembrar uma cruz católica alterada, com duas estacas horizontais, e duas bandeiras bicolores ao fundo que evocavam a iconografia norte-americana sem a reproduzirem literalmente. A estética era forte, quase ritualizada, e poderia facilmente cair no vazio se a música não estivesse à altura. Mas estava.

A banda soou pesada, cheia e precisa demais para aquilo que, à primeira vista, parecia um power trio. O baterista usava recursos eletrónicos com frequência, mas também se percebiam arranjos fora dos três instrumentos principais, com teclados, órgãos, ambiências e batidas eletrónicas a engrossarem o som. O resultado lembrava por vezes uma fórmula próxima da usada pelos Thirty Seconds to Mars, não tanto na sonoridade pura, mas na ideia de espetáculo moderno, grande, emocional e cuidadosamente construído, com elementos eletrónicos que não dependiam da presença visível de todos os músicos.

O vocalista foi o elemento decisivo. A voz era absurdamente afinada e ia do falsete lírico ao gutural sem perder presença.

O vocalista foi o elemento decisivo. A voz era absurdamente afinada e ia do falsete lírico ao gutural sem perder presença. Esse detalhe segurou tudo. Sem uma voz daquela dimensão, o púlpito, as luzes, os discursos e a solenidade visual poderiam parecer apenas embalagem. Em Vilar de Mouros, a execução deu razão ao conceito. “Fearless” e “Dionysus” mostraram essa combinação entre peso, precisão e encenação, enquanto “RAGE”, antecedida por um monólogo de abertura, reforçou a dimensão quase cerimonial do concerto. A certa altura, sem falar, conduziu a plateia apenas por gestos até abrir um circle pit. Noutros momentos, usou o púlpito em introduções carregadas de vozes e discursos. Foram cerca de quarenta minutos, formato habitual na banda, mas chegaram para deixar a sensação de uma estreia portuguesa muito bem-sucedida.

Antes do cabeça de cartaz, o primeiro dia de Vilar de Mouros já tinha mostrado uma amplitude pouco comum. Passou por guitarras jovens, punk político, eletrónica industrial e metal moderno ritualizado, numa sucessão de mundos que nem sempre pareciam destinados ao mesmo público. Talvez seja precisamente aí que o festival continue a encontrar parte da sua identidade. Menos preocupado em alinhar tudo na mesma direção, mais interessado em fazer estilos, gerações e linguagens diferentes ocuparem o mesmo vale durante algumas horas.

[não foi permitido a captação de fotografia]