António Zambujo apresentou o seu novo álbum “Oração ao Tempo” nos Coliseus.
16 de Abril. Coliseu de Lisboa cheio para ouvir as novas canções de António Zambujo. Entrou em palco como um senhor entra no café da esquina, pronto para ler o jornal da manhã. Sem pressas. Sem cerimónias.
«Boa noite!» – disse ele. Sentou-se na cadeira, pegou na sua guitarra e começou. Sem ecrãs gigantes, coreografias ensaiadas ou luzes chamativas. A voz de António Zambujo já era o próprio espetáculo.
O Coliseu parecia uma sala de estar à espera de visitas. As luzes ainda acesas, o murmúrio das conversas espalhado pelas cadeiras vermelhas, os casacos pousados nos braços do assento. Mas bastou o primeiro acorde de “Pequenos Prazeres” para a azáfama desaparecer.
“Ter-te ao meu lado de dia
Ter-te à noite só p’ra mim
Reparar como és bonita”
No instante em que a música terminou, os aplausos ergueram-se pela sala. E o concerto prosseguiu. A primeira parte da atuação foi dedicada aos temas do novo álbum, “Oração sem Tempo”. Entre músicas, Zambujo brincava com o público, ria-se, fazia comentários espontâneos, contava pequenas histórias. E talvez tenha sido isso que tornou a noite tão especial: ninguém sentia que estava apenas a assistir a um concerto. Sentia-se convidado para dentro da intimidade dele.
Houve também espaço para a gratidão e os elogios. Num dos momentos mais bonitos da noite, Zambujo falou de Carolina Deslandes, deixando escapar uma admiração genuína: «Quero chegar aos calcanhares do talento dela.» E, mais tarde, agradeceu também ao escritor José Eduardo Agualusa, que o ajudou na composição de muitas das músicas deste novo trabalho. «Muito obrigado pelas tuas palavras que tanto me inspiram.»
Ao longo da noite ouviram-se alguns dos temas mais acarinhados do público, “Pica do 7”, “Flagrante”, “Lote B” ou “Zorro”, músicas que o Coliseu cantava por dentro, quando as vozes quase não se atreviam a acompanhar. As pessoas conheciam cada sílaba das canções que ouviam. Queriam cantar, mas hesitavam. Como se interromper aquela voz, nem que fosse por segundos, fosse fazer com que perdessem algum detalhe. Ali, sim, apenas admiravam a arte que estava diante dos seus olhos (e ouvidos).
A noite terminou com “Sinal da Cruz”, música da autoria de Ferrer Trindade e Max, mas que António Zambujo já havia interpretado com Yamandu Costa. Sem grandes despedidas prolongadas, o concerto encerrou da mesma forma como começou: simples, próximo e centrado na música. E, naquela sala de estar já cheia de visitas, que bom foi ser uma, durante aquela hora e meia.