Melancólica, vulnerável e cómica, foi assim que Laufey se apresentou na sua estreia em Portugal. A cantautora islandesa encantou o Coliseu dos Recreios com a sua fusão de jazz pop e bossa nova num espetáculo intimista repleto de interações com o público português.
[Laufey não se deixou fotografar e por isso não apresentamos a habitual galeria]
Autêntico fenómeno pop, no sentido mais abrangente do termo e não do ponto de vista musical, Laufey é uma artista que tem vindo a trilhar o seu caminho de forma muito personalizada, um pouco à semelhança da sua conterrânea Björk. Sensivelmente vinte e quatro anos depois de Norah Jones ter lançado o multiplatinado “Come Away With Me” e de ter reintroduzido o jazz a um público mainstream, eis que Laufey segue as mesmas pisadas, mas com uma missão ligeiramente diferente. Se no caso de Jones, o álbum ressoou num público mais adulto e maduro, no caso de Laufey a sua discografia tem apelado a um público consideravelmente mais jovem, demograficamente mais próximo da Gen Z, uma geração que, ao nível do consumo de massas, pouco ou nada tinha tido contacto com o jazz.
Mas, nem tudo se deu da noite para dia. Laufey, agora com 26 anos, teve uma educação ligada à música clássica desde os quatro anos. Na Islândia estudou piano e violoncelo e aos 15 anos já fazia parte da Orquestra Sinfónica da Islândia. O primeiro reconhecimento a nível doméstico veio com a sua participação nos concursos Ísland Got Talent e The Voice Islândia, onde conseguiu atingir as marcas de finalista e semifinalista respectivamente. Após cumprir os estudos obrigatórios na sua terra natal, Laufey acabou por rumar aos EUA para estudar numa das mais conceituadas universidades de música, a Berklee College of Music, onde se licenciou na prática de violoncelo. Curiosamente, Laufey não tocou uma única vez violoncelo no concerto que deu em Lisboa.
Das covers de standards de jazz no Tik Tok em 2021 à sua estreia na televisão americana com a performance de “Like The Movies” no Jimmy Kimmel Live! em 2022, Laufey foi colecionando experiências que lhe permitiram entrar de rompante na indústria com “Everything I Know About Love” (2021), uma coletânea de momentos intimistas repletos de autenticidade e sensibilidade. O salto para LA era inevitável, e foi já na grande metrópole musical que trabalhou nos aclamados “Bewitched ” (2023) e “A Matter of Time” (2025), dois trabalhos que lhe valeram a vitória na categoria de Melhor Álbum Vocal de Pop Tradicional nos Grammys de 2024 e 2026. Agora, Laufey estreou-se finalmente em Portugal com o seu espetáculo “An Evening With Laufey”, um evento que se posiciona entre um concerto e uma tertúlia intimista onde o diálogo com o público é tão importante quanto a componente musical.


Mas, ainda o concerto não tinha começado e já se sentia na sala a energia e a ansiedade dos fãs a extravasar. Como é hábito nestes concertos, o público compôs-se na sua maioria por jovens adolescentes que transformaram toda a experiência de “An Evening With Laufey” num ritual. Desde outfits bem pensados e inspirados na estética de Laufey a bandeiras de Portugal com a cara da artista impressa, rapidamente percebemos que Laufey representa um fenómeno bem maior do que aquele conhecíamos. A espera com algum nervoso miudinho fez-se com conversas entre fãs, celebrações conjuntas que resultaram em várias salvas de palmas e luzes dos telemóveis a abanar, tudo isto ao som de standards de jazz. Após um atraso de sensivelmente quinze minutos, Laufey lá entrou em palco para provocar aquela histeria tão típica de um concerto pop, e porque não de um concerto de jazz?
Uma voz doce a ecoar por cada recanto do Coliseu causou os primeiros frissons da noite num público que, apesar de estar disposto num ambiente de clube de jazz, não se acanhou a cantar juntamente com a cantautora islandesa.
Apenas acompanhada por um quarteto de cordas e com uma cenografia minimalista, que privilegiou um jogo de luzes proveniente de vários focos ao estilo dos modelos utilizados nos estúdios de cinema de Hollywood dos anos 20 e 30, Laufey subiu ao palco com a sua figura elegante para levar-nos numa viagem pelo seu mundo encantado. Com a sua Gibson ES-355 a tiracolo começou por mergulhar-nos numa bossa nova melancólica de seu nome “Fragile”. Uma voz doce a ecoar por cada recanto do Coliseu causou os primeiros frissons da noite num público que, apesar de estar disposto num ambiente de clube de jazz, não se acanhou a cantar juntamente com a cantautora islandesa. Claro que podemos entrar aqui num debate sobre se este concerto é suposto ser experienciado de uma forma contemplativa e em silêncio ou se pode e deve ser vivido exatamente como um concerto pop, com o público a abafar, por vezes, a própria cantora. Mas, suspeitando que este foi o primeiro concerto de muitos fãs que se deslocaram ao Coliseu, vamos dar o benefício da dúvida.
«Que público lindo, numa sala linda e numa cidade linda», começou por enaltecer Laufey logo após o primeiro tema. «Originalmente não estava planeado vir a Portugal, mas recebi tantas DMs vossas. E vocês acabaram por esgotar o concerto em menos cinco minutos!», continuou a artista ao mesmo tempo que se mostrava pasmada com a receção. «Sempre que venho a cidades novas gosto de vir sozinha ou com o quarteto porque posso falar mais com vocês.» Estava assim lançado o mote para uma noite repleta de emoções e onde nos sentimos uns privilegiados por estarmos a testemunhar uma artista em plena ascensão.
Das palmas a compasso de “Lover Girl” à coreografia com as luzes dos telemóveis acesas e ao singalong de “Silver Lining”, o público mostrou-se profundamente envolvido em também proporcionar a Laufey o melhor espetáculo possível. Entre músicas, declarações de amor para com a artista ecoavam na sala, por vezes com direito a resposta numa clara demonstração do carinho que Laufey também sente pelos seus admiradores.
O calor humano que a artista revela nas suas performances também transparece nas suas composições. No caso de “Falling Behind”, onde surgiu com uma Gibson J-200, Laufey levou-nos do frio da Islândia para o clima tropical do Brasil. Não só através deste tema, mas um pouco por todo o seu repertório, nota-se que estudou nomes como Tom Jobim e João Gilberto. A bossa nova faz parte do seu léxico musical, assim como o jazz vocal dos anos 50 e 60, que surgiu em momentos de maior delicadeza ao piano como foi o caso de “Valentine” e “Too Little, Too Late”.
Sensivelmente a meio do concerto, Laufey tirou um momento para elogiar os oufits dos fãs e decidiu, com a ajuda da sua mascote, o coelho Mei Mei, coroar o fã mais bem vestido. Este foi um momento simbólico, mas certamente inesquecível para o jovem Martim que acabou por ser o feliz contemplado.
Nada nos seus concertos é apressado. Aliás, o facto de tudo o que ouvimos em palco ter sido tocado ao vivo, sem recurso a qualquer tipo de backing track, também contribuiu para essa sensação de tranquilidade e de um concerto que decorreu sem números automatizados.
Após “Let You Break My Heart Again”, “Snow White” foi apresentada como a música mais vulnerável do álbum. De seguida os apontamentos em islandês de “Forget-Me-Not” converteram-se na provocação de “Mr. Eclectic”. Laufey move-se por vários registos com uma leveza relaxante. Nada nos seus concertos é apressado. Aliás, o facto de tudo o que ouvimos em palco ter sido tocado ao vivo, sem recurso a qualquer tipo de backing track, também contribuiu para essa sensação de tranquilidade e de um concerto que decorreu sem números automatizados.
Já na parte final do concerto “Carousel” e “Tough Luck” fizeram a ponte para o maior sucesso da curta carreira de Laufey. “From the Start”, um tema com sabor a primavera/verão, que tem tanto de cinematográfico como de praiano, pôs o Coliseu a cantar em uníssono um êxito improvável. «Portugal adoro-vos desde o início», declarou Laufey para delírio de todos os fãs.
De volta ao piano, “Promise” e “Goddess” encerraram o set principal de forma sublime numa dicotomia emocional entre a alegria e a tristeza. Já de regresso ao palco, “Letter to My 13 Year Old Self” surgiu como uma lembrança de que tudo é possivel nesta vida e que devemos continuar a lutar pelos nossos sonhos, sejam eles de que natureza forem.
Mas, Laufey estava genuinamente a ter um dos melhores concertos da sua tour e não estava preparada para abandonar o palco naquele momento. Após desdobrar-se em rasgados elogios a Lisboa, às suas gentes e, particularmente, aos pastéis de nata, deixou-se levar pela espontaneidade e decidiu tocar um inédito, sem nome, que ainda não foi lançado. Aos fãs, que se mostraram incansáveis ao longo de todo o concerto, apenas pediu uma coisa – que guardassem o telemóvel por breves instantes para disfrutarem daquele momento único. E assim o fizeram. Sentada ao piano, Laufey emocionou por uma última vez a plateia do Coliseu dos Recreios num momento que para muitos certamente se assemelhou a um sonho. Ovacionada de pé, a artista acabaria por despedir-se dos fãs com várias flores e ainda uma bandeira portuguesa com o seu rosto estampado. Se este não é o maior sinal de um público devoto e profundamente rendido ao encanto de Laufey, então qual será?



