O Coliseu de Lisboa recebeu “A Night of Mellon Collie and the Infinite Sadness Featuring Billy Corgan“, uma noite em que o icónico álbum dos Smashing Pumpkins ganhou uma nova dimensão, interpretado pela Orquestra Sinfonietta de Lisboa e pelo Coro Ricercare, com a participação especial de Billy Corgan.
A reinterpretação de música rock por uma orquestra não é novidade, assim como também não é novo o risco de estas roupagens acabarem por ser algo demasiado básico e «foleiro» (para o gosto de quem escreve estas linhas). E foi sob esse risco que se viveu o concerto do passado dia 15 de Setembro, no Coliseu dos Recreios, perante um cartaz que anunciava «uma noite de Mellon Collie and the Infinite Sadness com a participação de Billy Corgan».
Se este risco era real? Sim. É inegável que a criatividade de Billy Corgan não se esgotou com a pausa dos Smashing Pumpkins, mas também é inegável que, há mais de 25 anos, a qualidade dessa criatividade é questionável.
Se valeu a pena correr o risco de, 30 anos após o lançamento original, Billy Corgan se juntar aos concertos de orquestra e coro, “arranjados” pelo maestro James Lowe? Sim, sem dúvida.
Foi um Coliseu lotado, desde o dia em que os bilhetes foram postos à venda, que recebeu a Orquestra Sinfonietta de Lisboa, o Coro Ricercare, Billy Corgan e os quatro solistas que o têm acompanhado nesta pequena digressão europeia.
Pouco antes de o concerto começar, uma amiga perguntou-me: «Estás a ver algum piano?» Respondi que sim e sabia exactamente o porquê da pergunta. A faixa inaugural do disco começa com uma belíssima introdução de piano e foi precisamente com esse piano que o concerto começou.


Embora não tenha seguido a ordem do disco e algumas canções tenham ficado de fora, fiquei especialmente triste por a belíssima e underrated “Take Me Down”, cantada originalmente por James Iha, não ter feito parte do alinhamento. Seguiu-se “Tonight, Tonight” e, se o início da gravação original já nos remete para uma orquestra, confesso que soube especialmente bem ouvi-la inteiramente interpretada pela orquestra e pelo coro.
A esta altura, acredito que todo o Coliseu já estava entranhado naquilo que viria a ser o resto da noite, mesmo aqueles que tinham chegado a pensar que iriam assistir a um concerto de Billy Corgan com orquestra, e não a um concerto de orquestra com Billy Corgan.
Abandonando o alinhamento original do disco duplo lançado em 1995, seguiram-se “Jelly Belly” e “Galapogos”, com as linhas vocais interpretadas pelos solistas, acompanhados pelo coro. A esta altura, acredito que todo o Coliseu já estava entranhado naquilo que viria a ser o resto da noite, mesmo aqueles que tinham chegado a pensar que iriam assistir a um concerto de Billy Corgan com orquestra, e não a um concerto de orquestra com Billy Corgan.

Foi ao quinto tema que se ouviu a maior ovação da primeira parte do concerto. Discretamente e sem forçar um protagonismo maior do que o dos outros cantores, Billy Corgan entrou para cantar “Thirty Three”. E foi aí que o Coliseu começou a estranhar, felizmente sem entranhar. Dos cinco temas cantados pelo mentor dos Smashing Pumpkins (e dono da National Wrestling Alliance), este foi claramente o arranjo mais fraco e menos ambicioso de todo o alinhamento e, provavelmente, o momento menos conseguido da noite. Num registo vocal completamente diferente daquele que o arranjo pedia, Billy Corgan não foi o «cisne gracioso» que canta na letra. Temi o pior, felizmente, não se concretizou.
A noite avançava e, com um intervalo de vinte minutos entre os dois actos do concerto, Billy Corgan juntou-se à orquestra, ao coro e aos solistas em mais quatro ocasiões. Entre as suas participações, destaque para a interpretação de “Zero” como um dos momentos altos da noite, com um belíssimo e pouco previsível arranjo. Mais previsível foi talvez a roupagem dada a “1979”. Contudo, a força e o impacto desta canção em todas as gerações que a ouviram ao longo destes 31 anos fizeram com que, quando Corgan abandonou o palco, ninguém se sentisse desiludido.
Ficaram juntos no alinhamento os dois momentos mais altos da noite, uma interpretação lindíssima e delicada de “To Forgive”, com Billy Corgan nas vozes, seguida de um arrojado arranjo de “Bullet With Butterfly Wings”, com os quatro solistas em palco.

Foi com Billy e os quatro solistas que, pouco depois, o concerto terminou com mais uma versão de “Tonight, Tonight” e uma gigante ovação de pé de toda a sala. Sem uma palavra para o público (veja-se como algo positivo), Corgan e os solistas agradeceram uma última vez às dezenas de músicos e cantores antes de deixarem o palco do Coliseu.
Visualmente impactantes, foram duas horas de «melancolia e tristeza infinita» que provaram que, 30 anos depois, estas canções ainda têm muito para dizer. E aqui fica uma vénia à Orquestra Sinfonietta de Lisboa e ao Coro Ricercare, que mais uma vez mostraram a sua versatilidade e qualidade enquanto intérpretes.