Crónica | Cante: uma tradição perto de si

03/09/2026

Durante décadas, o cante alentejano foi uma coisa nossa, profundamente nossa. Vivia nas vozes das terras além Tejo, nas tabernas, nas ruas e nos encontros de família, longe dos holofotes e, sobretudo, longe da preocupação de agradar a alguém. Até que Portugal decidiu descobri-lo.

O cante alentejano apareceu em Portugal, ou pelo menos nas grandes cidades, (quase) como a aparição de Nossa Senhora aos Três Pastorinhos. A não ser entre as pessoas da própria terra, que o ouviam por amor à camisola e, provavelmente, porque não tinham grande alternativa, o cante não era propriamente algo que se ouvisse por aí.

Mas por terras além tejo, mas também não muito, depois já são demasiados camones, seja nas idas ao café, nos bancos da rua, nos grandes jantares de família ou em qualquer momento em que houvesse mais de três alentejanos juntos, havia sempre alguém com a sua guitarrinha na mão, a cantar como se fosse Santo António a pregar aos peixes.

Agora, os cânticos alentejanos decidiram dizer “Bom dia!”, ou melhor, “âi então, bom dia, compandri!” ao resto do país. E, de um dia para o outro, tornaram-se quase indispensáveis, como se Portugal tivesse finalmente descoberto aquilo que o Alentejo já sabia há décadas.

Eu, como ouvinte de praticamente qualquer estilo musical, menos aquelas rockalhadas loucas em que parece que o vocalista está a ser perseguido por um camião, nem me apercebi do crescimento deste género musical. Dei por mim a ver, em cada canto, artistas a surgir, a querer cantar cante, muito provavelmente, sem saber bem o peso dos anos de tradição que carregavam nas mãos, ou, neste caso, nas cordas vocais.

E atenção, eu gosto de cante. Gosto mesmo. Sou uma enorme fã de cante alentejano. É algo que se vive, e imagino o orgulho sentido por cada pessoa do Alentejo dentro das suas casas, a ouvir alguém cantar aquilo que sempre fez parte da sua terra.

É bonito ver uma região orgulhosa daquilo que é. É bonito ver pessoas a defenderem uma tradição que, durante tantos anos, esteve longe dos grandes palcos. É bonito, sobretudo, ver uma coisa tão “nossa” chegar a pessoas que talvez nunca tivessem parado para a ouvir. Mas será que, no meio desta popularidade toda, não estamos a perder um bocadinho daquilo que fazia o cante ser especial?

Mas até as coisas de que gostamos podem perder um bocadinho de encanto quando começam a aparecer em todo o lado. E há um ponto muito específico, mas muito importante, que ilustra bem aquilo que tento dizer: os concursos de talentos. Está tudo a correr lindamente até aparecer uma alminha do Alentejo com os seus quarenta amigos e cinquenta e oito membros da família, todos vestidos de igual a apoiar.

E aí acabou-se. O amor pela terra, pelo património, pela tradição, o famoso “orgulho em teres trazido algo tão especial para este palco” vai sempre sobressair a qualquer Ariana Grande ou música dos Queen cantada por alguém com experiência profissional, que passou os últimos dez anos a tentar desesperadamente iniciar uma carreira num desses programas. Mesmo que não seja escolha de qualquer mentor ou júri que lá estejam, os quarenta amigos e cinquenta e oito membros da família que fizeram uma viagem nas suas caravanas e autocarros até à capital vão avisar os restantes setenta membros da família. Esses setenta vão avisar outros cento e oitenta. E os mais de trezentos alentejanos vão ligar para o programa, votar, mandar mensagens e, se for preciso, acampar à porta da estação de televisão.

E assim temos mais um programa feito. Claro que com isto não digo que não seja lindo o coração do Alentejo e quem quer que o venha representar. É bonito ver uma região orgulhosa daquilo que é. É bonito ver pessoas a defenderem uma tradição que, durante tantos anos, esteve longe dos grandes palcos. É bonito, sobretudo, ver uma coisa tão “nossa” chegar a pessoas que talvez nunca tivessem parado para a ouvir. Mas será que, no meio desta popularidade toda, não estamos a perder um bocadinho daquilo que fazia o cante ser especial?

O que torna o cante tão bonito não é apenas a música, é a sua singularidade. É aquela forma tão própria de juntar vozes, de contar histórias, de carregar uma terra inteira dentro de uma melodia. É saber que aquilo não nasceu para agradar a toda a gente, nem para preencher palcos. Nasceu de uma tradição que foi passando de geração em geração.

Mas hoje, o cante está nas colaborações improváveis, em músicas de artistas que, até ontem, provavelmente nem sabiam distinguir um grupo coral alentejano de um grupo de pessoas à espera do jantar. E é aqui que, para mim, está o problema. Há pessoas que descobriram o cante há dois anos e agora falam dele com a autoridade de quem cresceu numa tasca em Castelo de Vide a ouvir homens de boina cantar desde o berço. O cante não precisa de estar na boca de toda a gente para provar que tem valor. Não tem de chegar a um palco acompanhado daquele pensamento de “olha, lá vem ele com aquelas cantorias”. Não precisa de ser o cartão de visita infalível, a escolha segura para arrancar aplausos ou a fórmula que garante emoção só porque é alentejano.

O que torna o cante tão bonito não é apenas a música, é a sua singularidade. É aquela forma tão própria de juntar vozes, de contar histórias, de carregar uma terra inteira dentro de uma melodia.

E não me interpretem mal. Não acho que o cante deva ficar fechado entre migas e açordas. A cultura só sobrevive se for ouvida, partilhada e reinventada. Se o cante chegou a mais pessoas, ótimo. Se há jovens a descobri-lo e a querer cantá-lo, melhor ainda. Não há nada de errado em querer levar uma tradição mais longe. O problema é quando essa tradição deixa de ser uma expressão e passa a ser um produto. Quando já não é “olha, isto é aquilo que nós somos”, mas “olha, isto é aquilo que sabemos que vai conquistar toda a gente”. E aí começamos a tirar-lhe precisamente aquilo que o tornava especial.

Daqui a pouco ainda vamos ter cante alentejano num anúncio de um perfume, num jingle de supermercado e numa colaboração entre um DJ de Lisboa e um senhor de Mértola que só queria cantar com os amigos ao domingo.

O cante não tem de ser moda.
É arte. É património. É identidade.
Agora, se me dão licença, vou só ali beber um cafézinho. Sem cante, se faz favor.