O segundo dia do CA Vilar de Mouros 2026 teve uma lógica mais contínua do que o arranque do festival.
Depois de uma primeira noite marcada por saltos entre universos muito diferentes, esta quarta-feira avançou sobre um eixo mais claro, feito de punk, ska, rock, sopros, humor, guitarras e comunhão. Foi uma noite para mexer o corpo, cantar refrões e lembrar que, às vezes, basta uma sequência de bandas com ofício e vontade de puxar pelo público.
Punk direto para abrir
Grade 2 abriram o dia com mais público do que a primeira banda da véspera e mostraram logo uma atitude punk sem enfeites. O trio britânico funciona como power trio, mas com a particularidade dos três elementos assumirem vozes enquanto seguram os respetivos instrumentos. O som é direto, de raiz, e a competência da banda percebeu-se mesmo num horário ainda ingrato. Passaram por temas como “Do You Wanna Dance”, versão do clássico de Bobby Freeman, “Cut Throat” e terminaram com “Under the Streetlight”. Houve agradecimento a Portugal, resposta de alguns fãs nas primeiras filas e, nas duas últimas músicas, até circle pit. Grade 2 não foram apenas uma descoberta lançada no início da tarde. Havia quem os conhecesse, cantasse e estivesse ali por eles. E, sim, viam-se algumas camisolas deles no recinto.
Fishbone e o caos bem-humorado
Com Fishbone, o dia seguiu para outra dimensão. A passagem de som decorreu à vista do público cerca de quinze minutos antes do início, à moda antiga, como se a banda começasse a aquecer o recinto antes do concerto propriamente dito. Em palco, Angelo Moore na voz e saxofone, Christopher Dowd nos teclados, trombone e voz, James Jones no baixo, Hassan Hurd na bateria, John “JS” Williams II no trompete e voz, e Tracey “Spacey T” Singleton na guitarra construíram uma mistura difícil de prender a uma etiqueta só. A música juntava ska, funk, punk, soul, rock, humor e caos controlado.
Angelo Moore foi o centro mais visível, performático, enérgico e com grande voz. John “JS” Williams II e Christopher Dowd também cantavam, e este último percorria o palco com o trombone, tornando-se uma das figuras mais divertidas do espetáculo. No fim das músicas, atirava o trombone para o ar na direção do roadie, sempre preparado e com bons reflexos, arrancando risadas ao público. A entrada de Cheyenne Starr, filha de Angelo Moore, também conhecida como Whoop-DEe-Doo, acrescentou outra camada ao concerto. Com ela em palco, a banda formou um quarteto de sopros que ampliou ainda mais a festa. Houve um breve problema técnico, tratado com humor, e algum ruído no PA, percetível apenas quando a banda ficava totalmente em silêncio. Nada disso comprometeu o essencial. Fishbone deram um concerto divertidíssimo, com momentos fortes em “Everyday Sunshine”, “Ma and Pa”, “Cubicle” e “Sunless Saturday”. No final desta última, pareciam indecisos sobre sair, até Angelo Moore lembrar que ainda havia sete minutos. O público pediu mais, e a banda voltou para uma última descarga.
Less Than Jake, ska-punk em modo festa
A seguir, Less Than Jake entraram ao som da música de Star Wars, assumindo desde logo o lado lúdico da proposta. A banda de Gainesville, Florida, formada em 1992, apresentou-se com Chris DeMakes na guitarra e voz, Roger Lima no baixo e voz, Buddy Schaub no trombone, Peter “JR” Wasilewski no saxofone e Matt Yonker na bateria. Cinco músicos em palco, uma dupla de sopros bem oleada e um ska-punk honesto, profissional e feito para a participação.
Roger Lima, brasileiro, brincou fingindo falar português com dificuldade, antes de revelar, em bom português, que os Less Than Jake não tocavam em Portugal há 27 anos, desde 1999… no entanto, esqueceu-se que a banda actuou em 2019 na Sala Tejo. Por duas músicas, entrou ainda em palco um dançarino de macacão vermelho com a logo da banda e máscara de esqueleto, reforçando o lado meio carnavalesco da atuação. Entre piadas com o público e brincadeiras com o segurança “003”, a banda manteve sempre o concerto em movimento. Foi também o momento em que a claridade começou a dar lugar à noite, e isso mudou o ambiente. O público cresceu, ficou mais participativo e respondeu melhor aos refrões. “All My Best Friends Are Metalheads” foi um dos pontos reconhecíveis, e o fecho foi com “Gainesville Rock City”. Os Less Than Jake precisam de voltar mais vezes.
Fotos:Ricardo Rego
Ugly Kid Joe e o hard rock em grande forma
Com Ugly Kid Joe, o segundo dia ganhou peso de hard rock clássico, força instrumental e uma inesperada sensação de grande concerto. A banda começou com “Neighbor” e mostrou que não estava ali apenas para cumprir nostalgia. Whitfield Crane na voz, Klaus Eichstadt na guitarra solo e backing vocals, Dave Fortman na guitarra rítmica e backing vocals, Cordell Crockett no baixo e backing vocals, e Cam Greenwood na bateria formaram um conjunto de enorme segurança. Os guitarristas entregaram solos de excelência, enquanto baixo e bateria seguraram uma base entrosada e poderosa.
Whitfield Crane continua a cantar como se os últimos trinta anos não tivessem passado pela voz. Essa foi talvez a maior surpresa da atuação. A presença permanece solta, carismática, e a banda acompanha-o com segurança impressionante. Cam Greenwood, apresentado como “máquina” por Crane, fez jus à alcunha e elevou ainda mais o som, além de contribuir com backing vocals precisos.
“Cats in the Cradle” foi recebida com suspiros, aplausos fortes e vozes em coro. Também passaram por “I’m Alright” e “Milkman’s Son”, antes de chamarem Angelo Moore e Christopher Dowd, dos Fishbone, ao palco para “Love Ain’t True”. A participação especial esbanjou carisma, e Dowd voltou a atirar o trombone aos céus, com o fiel roadie pronto para o apanhar. A homenagem a Motörhead veio com “Ace of Spades”, acompanhada pela exibição da camisola que Crane vestia, e o fecho com “Everything About You” confirmou o entusiasmo. Até esse momento, foi possivelmente o melhor concerto do festival.
Fotos:Ricardo Rego
The Hives, teatro e precisão
Depois vieram The Hives, e a noite entrou num território de espetáculo puro. Logo na primeira música, “Enough Is Enough”, houve um problema curioso. O som parecia sair apenas no palco, até alguém na mesa se lembrar de abrir os canais das colunas. O contratempo foi breve, mas marcou o arranque. A partir daí, a banda sueca fez o que sabe fazer melhor, transformando garage rock em concerto de arena.
Howlin’ Pelle Almqvist falou português, comandou a plateia e conduziu o concerto êxito atrás de êxito. Até quando a banda parou como estátua durante alguns segundos, a plateia reagiu com aplausos, assobios e cânticos de “olé, olé, Hives, Hives”. Poucas bandas sabem usar o silêncio e a pose com tanta eficácia. Nos The Hives, até a pausa vira espetáculo. A catarse chegou em “Hate to Say I Told You So”, com o público em modo de explosão. “Come On!”, “Tick Tick Boom”, momento também usado para a apresentação da banda, e “Legalize Living” mantiveram a intensidade antes do fecho com “The Hives Forever Forever The Hives”. Foi um concerto fiel aos moldes dos The Hives, com fatos, suor, humor e riffs milimétricos.
Fotos:Ricardo Rego
Dropkick Murphys, política, homenagens e coro coletivo
Dezasseis anos depois da última passagem por Portugal, o encerramento coube aos Dropkick Murphys. E aí a palavra certa voltou a ser comunhão. A introdução na gaita de foles preparou o terreno, e “The Boys Are Back” começou para delírio de um público que parecia estar ali especialmente pelos Dropkick Murphys. A noite entrava num território de punk celta, energia, coros e uma identidade visual e sonora muito próprias. A partir daí, o concerto avançou entre banjo, acordeão, guitarras e refrões desenhados para serem cantados de braço no ar. Houve festa direta, como em “Out of Our Heads”, mas também discurso político. Antes de “First Class Loser”, a banda pediu desculpa em nome dos EUA e apontou a Donald Trump, enquanto no ecrã surgiam imagens de vários momentos constrangedores do presidente norte-americano. Mais tarde, “Citizen I.C.E.” reforçou essa dimensão crítica. Nos Dropkick Murphys, música e política continuam a ocupar o mesmo palco.
Também houve homenagem a Shane MacGowan, dos The Pogues, com “The Body of an American”, num dos momentos mais emocionais do concerto. O público respondeu como se aquele repertório lhe pertencesse há muito. Dançou-se, cantou-se e, no final, a bandeira de Portugal apareceu no ecrã com um agradecimento que pareceu encerrar a noite. Algumas pessoas já saíam quando a banda regressou para o encore com “I’m Shipping Up to Boston”. Houve espaço para dança irlandesa na plateia e mais uma despedida, com “Step Down”, dos Sick of It All. Novo agradecimento, nova sensação de fim, mas ainda havia mais. A banda voltou para um segundo encore com a emocionante “You’ll Never Walk Alone”. Foi difícil perceber onde acabava a banda e começava o público.
O segundo dia de Vilar de Mouros terminou em festa, como prometia desde cedo. Foi uma noite menos irregular do que a primeira, talvez menos inesperada, mas muito eficaz naquilo que procurava: fazer do vale um lugar de guitarras, metais, refrões, política, suor e gente a cantar junta.
Fotos:Ricardo Rego