O quarto dia do CA Vilar de Mouros 2026 abrandou o ritmo, entre o psicadelismo dos Monstro, o rock pesado dos Triggerfinger, o groove contagiante dos WAR e a intimidade de Ben Harper. Um dia de sol, canções, guitarras e memórias partilhadas, que encontrou nos WAR e em Ben Harper os seus momentos mais fortes, antes de um fecho com os KALEO que não conseguiu manter a mesma chama.
O quarto dia do CA Vilar de Mouros 2026 nasceu com um sol estonteante a iluminar Caminha. Daquelas manhãs em que só apetece praia, cerveja e uma playlist onde cabem “Low Rider” e “Spill the Wine”, dos WAR, ou “Steal My Kisses” e “Diamonds On The Inside”, de Ben Harper. A natureza parecia conspirar a favor de uma sexta-feira menos urgente do que a véspera, mas cheia de lugares por onde seguir. Foi um dia de psicadelismo discreto, canções de recorte íntimo, rock pesado de trio, funk clássico, emoção partilhada e blues rock de fim de noite.
Psicadelismo português para abrir
Os MONSTRO abriram o dia em formato de duo, com vozes muito bonitas e uma vontade clara de levar o concerto para um território psicadélico. O teclado Vox Continental 61, herdeiro direto daquela sonoridade de órgão associada aos The Doors, ajudava a marcar essa intenção, mesmo num formato reduzido. Também houve espaço para “My Own Man” e para uma versão de “The Times They Are A-Changin’”, de Bob Dylan.
A limitação do duo acabou por dar ao concerto uma dimensão mais intimista do que expansiva. A guitarra acústica e as vozes aproximavam as canções do público, mas também deixavam a sensação de que o palco não reproduzia totalmente o universo do álbum de estreia. Ainda assim, havia ali uma cor interessante, uma psicadelia suave, por vezes com um sabor que podia fazer lembrar o lado mais viajante dos Mutantes. Foi uma entrada discreta, mas com identidade.
Sydney Ross Mitchell e a escala possível
A seguir, Sydney Ross Mitchell ocupou o palco em trio, num formato reduzido em relação às gravações. Havia bateria, órgãos e teclados, bons músicos, e ela entre cordas e voz. A opção foi clara. Para atingir uma escala mais próxima da banda completa, o teclista tinha um computador ao lado e lançava pré-gravações, incluindo backing vocals, sopros, ambiências e até guitarras. Para o horário e para a quantidade de público, pareceu a melhor decisão. A voz é bela e a escrita traz ecos da atual geração de autoras norte-americanas, num território que pode lembrar, em pontos diferentes, Olivia Rodrigo e Ethel Cain. “Forward To The Kill” e “The Edge” deram-lhe apoio, mas o melhor momento veio com a canção dedicada ao avô, a quem chamou verdadeiro cowboy. Sendo ela do Texas, “Fast Cars and Faster Horses” ganhou ali uma ternura muito própria e acabou por ser o ponto mais forte do concerto.
Triggerfinger e a eficácia de um power trio
Com os Triggerfinger, o dia ganhou peso. O trio belga voltou a mostrar como guitarra, baixo e bateria continuam a chegar quando há som, presença e ofício. Ruben Block, de Gretsch semi-hollow em mãos, chamou o público para mais perto e resultou. A banda precisava dessa aproximação, e o recinto respondeu. Depois de já terem passado por Vilar de Mouros, regressaram com uma configuração renovada em palco, mas ainda capazes de puxar o som para um lado mais pesado sem quebrar a cadência mais respirada do dia.
A entrada com “Geronimo” colocou logo o concerto em andamento, com o trio a mostrar a tensão entre rock seco, blues sujo e elegância arranhada que sempre fez parte da sua identidade. “Colossus” veio a seguir e confirmou o que o título promete, volume, pressão e presença. Mario Goossens tem a delicadeza de um rinoceronte a atacar a presa e uma precisão que impede a coisa de se desmanchar. Um monstro. Ao baixo, Geoffrey Burton teve um papel decisivo. Não se limitou a ocupar o lugar deixado por Paul Van Bruystegem, o histórico Monsieur Paul. Deu fundação, peso e profundidade a um trio que precisa muito dessa peça para soar tão grande.
“Is It?” e “By Absence of the Sun” mostraram outro lado do repertório, sem perder a força do conjunto. Ruben Block ocupava o espaço com volume e sujidade controlada, Mario Goossens batia como se quisesse partir o palco, e Geoffrey Burton segurava tudo sem desaparecer no meio da pressão. Houve ainda tempo para Ruben Block saudar duas pessoas na plateia, a quem chamou amigos portugueses. Pequeno detalhe, boa ligação.
WAR e o groove como memória comum
Com WAR, o dia encontrou outro tipo de grandeza. Sete músicos em palco, sopros, percussão, baixo poderoso, bateria em grande plano e Leroy “Lonnie” Jordan ao centro, nos teclados e na voz, ainda com excelente afinação, humor e comando. A abertura com “Me and Baby Brother” mostrou que a banda não vinha tratar o legado como peça de museu. Ainda na primeira música já havia órgão, groove, chamada ao público e até uivos para a lua, que arrancaram risos e respostas da plateia.
O baterista Sal Rodriguez fez um solo logo depois da primeira música e recebeu aplausos fortes. Mais à frente, Rene Camacho também teve espaço para mostrar o baixo, e esse foi um dos grandes trunfos da atuação. Em WAR, o groove não vive de um instrumento só. Vive da conversa constante entre não só entre os instrumentos, mas entre os músicos. Marcos Reyes reforçava a pulsação na percussão, James Zota Baker acrescentava guitarra e vozes, e a música ganhava aquele balanço largo que não precisa de pressa para tomar conta do recinto.
“Slippin’ Into Darkness” trouxe uma das passagens mais fortes, com direito a duelo entre o saxofone de Scott Martin e a harmónica de Stanley Behrens, recebido em delírio pelo público. “Summer” manteve a elegância quente da banda, e “Why Can’t We Be Friends?” tornou-se, como seria de esperar, um momento de coro partilhado. Cantava-se no público e no palco, cada voz a assumir um pedaço da canção, como se aquela pergunta ainda soubesse atravessar o tempo.
“Low Rider” e “Spill the Wine” levaram o recinto para outro patamar. Durante a atuação deles já parecia ser o dia mais cheio do festival. Havia gente a dançar, a sorrir, a reconhecer linhas instrumentais antes mesmo de os refrões chegarem. O mais bonito em WAR foi perceber que a apresentação não dependia apenas dos clássicos. Dependia da forma como aqueles músicos ainda lhes davam vida, com espaço para solos, brincadeiras, respiração e uma alegria contagiante que se espalhou pela plateia. Música antiga no calendário, mas muito viva no recinto.
Fotos:Ricardo Rego
Ben Harper, canções para cantar devagar
Com Ben Harper & The Innocent Criminals, a noite entrou num território de reconhecimento sentimental. Ao centro do palco estavam dispostas oito guitarras, na sua maioria guitarras de slide, e Harper usou todas. O concerto começou com um canto vocal que parecia funcionar como oração antes da primeira canção, “Below Sea Level”. Foi uma entrada bonita, recolhida, que preparou a passagem para um concerto de muitas texturas.
“Jah Work” surgiu logo cedo e mostrou a banda já bem assente, antes de “Steal My Kisses” trazer um dos primeiros momentos de maior reconhecimento. Pouco depois, Ben Harper cantou a primeira parte de “Purple Rain” e a plateia acompanhou, antes de a canção se ligar a outro momento do seu repertório. Logo a seguir veio “Diamonds On The Inside”, e aí o recinto respondeu como se a música fosse de toda a gente.
“Boa Sorte”, parceria com Vanessa da Mata, teve uma receção especialmente bonita. A plateia assumiu a parte cantada pela artista e transformou a canção num dos momentos mais ternos da noite. Em Ben Harper, a emoção nunca vem aos gritos. Vem devagar, por acumulação, até se perceber que muita gente à volta está a cantar a mesma frase com a mesma memória.
A presença das guitarras no centro do palco não era apenas imagem. Era o mapa do concerto. Harper foi trocando de instrumento, mudando a cor das músicas sem precisar de grandes discursos. Ora puxava pelo lado mais quente dos Innocent Criminals, ora deixava a voz e as cordas abrirem espaço para um recolhimento maior. Essa alternância deu ao concerto uma fluidez muito própria, entre canção popular, blues, soul, folk e momentos de maior balanço.
Os Innocent Criminals deram balanço, peso e espaço, permitindo que Harper viajasse entre linguagens sem parecer que saltava de estilo em estilo. Depois de WAR, prolongou-se o calor do groove, mas levado para um lugar mais íntimo, onde o canto coletivo apareceu menos como explosão e mais como reconhecimento partilhado.
Fotos:Ricardo Rego
KALEO e o blues rock que segurou até quando conseguiu
O fecho coube aos KALEO, e a noite arrefeceu em mais do que no clima. A banda islandesa trouxe blues rock seco, gaita, riffs e uma voz excelente. Jökull Júlíusson canta muito bem, com aquele dramatismo grave que explica boa parte do apelo da banda. A abertura com “Broken Bones” funcionou, “Bloodline” apareceu cedo, e pelo meio ainda passaram “I Can’t Go On Without You” e “Hot Blood”. A fórmula era boa.
O problema não esteve na execução, esteve na sensação de que, depois de WAR e Ben Harper, o concerto soava demasiado arrumado dentro de um blues rock já reconhecível. Havia momentos de impacto, mas também longos trechos em que a atuação parecia fundo musical para casais apaixonados, mais atmosfera do que acontecimento. Muito público começou a sair a meio, sinal claro de que a ligação ao recinto não se segurou por inteiro.
“Way Down We Go” tinha naturalmente peso de reconhecimento, mas nem isso bastou para alterar totalmente a perceção da noite. Os KALEO têm voz, bom som e canções para um palco grande, mas em Vilar de Mouros vieram depois de dois concertos muito difíceis de suceder. O blues rock deixou boa impressão em momentos isolados, mas faltou chama para fechar o dia com a força que o alinhamento prometia.
A sexta-feira acabou por funcionar melhor nos momentos em que deixou as canções e os músicos respirarem. O sol com que o dia começou parecia pedir precisamente isso, menos urgência e mais tempo. WAR deram-lhe dança, Ben Harper deu-lhe memória cantada e, mesmo com um fecho menos convincente, o quarto dia encontrou uma identidade própria. Foi mais tranquilo, sim, mas teve música suficiente para não ser apenas intervalo entre noites maiores.
Fotos:Ricardo Rego