A tour europeia de Maro de apresentação de “So Much Has Changed” chegou, finalmente, aos Coliseus.
Coliseu dos Recreios, 26 de Março, Coliseu Porto Ageas, 28 de Março, a nova digressão de MARO, construída em torno de “So Much Has Changed”, chegou a estas duas salas como um ponto de viragem claro no percurso da artista. Não apenas pela dimensão das salas, mas pelo momento que atravessa, entre a consolidação internacional e uma linguagem cada vez mais definida.
Quando se fala de MARO, seja entre amigos, colegas ou nos comentários online, surgem quase sempre duas posições. Há quem valorize a sua voz como algo verdadeiramente singular, e há quem, mesmo reconhecendo a qualidade das canções, a considere demasiado monótona e aborrecida. Até conseguimos perceber de onde vem esse sentimento de «aborrecimento», mas ao vivo, e com banda, um concerto de MARO é tudo menos aborrecido.
O início da noite do concerto esgotado em Lisboa fez-se com Manuel Rocha, Carbeau e Pedro Altério, músicos que compõem a banda de MARO, mas que têm também eles os seus próprios projectos.
Para esta nova tour, MARO construiu um alinhamento inteligente, onde cruza as canções mais recentes com temas já reconhecíveis do seu percurso. Há momentos guiados por uma batida mais dançável, como “Lifeline”, “We could be” e “chiquitinha”, da parceria vencedora com o produtor e músico Nasaya, em que o público deixa-se levar, libertando o corpo; e outros mais serenos, em que tudo abranda e se torna mais íntimo. Não há pressa de chegar a lado nenhum. Do novo álbum ouvimos temas como “I OWE IT TO YOU”, que dedica a todos os presentes no público, “SO MUCH HAS CHANGED”, que dá nome a tudo isto que estamos a presenciar, a vibrante “KISS”, “DROWN”, “FEELING SO NICE”, “I KNOW YOU KNOW” e “2 YEARS”.
O formato em banda ao vivo oferece outras dimensões e texturas às canções, sem nunca perder a delicadeza que define o seu universo. Há uma dinâmica bem desenhada ao longo do concerto, feita de contrastes que mantêm a ligação constante com a audiência. Quem acompanha MARO sabe que se rodeia de músicos de excelência, e no Coliseu, Manuel Rocha, Carbeau, Pedro Altério e Gabriel Altério funcionaram como um conjunto coeso e extremamente essencial para o equilíbrio do espetáculo.
Rebuscadas dos antecessores de “SO MUCH HAS CHANGED”, Maro traz-nos temas como “Just Wanna Forget You”, uma das suas mais belas canções, que o público acompanha como um coro afinado, algo que aconteceu ao longo de todo o espectáculo, “can you see me?” ou “We’ve Been Loving in Silence”.
Já perto do final, surge um bloco acústico que a traz de volta à essência que a deu a conhecer, só MARO e a guitarra, num registo despojado que reforça a ligação directa com quem está a ouvir. É precisamente neste formato que a sua voz distinta mais sobressai, e ouvimos temas essencialmente na língua de Camões como “Oxalá” e “Há-de Sarar”, sem deixar de fora “Saudade”. Um dos momentos mais emotivos chega com a entrada em palco de EU.CLIDES, um dos seus músicos de eleição, que a própria assume ser dos que mais tem ouvido nos últimos temos. A sala encolhe, o tempo abranda para ouvir “Em Porta Trancada” e “99” de EU.CLIDES. Este mini-concerto, dentro do concerto, termina com o regresso da banda para a bonita “love’s not to beg”.
Além de ser uma artista completa, dominando vários instrumentos para lá da voz, Mariana Secca tem um brilho muito próprio. Consegue encher uma sala apenas com um sorriso, com humildade e com espontaneidade. Há uma entrega genuína em palco, sente-se que está ali porque quer estar, porque gosta do que faz e do contacto com quem a ouve, e não apenas porque é a profissão que escolheu, algo que valorizamos cada vez mais em cima de palco. Essa relação é recíproca, há cuidado de um lado e do outro, e isso acaba por definir o ambiente do concerto.
Na voz de MARO, tudo se transforma em leveza, mesmo quando canta sobre perda, desencontros, amores e desamores, fica a sensação de que é possível transformar o que pesa em algo mais leve, em aceitação, quase como se a música ajudasse a reorganizar as coisas por dentro. Traz-nos conforto e aconchego, faz-nos acreditar que, mesmo em tempos mais pesados, tudo pode acabar por correr bem. Saímos do Coliseu dos Recreios bem mais leves, quase aliviados, com a sensação de que ainda é possível imaginar um mundo melhor.
Na voz de MARO, tudo se transforma em leveza, mesmo quando canta sobre perda, desencontros, amores e desamores, fica a sensação de que é possível transformar o que pesa em algo mais leve, em aceitação, quase como se a música ajudasse a reorganizar as coisas por dentro. Traz-nos conforto e aconchego, faz-nos acreditar que, mesmo em tempos mais pesados, tudo pode acabar por correr bem. Saímos do Coliseu dos Recreios bem mais leves, quase aliviados e com a sensação de que ainda é possível acreditar num mundo melhor.
Curiosamente, no dia a seguir ao concerto, enquanto almoçávamos num café de bairro, uma rapariga que estava sozinha, a comer uma bifana, meteu conversa. Começamos por falar sobre a crise e a especulação imobiliária em Portugal e, sem grande esforço, a conversa acabou por ir dar à música. Contou-nos que era de Barcelos, mas que vivia em Vila do Bispo, no Algarve, e que já não ia a concertos há anos, mas que tinha vindo de propósito a Lisboa para ver MARO. Não podia perder, disse, porque nos últimos anos tinha sido a artista que mais ouviu e que mais a ajudou. É também aí que se percebe o impacto destas canções. Na forma como entram na vida das pessoas e lá ficam, discretas, mas presentes, até se tornarem banda sonora de memórias e fases inteiras.
Mais do que um concerto, o que se viveu naquela noite foi o reflexo disso mesmo, uma ligação construída com tempo, agora ampliada à escala de um Coliseu esgotado.















