Na MEO Arena, os Capitão Fausto assinaram um concerto que teve tanto de celebração como de afirmação.
Capitão Fausto são hoje um dos grandes nomes da música portuguesa, e isso é inegável, independentemente de gostarmos ou não da música que fazem. Em 2014, aquando do lançamento do álbum “Pesar o Sol”, entrevistávamos uns miúdos cheios de vontade de fazer música e de estar em cima de palco. Durante um dos concertos desse ano, escrevíamos: «Em “Pesar o Sol”, os Capitão Fausto podem ter bastantes semelhanças com os Boogarins, que por sua vez têm muito em comum com Tame Impala, mas é ao vivo que a banda existe por direito próprio. Ainda não são os melhores Capitão Fausto que podem existir; têm muito mais para dar. O tempo está do seu lado.»
Foi precisamente esse tempo que a banda soube aproveitar até 2026. Muitas bandas ficam pelo caminho depois de dois ou três álbuns, outras desistem dos seus sonhos, ou vêem-se confrontadas com desentendimentos internos e diferentes visões artísticas, mas os Capitão Fausto sempre se mostraram resilientes. Entre altos e baixos, entre aclamações e críticas, trilharam o seu caminho, a sua verdadeira “subida infinita”, um percurso em que só mesmo o céu parece ser o limite. Já não são os miúdos de 2014; cresceram, tornaram-se homens maduros, e a música acompanhou esse crescimento, também ela mais madura, talvez até demasiado. Mas em palco, seja ele qual for, grande ou pequeno, há algo que nunca mudou: a humildade, o prazer de estar ali, e a vontade de fazer música uns com os outros e em comunhão com o seu público.
Mas em palco, seja ele qual for, grande ou pequeno, há algo que nunca mudou: a humildade, o prazer de estar ali, e a vontade de fazer música uns com os outros e em comunhão com o público.
Antes de subir à maior sala de espetáculos portuguesa, os Capitão Fausto deram-nos também um vislumbre do futuro, ao divulgar “Escolhas”, a primeira de várias canções inéditas que a banda planeia lançar ao longo de 2026, antecipando um novo capítulo na sua discografia. Esse futuro cruzou-se, de forma simbólica, com o presente a 24 de janeiro, quando os Capitão Fausto subiram ao palco da MEO Arena para o concerto mais ambicioso da sua carreira, o maior em nome próprio até hoje, e um momento que assinala, sem margem para dúvidas, um ponto de viragem no seu caminho.
Na MEO Arena, os Capitão Fausto assinaram um concerto que teve tanto de celebração como de afirmação. A maior sala do país ficou composta para receber uma banda que já não precisa de provar nada, mas que ainda assim fez questão de mostrar porque chegou até aqui. Ao longo de cerca de duas horas, ficou clara a relação de proximidade construída com o público, uma ligação feita de canções, memória partilhada e uma energia que nunca se perdeu, mesmo nos momentos mais contidos.
O impacto visual foi imediato. Um palco amplo, bem desenhado, com um jogo de luzes eficaz e ecrãs que ajudaram a enquadrar um espetáculo pensado à escala do espaço. A surpresa de um segundo palco no meio da arena, algo que começa a ser frequente em concertos de bandas internacionais, reforçou essa ambição, aproximando ainda mais a banda do público, criando imagens bonitas, ideais para uma noite que também se quis vivida em emoção.
O alinhamento percorreu várias fases da discografia, cruzando temas mais antigos com canções recentes, sempre com uma fluidez natural. De “Gazela” surgiram “Teresa” e “Santa Ana“, de “Pesar o Sol” ouviram-se temas como “Maneiras Más” e “Lameira”, de “Capitão Fausto Têm os Dias Contados” destacaram-se “Os Dias Contados”, “Corazón”, “Amanhã Tou Melhor”. De “A Invenção do Dia Claro” foram buscar canções como “Amor, a Nossa Vida”, “Lentamente” e “Faço as Vontades”, enquanto “Subida Infinita” marcou presença com “Na Na Nada”, “Nada de Mal”, “Há Sempre um Fardo” e “Cantiga Infinita”. Ouvimos também “Nuvem Negra”, a canção de despedida ao teclista Francisco Ferreira que deixou a banda em 2024.
Todo o percurso revelou uma banda confortável com o seu passado e confiante no presente, sem nostalgia excessiva nem pressa em chegar ao fim.
A resposta do público foi constante. Cantou, dançou, iluminou a sala com a luz de telemóveis e segurou Tomás Wallenstein num crowdsurf, com o ainda Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, a assistir de pé a tudo na primeira fila. Houve espaço para agradecimentos sentidos, para referências ao caminho feito e para momentos de partilha que reforçaram a ideia de que esta noite não foi apenas mais um concerto, mas um ponto alto numa trajetória longa e consistente.
Mais do que um espetáculo tecnicamente bem executado e certinho, e isso não é surpresa, já que cada um dos músicos é exímio na sua função, ficou a sensação de uma banda em plena maturidade artística, capaz de ocupar a MEO Arena sem perder a espontaneidade que sempre os caracterizou, apesar de já termos referido noutras ocasiões, que gostaríamos de ver uns Fausto mais soltos, mais fora da caixa e do quadrado de cada um. Mas isto nem sequer é uma crítica. A banda acabou por classificar esta noite como «a melhor noite na história desta banda». Entre comunhão, intensidade e imagens que ficam na memória, os Capitão Fausto transformaram esta data num marco claro do seu percurso, confirmando que a subida continua.
A despida fez-se com as pertinentes “Final” e “Nunca Nada Muda”.























