Um dos grandes destaques da edição de 2026 do Coala Festival foi a presença de Caetano Veloso, no que poderá ter sido o seu último concerto em Portugal.
São 22h35 do dia 30 de maio de 2026. O Hipódromo Manuel Possolo, em Cascais, está cheio até onde a vista alcança. Milhares de pessoas espalham-se pelo relvado.
Caetano Veloso chega ao palco a passo de caracol. Camisa vermelha. Calças verde-tropa. Nada de brilhantes, nada de adereços extravagantes, nada da grandiosidade cénica que costuma acompanhar as despedidas. Apenas um homem a caminhar, sem pressa, com a serenidade de quem já não tem nada a demonstrar e, justamente por isso, continua a ter tudo para dizer.
Ninguém o apressa. Ninguém ousaria. Toda a gente ali está por uma única razão, e essa razão caminha em direção a um microfone com a cadência de quem sabe exatamente o peso do que carrega. E a noite começa.
Aos 83 anos, Caetano Veloso já não precisa de provar rigorosamente nada. As canções fizeram esse trabalho há décadas. Figura central da música brasileira desde os anos 60, foi um dos rostos do Tropicalismo, ajudando a reinventar a música popular ao misturar tradição, vanguarda, política e cultura pop numa fórmula que mudou para sempre o panorama cultural do Brasil. Ao longo de mais de seis décadas de carreira, escreveu algumas das canções mais marcantes da língua portuguesa, atravessou gerações, reinventou-se inúmeras vezes e tornou-se uma referência muito para lá das fronteiras brasileiras. Cantor e compositor, construiu uma obra tão vasta que é quase impossível encontrar um único Brasil dentro dela. Há samba, rock, bossa nova, música experimental, canções de intervenção e tudo o que existe entre esses mundos.
A meio do concerto, as luzes apagam-se de repente. Sem avisos ou contagem decrescente. E depois voltam a acender-se. Mas em azul. A cor exata do Atlântico que separa Portugal e Brasil. É nesse azul, antes de qualquer silhueta surgir no palco, que se ouve uma voz.
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“Às vezes no silêncio da noite…” Pessoas que estavam imóveis começam a gritar. Pessoas que não se conhecem agarram-se umas às outras. Os brasileiros, presentes em número impressionante, reconhecem a canção ao primeiro sopro de voz. Nem sequer precisam do refrão. Bastam seis palavras. “O Leãozinho” chega a meio da noite. A canção começa devagar, quase com timidez, como se testasse o chão antes de pousar. «A canção foi escrita para um amigo», conta Caetano. Nesta noite, em Cascais, transforma-se também numa homenagem involuntária a tudo o que fica para trás quando se muda de país e à impossibilidade de alguma vez abandonar verdadeiramente o lugar de onde se veio.
Mais tarde, o palco volta a mudar de cor. Vermelho, verde e branco. As cores da bandeira portuguesa caem sobre Caetano e ele deixa o silêncio instalar-se antes de falar. Informa que vai cantar um fado. O primeiro que ouviu. O primeiro que cantou.
“Quando ela passa, franzina cheia de graça.” Qualquer um presente naquele recinto se sente privilegiado em ouvir estas palavras naquela voz, naquela noite, sob aquelas cores. Caetano trata o fado com a mesma seriedade absoluta com que trata tudo o que toca. Quando a última nota desaparece, o aplauso demora.
E depois chega “Cajuína”. A história por detrás da canção não é simples. Fala da morte de Torquato Neto, poeta e companheiro de geração no Tropicalismo, que se suicidou em 1972. Anos depois, Caetano encontrou-se com o pai dele numa cidade do Nordeste brasileiro e conversaram. Até que o homem se levantou e regressou com uma garrafa de cajuína e uma rosa colhida no jardim.
Mais nada. E, de alguma forma, tudo estava contido nesse gesto.
A determinada altura, Caetano deixa escapar uma frase: «Esta deve ser a minha última vez em Portugal.» Não há dramatização, nem anúncio formal. Não há sequer certeza. Será mesmo a última vez? Ninguém sabe. Talvez nem ele.
Quando termina, termina como começou. O homem de camisa vermelha abandona o palco a passo de caracol. Tudo a seu tempo. Talvez tenha sido uma despedida. Um último encontro, um último refrão partilhado. Mas a memória ficará intacta. A memória de quando tivemos a oportunidade de ouvir Caetano Veloso, no silêncio da noite.
(c) Paulo Miranda