A terceira noite do CA Vilar de Mouros 2026 foi, até agora, a mais forte do festival, numa viagem pelas guitarras britânicas que foi do indie em afirmação ao psicadelismo dos Kula Shaker, passando pela força dos The Lathums e pelos grandes refrões de Kaiser Chiefs e Kasabian. Uma noite de rock, eletrónica, hinos de multidão e grandes momentos de palco, com os Kula Shaker a assinarem o concerto mais especial.
O dia 20 de Agosto em Vilar de Mouros teve progressão, partindo de bandas novas ainda à procura de espaço, passando por uma atuação surpreendente dos The Lathums, atingindo um ponto altíssimo com a estreia portuguesa dos Kula Shaker e fechando com Kaiser Chiefs e Kasabian, duas máquinas britânicas de palco grande. Foi um dia muito britânico no som, na atitude e na relação com o público, mas longe de ser uniforme. Houve indie de garagem, rock em estado puro, psicadelismo espiritual, hinos de festival e eletrónica de estádio.
A nova vaga britânica para abrir
Os The Covasettes, banda de Manchester, abriram o dia com boa desenvoltura em palco. O concerto já ia adiantado quando foi possível chegar junto ao palco, por isso não vale a pena fechar demasiadas conclusões. Ainda assim, deu para perceber uma banda com andamento, melodia fácil e uma formação de cinco elementos, onde se destacava também a presença de uma musicista entre teclados, violino e guitarra. O álbum de estreia, Honeymoon Forever, saiu recentemente, e isso ajuda a explicar a sensação de banda em fase de afirmação. A passagem por “Bitter Sweet Symphony”, dos The Verve, e o fecho com “Be Mine” deixaram uma imagem simpática de abertura, curta na análise, mas eficaz no lugar que ocupou.
Os The Lilacs, vindos de Wigan, entraram depois com um indie britânico ainda verde, daqueles que parecem feitos para pubs cheios e guitarras a pedir resposta rápida. A banda prepara o álbum de estreia, “Keeping Up With The Joneses”, anunciado para dia dois de outubro, e essa condição de grupo emergente esteve visível em vários detalhes. Havia bons refrões, boa voz de Ollie Anglesea e backing vocals afinados, mas também alguma ansiedade no modo como lidavam com um público ainda pequeno. Quem já teve banda sabe que isso pesa. Em alguns momentos, notou-se que o vocalista esperava outra resposta. Gesticulava discretamente para os colegas. Decidiu descer a passarela como se quisesse perceber melhor o som que chegava ao público e, ao ouvir as colunas de frente, pareceu surpreendido com a dimensão e qualidade daquilo que saía do sistema. Curiosamente, voltou mais animado ao palco. O concerto melhorou do meio para o fim, com “Grace”, “Sticky Dancefloors” e “Vicarage Road” a deixarem boa impressão. Ainda assim, houve sinais de excesso de escola, como se a banda soubesse cumprir demasiado bem uma cartilha indie sem encontrar ainda um traço próprio suficientemente forte.
The Lathums e o momento em que o dia subiu de nível
Às 19h45, pontualmente, um técnico atravessou o palco e sinalizou que estava tudo pronto. Logo depois, “Caravan of Love”, dos The Housemartins, saiu pelo sistema de som. A escolha já dizia alguma coisa. Era uma entrada bonita, luminosa, e preparou bem a chegada dos The Lathums, que começaram com “Say My Name”. À frente do palco, o público ainda era reduzido, mas isso mudou ao longo do concerto. A meio da atuação, já era difícil circular junto às primeiras filas.
A banda de Wigan pode ser apresentada como indie, mas ao vivo toca com força de rock. O som começou com médios demasiado salientes, deixando a bateria gritante, mas foi rapidamente ajustado. A partir da segunda música, tudo entrou no sítio. E quando o som assentou, a qualidade da banda tornou-se evidente. Alex Moore tem uma voz especialmente afinada, daquelas que parecem frágeis até se perceber a firmeza com que conduzem as canções. O conjunto vocal funcionou lindamente, e a banda cresceu sem precisar de gestos exagerados.
No baixo estava Charlie Salt, dos Blossoms, e a presença dele ajudou a segurar uma base muito sólida. Mas o grande destaque instrumental foi a guitarra. Scott Concepcion tocou com uma segurança e uma expressividade que davam outra dimensão às músicas, sem transformar o concerto em demonstração técnica. Para quem conhecia a banda e estava ali por eles, foi um deleite. Para muitos outros, terá sido uma surpresa clara. Os The Lathums foram o momento em que o dia deixou de aquecer e começou realmente a justificar entusiasmo.
Kula Shaker, demasiado grandes para a prateleira do britpop
Quando os Kula Shaker entraram, percebeu-se que havia ali uma comunidade de fãs à espera deles há anos. Não era o público curioso de festival, nem apenas a nostalgia de quem se lembrava de uma ou duas canções dos anos 90. À volta, havia gente que cantava tudo, que reconhecia as introduções antes de elas abrirem por completo, que reagia aos detalhes como quem finalmente via chegar a Portugal uma banda que, por alguma razão difícil de explicar, ficou tempo demais fora do nosso circuito.
O palco já anunciava que aquele não seria apenas mais um concerto de guitarras britânicas. Aqueles adornos de estética hippie, zen e psicadélica podiam parecer excesso noutra banda, mas nos Kula Shaker faziam sentido. Não estavam ali para decorar, estavam ali porque a música deles sempre viveu nesse cruzamento entre rock britânico, espiritualidade, psicadelismo e fascínio pela música indiana. É por isso que metê-los simplesmente na gaveta do britpop sempre pareceu pouco. Os Kula Shaker foram contemporâneos desse movimento, mas nunca couberam bem dentro dele.
Os Kula Shaker foram contemporâneos desse movimento, mas nunca couberam bem dentro dele.
Depois de uma breve introdução, “Hey Dude” abriu o concerto com autoridade. A banda entrou direta, com som cheio, guitarras abertas e uma confiança que afastou qualquer hipótese de concerto meramente nostálgico. A presença de Triparna Mukherjee, logo numa fase inicial da atuação, trouxe o canto lírico indiano em hindi para o centro da noite, e o recinto respondeu com entusiasmo. Não parecia um acrescento exótico nem uma ilustração daquilo que a banda já foi. Parecia parte da própria arquitetura do concerto.
“Shower Your Love” foi um dos momentos mais bonitos do festival. Melódica, ampla, emocionante, daquelas canções que ao vivo deixam de ser apenas memória pessoal e passam a ocupar fisicamente o espaço. A delicadeza contrastava com o peso das guitarras sem nunca o contrariar, e a canção atravessou o recinto com muita gente à volta a cantá-la como se estivesse a guardar aquele momento há demasiado tempo.
Os Kula Shaker mostraram história, criatividade, entrega e uma identidade incomum.
“Good Money”, do recém-lançado Wormslayer, mostrou que os Kula Shaker não vivem apenas da aura acumulada. A canção trouxe balanço, nervo e presença, sem soar como corpo estranho no meio do repertório mais antigo. O mesmo se pode dizer de “Natural Magick”, do álbum homónimo de 2024, que encaixou com naturalidade nessa linguagem própria da banda, entre groove psicadélico, canto coletivo e uma euforia espiritual que nunca soa domesticada. O passado estava ali, claro, mas não vinha sozinho.
Quando “Tattva” surgiu, percebeu-se que a reta final tinha mudado de escala. A canção mantém intacto o equilíbrio entre mantra, riff e refrão pop, e ao vivo ganhou uma força cerimonial. Depois veio “Hush”, versão de Joe South que os Kula Shaker transformaram num dos seus cartões de visita, e o concerto ganhou uma energia mais direta, física, de clássico partilhado. “Govinda” fechou esse arco com a identidade da banda exposta por inteiro. Guitarras, cânticos, espiritualidade, psicadelismo e público a cantar como se aquela música sempre tivesse pertencido também àquele vale.
No final, a ovação não soou protocolar. Foram minutos de palmas sem cessar, daqueles que não surgem apenas por respeito a uma carreira, mas por reconhecimento de uma evidência acabada de acontecer. Para mim, foi o melhor concerto do festival até agora. Os Kula Shaker mostraram história, criatividade, entrega e uma identidade incomum. E deixaram uma pergunta inevitável: como é possível que uma banda com esta dimensão ao vivo tenha demorado tanto tempo a tocar em Portugal e continue tão ausente dos nossos palcos?
Fotos:Ricardo Rego
Kaiser Chiefs e a arte de provocar movimento
Depois de um concerto com esse peso, os Kaiser Chiefs tinham uma missão difícil. Resolveram-na com aquilo que melhor sabem fazer: transformar palco grande em ginásio emocional. Pouco antes de começarem uma das músicas, os fotógrafos subiram ao palco e o guitarrista pareceu estranhar a situação. Quando desciam, Ricky Wilson, bem-humorado, brincou com o momento e esperou que todos saíssem para retomar o concerto. Pequeno detalhe, grande demonstração de domínio.
O repertório seguiu uma lógica próxima da recente passagem pelo Rock in Rio Lisboa, onde Ricky Wilson também já tinha transformado a atuação num exercício físico e cénico, chegando a subir estruturas junto à régie. Em Vilar de Mouros, voltou a puxar um “um, dois, três, quatro” em português, correu, comandou e levou a plateia atrás. Kaiser Chiefs continuam a ser uma banda visceral, muito mais física do que a memória dos seus refrões pode sugerir.
“Everyday I Love You Less and Less” trouxe a primeira catarse, “Na Na Na Na Naa” confirmou o lado mais imediato, “Ruby” foi, como sempre, uma explosão de reconhecimento, e “Hole in My Soul” surgiu lindíssima, cantada em conjunto pelo público. Em “I Predict a Riot”, Ricky Wilson voltou a subir ao alto da régie e cantou parte da música lá de cima, levando a plateia ao delírio. Depois veio “The Angry Mob”, e ainda houve espaço para “Blitzkrieg Bop”, dos Ramones, com o inevitável “hey ho, let’s go” a fazer o recinto responder sem hesitação.
O final com “Oh My God” confirmou que os Kaiser Chiefs continuam a dominar como poucas bandas a mecânica do refrão coletivo. Podia ser apenas previsível. Não foi. Quando uma banda sabe exatamente onde está a força das suas canções e tem um vocalista que se entrega daquela forma, a previsibilidade vira arma.
Fotos:Ricardo Rego
Kasabian e a máquina de fecho
O encerramento do terceito dia de festival ficou para Kasabian, o concerto mais apelativo da noite para grande parte do público. Havia claramente muita gente à espera deles, e a banda respondeu com uma atuação forte, assente nessa combinação de rock, eletrónica, batida de rave e refrões de estádio que sempre fez parte da sua identidade. Desde a saída de Tom Meighan, em 2020, Sergio Pizzorno assumiu a voz principal e a frente de palco, e, em Vilar de Mouros, na primeira passagem portuguesa desde então, confirmou que essa transição já não parece uma adaptação. Parece a forma atual da banda.
A música é construída para o movimento. Baixo, bateria, guitarras e eletrónica juntam-se numa engrenagem que raramente dá descanso ao público.
“Club Foot” abriu o concerto com impacto imediato, antes de “Call” e “Hippie Sunshine” mostrarem a fase mais recente. Depois vieram “Underdog”, “Days Are Forgotten”, “Shoot the Runner” e “Empire”, numa sequência que explicou porque os Kasabian continuam a funcionar tão bem em festival. A música é construída para o movimento. Baixo, bateria, guitarras e eletrónica juntam-se numa engrenagem que raramente dá descanso ao público.
Sergio Pizzorno esteve muito bem. Não tenta ser Tom Meighan, e isso é talvez o melhor elogio que se lhe pode fazer. Tem outra energia, mais elástica, mais dançável, por vezes mais ligada ao comando rítmico do que ao velho modelo do frontman rock. “SUPERPOWERS”, “treat”, “Vlad the Impaler”, “Release the Pressure” e “NOTHING BETTER THAN THIS” mantiveram a tensão antes do encore com “L.S.F. (Lost Souls Forever)” e “Fire”. O final foi exatamente aquilo que se esperava de um cabeça de cartaz deste perfil: braços no ar, refrões enormes e a sensação de que a noite fechava no ponto certo.
O terceiro dia de Vilar de Mouros foi o mais completo até agora. The Covasettes abriram com leveza, The Lilacs mostraram potencial ainda em construção, The Lathums elevaram o nível, Kula Shaker deram o concerto mais especial da noite, Kaiser Chiefs incendiaram o recinto com uma entrega física impressionante e Kasabian fecharam como máquina de festival. Foi um dia de guitarras britânicas, sim, mas também de identidade, história, psicadelismo, refrões e prova de palco.
Fotos:Ricardo Rego