Lesionado, de muletas e com uma perna limitada, YUNGBLUD recusou deixar a condição física travar o fecho do primeiro dia de Vilar de Mouros. Entre saltos numa só perna e uma plateia completamente rendida, transformou a limitação em parte do espetáculo e entregou um concerto curto, mas com atitude de sobra.
A imagem já circulava antes do concerto. YUNGBLUD de muletas, a perna lesionada, a garantir nas redes que viria a Portugal mesmo assim. A partir daí, o fecho do primeiro dia do CA Vilar de Mouros ganhou uma tensão própria. Não era apenas perceber se cumpriria a data. Era perceber como um artista tão físico, tão dependente da explosão em palco e da proximidade com o público, lidaria com a obrigação de atuar limitado.
Começou cerca de vinte minutos atrasado, acompanhado por duas enfermeiras de vestido justo, como se a lesão tivesse sido absorvida pela encenação. Esperava-se talvez um concerto sentado, ou pelo menos muito condicionado. O que aconteceu foi outra coisa. YUNGBLUD abriu com “Hello Heaven, Hello”, saltando numa perna, vestido num fato que parecia emprestado de um vilão glam, apoiando-se quando precisava na caixa de retorno e mantendo-se quase sempre de pé. A limitação era visível, mas nunca comandou o espetáculo. Pelo contrário, passou a fazer parte dele!
As enfermeiras levavam-no de um lado a outro e até à frente da passarela, aproximando-o do público. Mais tarde, entraram também com uma garrafa de Jack Daniel’s, da qual ele bebeu um gole. Tudo poderia soar excessivamente encenado, no entanto a relação com a plateia era demasiado forte para que a encenação parecesse vazia. Havia muitas camisolas de YUNGBLUD espalhadas pelo recinto durante o dia, sinal antecipado de que aquela não seria apenas a atuação de um cabeça de cartaz. Seria uma comunhão.
E foi! O público cantou praticamente tudo, respondeu aos sucessivos pedidos de “mãos no ar”, ditos em português, e sustentou o concerto com uma devoção que parecia emocionar o próprio artista.
E foi! O público cantou praticamente tudo, respondeu aos sucessivos pedidos de “mãos no ar”, ditos em português, e sustentou o concerto com uma devoção que parecia emocionar o próprio artista. YUNGBLUD tem esse lado de pregador punk-pop, e em Vilar de Mouros a pose funcionou porque havia entrega real. Mesmo condicionado fisicamente, procurou a frente do palco, puxou pela multidão, olhou-a de perto e fez da limitação uma espécie de pacto com quem estava do outro lado.
A certa altura, chamou um fã ao palco e descobriu que era espanhol. Parte do público pediu um português, no entanto, YUNGBLUD resolveu a situação com naturalidade, e o rapaz acabou aplaudido. Foi um momento pequeno, mas revelador da facilidade com que o artista consegue virar uma situação potencialmente desconfortável a seu favor. Noutro ponto do concerto, apareceu até num moshpit em cadeira de rodas, imagem perfeita daquela noite de vulnerabilidade e explosão no mesmo espaço.
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Musicalmente, o concerto também teve corpo. “My Only Angel”, tema que tem em conjunto com os Aerosmith, confirmou como YUNGBLUD já se move num território onde a linguagem geracional que o trouxe até aqui começa a cruzar-se com símbolos maiores da história do rock. E os deuses do rock voltaram a ser lembrados. O momento de maior catarse chegou com “Changes”, dedicada a Ozzy Osbourne, naturalmente. A versão abriu uma zona emocional mais funda, e YUNGBLUD pareceu realmente tocado quando falou do regresso a Portugal e ouviu a resposta da plateia.
Depois, “Zombie” fechou a atuação com a sensação de missão cumprida. Foram cerca de uma hora e dez minutos, num concerto relativamente curto, mas de entrega total, em que voz, presença, encenação, repertório e ligação ao público funcionaram com intensidade nem sempre alcançavel.
YUNGBLUD não atuou apesar da lesão. Atuou com ela, contra ela e por cima dela. Em Vilar de Mouros, transformou uma limitação física numa prova de resistência e comunicação direta com o público. Ferido, sim. Diminuído, nunca!