O LAV-Lisboa Ao Vivo encheu-se para receber uma viagem ao passado do hard rock europeu. Cowpunks e Glampires, que é como quem diz D-A-D e The 69 Eyes, uniram forças numa tour que mostrou todo o legado da cena nórdica.
Todos sabemos que a capital do glam metal é Los Angeles, na Califórnia, com o seu centro geodésico-musical a situar-se na Sunset Strip, um pequeno troço da Sunset Boulevard situado em West Hollywood. Mas se tivéssemos de designar outra área geográfica onde este género também proliferou, teríamos que nos virar para a Escandinávia e para a Finlândia, uma região de relevo que conseguiu exportar vários nomes durante a década de 80. Bandas como os Pretty Maids da Dinamarca, os Europe e os Shotgun Messiah da Suécia, os TNT da Noruega e os Hanoi Rocks da Finlândia colocaram o norte da Europa no mapa do glam metal. Já nos 2000s, quando o género assistiu a um revivalismo na sua forma mais sleazy, após a queda do grunge, foi também na Suécia e na Finlândia que surgiram os principais nomes com os Crashdiët, os H.E.A.T, os Reckless Love e os Santa Cruz a levarem esse movimento avante.
Quando falamos dos D-A-D e dos The 69 Eyes o ponto de convergência que encontramos entre as duas bandas é a sua génese dentro do movimento glam metal. Porém, desde cedo ambas optaram por enveredar por linguagens distintas. Os D-A-D quiseram seguir as pisadas de um hard rock mais despretensioso e menos espalhafatoso com a sua base musical assente em malhas guiadas por um riff pulsante e uma batida bem marcante seguindo assim a escola de uns AC/DC. Já os The 69 Eyes ligaram-se mais à estética sleaze e ao gótico unindo por isso influências que vão desde os seus conterrâneos Hanoi Rocks aos The Cult.
Apesar das diferenças sonoras e estéticas as duas bandas juntaram-se para honrar o passado glorioso do glam metal/hard rock nórdico. A aceitação não poderia ter sido melhor com o LAV a encher-se de um público maioritariamente veterano à procura de reviver memórias de outros tempos.
The 69 Eyes
Num regime co-headline, os The 69 Eyes foram os primeiros a subir ao palco. O LAV pintado de negro aguardava ansiosamente a estreia da banda finlandesa em Lisboa (na noite anterior tinha sido a sua estreia no Porto) após uma ausência dos palcos portugueses de vinte cinco anos. Muitos certamente não terão conhecimento desse primeiro concerto dos vampiros de Helsínquia em Portugal, mas, segundo os arquivos, a banda apresentou-se mesmo no festival Carviçais Rock 2001, numa povoação do município de Torre de Moncorvo, situada no distrito de Bragança. Curioso ou não, fica então esse registo para a história.
Desta forma, não é de estranhar que o concerto do LAV tenha sido o primeiro contacto de muitos fãs portugueses com os The 69 Eyes num contexto ao vivo. Imbuídos numa negritude que já se apresenta como imagem de marca, a banda entrou em palco com toda a confiança, que o diga Jussi 69, o baterista, que bem ao estilo de Tommy Lee subiu à sua plataforma já em tronco nu para se empoleirar no seu kit enquanto fitava intensamente o público com um braço erguido a fazer o gesto da paz.
A base sonora dos The 69 Eyes vai beber muito aos power chords musculados dos 80s e às baterias retumbantes. Mas, é com os arpejos mais atmosféricos e espessos, apontamentos de órgão sintetizado e a voz baixo-barítono de Jyrki 69 que as suas composições nos levam para as profundezas da Transilvânia. Temas como “Don’t Turn Your Back on Fear”, “I Survive”, o mais recente single que conta com a participação de Steve Stevens e “I Love the Darkness in You” teriam certamente sido sucessos na pista de dança da Batcave, em Londres, tivessem eles sido lançados nos anos 80.
Ao longo de todo o concerto, Jussi 69 não desmanchou a sua postura de rockstar. Para esse fator contribui e muito a estratégia do kit Pearl com bombo duplo e um setup baixo. Apesar desta manobra que teve como objetivo elevar a sua coolness, conseguimos perceber que o músico apenas recorreu ao bombo direito com base no posicionamento do microfone. A acompanhá-lo na secção instrumental estiveram Bazie na guitarra solo, Timo-Timo na guitarra ritmo e Archzie no baixo, todos eles profundamente experientes, mas mais contidos na arte de dar espetáculo.
Com um som denso e encorpado, a banda mergulhou-nos em “Devils”. Rapidamente ficámos enfeitiçados pela postura, estilo e voz de Jyrki 69, com os dois primeiros elementos a fazerem lembrar um jovem Ian Astbury dos The Cult na sua fase “Sonic Temple” (1989) e o terceiro para o icónico timbre de Peter Steel dosType O Negative.
Numa união entre vampiros e lobisomens, Fernando Ribeiro dos Moonspell surgiu das sombras para cantar o tema com a banda.
“Gothic Girl” e “Dance d’Amour” fizeram as delícias dos fãs mais românticos, enquanto “Brandon Lee”, com o seu riff decalcado de “Rain” dos The Cult, e “Lost Boys” levaram-nos pelo imaginário cinéfilo. Esta última encerrou o concerto e trouxe a palco um convidado muito especial que na noite anterior também já tinha pisado as tábuas do Hard Club, no Porto. Numa união entre vampiros e lobisomens, Fernando Ribeiro dos Moonspell surgiu das sombras para cantar o tema com The 69 Eyes. A sua voz grave cruzou-se na perfeição com a de Jyrki 69 num momento de profunda comunhão entre duas bandas que têm representado com distinção o rock/metal gótico no panorama europeu.
D-A-D
Na história dos concertos de hard rock em Portugal não temos conhecimento de uma banda estrangeira tão repetente como os D-A-D. Feitas as contas, já são vinte e dois concertos espalhados ao longo dos últimos vinte e um anos, uma média de um concerto por ano se arredondarmos o valor. A explicação para tal não precisa de ser científica, mas tudo remete para a longevidade com que os grandes clássicos da banda dinamarquesa têm atravessado as décadas, assim como a lealdade dos fãs portugueses para com a banda de Copenhaga.
É certo que o youtube e as plataformas de streaming são excelentes meios para ajudar certas bandas a não cair no esquecimento, mas no caso dos D-A-D e, particularmente no caso português, ainda existem rádios que continuam a perpetuar o seu legado como é o caso da 105.4 (Cascais FM) e da M80, esta última parceira do evento.
Sendo assim, o resultado esperado não poderia ser outro senão casa cheia (a rebentar pelas costuras), algo que veio mesmo a confirmar-se.
Da vasta fornada de bandas de hard rock/glam metal dos 80s os D-A-D são das poucas que com o passar das décadas não se tornaram numa paródia do passado, como aconteceu com outros grupos como os Dokken, os Ratt ou os Faster Pussycat. Muito se deve, por um lado, à formação praticamente intacta desde a sua génese e, por outro, à boa forma vocal e física de Jesper Binzer que conseguiu manter a sua icónica voz arranhada ao longo dos anos.
“No Fuel Left for the Pilgrims” (1989) será eternamente o álbum que melhor define os D-A-D, desta forma não é de estranhar a sua presença dominante na setlist do concerto.
“No Fuel Left for the Pilgrims” (1989) será eternamente o álbum que melhor define os D-A-D, desta forma não é de estranhar a sua presença dominante na setlist do concerto. A abertura foi precisamente feita com um dos seus singles, “Jihad”. Muitas vezes consideramos bandas como os D-A-D como projetos que vivem exclusivamente do legado, mas os hard rockers dinamarqueses nunca pararam de lançar repertório novo. Do mais recente trabalho “Speed of Darkness” (2024), a banda soube articular temas como “1st, 2nd & 3rd”, a faixa título e “The Ghost” com clássicos profundamente rodados como “Girl Nation” e “Riding With Sue”, esta última cantada pelo baixista Stig Pedersen.
E o que dizer de Pedersen? Primeiro é preciso apontar que Stig é todo um outro espetáculo dentro do concerto dos D-A-D, sendo também ele quem cativa mais olhares da plateia. Tudo se deve ao seu visual repleto de figurinos espampanantes, à sua presença carismática e jocosa e aos seus baixos únicos de duas cordas com formatos peculiares. Sobre os baixos não vamos dissecar aqui todas as suas particularidades pois a Arte Sonora já possui um artigo totalmente dedicado a este tema e que pode ser consultado aqui. No campo das guitarras Jesper e Jacob Binzer já são mais tradicionalistas com o primeiro a optar por uma Gibson Flying V e o segundo por uma Fender Jazzmaster ’63 e também uma Gibson SG.
Na bateria, o mais jovem da banda, mas nem por isso menos dotado, deu uma masterclass de como se toca no pocket. Laust Sonne é herdeiro de uma linhagem de bateristas de rock que ainda recorrem ao grip tradicional como é o caso de Steve Smith dos Journey e Stewart Copeland dos The Police. Além do estilo inquestionável que dá ao músico, os fills também parecem ganhar no espectro dinâmico.
Por mais que os anos passem, os fãs portugueses não se cansam de entoar os maiores clássicos da banda. Jesper sabendo disso e como mestre de cerimónias não se importa de libertar o microfone em temas como “Grow or Pay”, “Point of View” e “Bad Craziness”.
Por mais que os anos passem, os fãs portugueses não se cansam de entoar os maiores clássicos da banda. Jesper sabendo disso e como mestre de cerimónias não se importa de libertar o microfone em temas como “Grow or Pay”, “Point of View” e “Bad Craziness”. Já no encore os decibéis foram reduzidos para acolher a acústica “Laugh ‘n’ a ½” que se fez acompanhar de um coro de vozes já bem aquecidas. O muito aguardado hino da banda “Sleeping My Day Away” trouxe à tona aquele que, para nós, é um dos riffs mais fascinantes da era glam metal dos 80s. Segundo Jacob, a sua sonoridade característica surge da combinação de um BOSS Compressor, um MXR Micro Amp Booster, o delay do processador G-Force da TC Electronic e um Marshall JCM 800. A fechar, “It’s After Dark”, com Stig Pedersen na voz, levou-nos de volta ao início, ao longínquo ano de 1986 quando o álbum de estreia “Call of the Wild” foi editado. É verdade que este não foi um concerto de celebração do seu 40º aniversário, mas para os D-A-D certamente que tem sido um momento de profundo simbolismo.
É caso para dizer que o tempo corre, não anda, ele é quem manda, mas em Portugal, para os D-A-D parece que o tempo abranda e nos permite ano após ano saborear os saudosos anos 80 e 90.

























































































