Esqueçam as subtilezas. No passado dia 10 de fevereiro, o Sagres Campo Pequeno não foi uma sala de espetáculos, foi uma arena de combate onde o rock reclamou o seu trono pelas mãos dos Alter Bridge, Daughtry e Sevendust. A What Lies Within Tour aterrou em Lisboa com um arsenal sonoro de primeira linha e o resultado foi uma descarga elétrica que deixou os ouvidos a zumbir e a alma cheia.
Mal passaram 40 dias desde o início de 2026 e Lisboa já foi palco de uma sucessão de descargas sonoras de alto calibre, percorrendo as mais variadas latitudes do Rock. Se o género está a morrer, nós ainda não recebemos o memorando para o enterro. E se o funeral está marcado ou já aconteceu… não demos conta, pelo contrário, as salas em Portugal têm estado cheias para celebrar o volume e a distorção.
Do hard rock clássico dos D-A-D à loucura arrojada dos Electric Callboy; da elegância de Tarja e Marko Hietala ao peso sinfónico de Epica e à brutalidade dos Jinjer; passando pelo indie rock à Portuguesa dos Capitão Fausto e dos Napa; pelo rock alternativo de Biffy Clyro e pelo fenómeno The Last Dinner Party, até chegarmos ao concertão dos Alter Bridge… Tem sido um desfile ininterrupto que prova que o Rock, nas suas mil formas, continua a ser a banda sonora da nossa resistência.
Por outro lado, 2026 arrancou como um autêntico annus horribilis. De Norte a Sul de Portugal, as tempestades têm sido implacáveis: chuva e ventos que não dão tréguas, cheias que levam tudo à frente e infiltrações que minam o que resta. Enquanto muitos choram a perda de familiares, amigos, casas, animais e projetos de uma vida, enquanto muitos ainda estão sem eletricidade ou um tecto onde viver, enquanto espaços culturais são forçados a cerrar fileiras temporariamente, Lisboa parece viver numa bolha de estranho privilégio.
Entramos em cada sala com o coração apertado ao ler e ao ver as imagens das notícias que nos vão chegando. Há um sentimento de culpa e impotência que nos rói por sermos os “sortudos” que ainda podem sair de casa para assistir a um concerto, enquanto o país lá fora se afoga. Talvez por isso tenhamos vivido estes concertos de forma tão visceral: com o sentimento de quem não pode dar o futuro como certo e a fúria de ter que aproveitar o momento, antes que o abismo nos bata à porta.
O regresso dos Alter Bridge a Portugal, a 10 de Fevereiro, trouxe o novo disco homónimo e um Sagres Campo Pequeno cheio, mas o prato principal veio com acompanhamentos de peso. Rotular os Sevendust e os Daughtry como simples actos de abertura é manifestamente redutor. Estivemos perante um cartaz de luxo, uma oportunidade de ver três bandas com calibre de cabeças de cartaz a partilharem o mesmo palco pelo preço de um único bilhete. Rock de elite, sem concessões.
SEVENDUST
Quando os Sevendust subiram ao palco, o Campo Pequeno ainda estava a meio gás, fruto da ingrata tarefa de tocar demasiado cedo para um dia de semana em Lisboa. Por algum motivo, a banda nunca alcançou a mesma projeção de outros pares da era dourada do nu metal, mas a sua prestação na capital provou como é profundamente injusto.
Lajon Witherspoon continua a ostentar um vozeirão que contrasta com a sua presença afável em palco. Visivelmente emocionado com a receção calorosa, o vocalista fez questão de agradecer todo o carinho do público. Tanto na plateia como nas reações que inundaram as redes sociais, ficou claro que muitos se deslocaram ao Campo Pequeno para os ver, e por isso, não há razão nenhuma para esperarmos muito mais tempo por um regresso em nome próprio. Ontem já era tarde!
Conscientes do slot limitado que tinham, e à exceção da recém-editada “Is This The Real You?”, o grupo deixou os temas mais recentes de lado para apostar nas pérolas do seu catálogo. Foi um set curto, mas servido por uma parede sonora afiada e uma entrega irrepreensível, onde não faltaram as malhas “Black”, “Enemy”, “Praise”, “Crucified” e “Face to Face”. A justiça em Portugal foi feita com 30 anos de atraso.
DAUGHTRY
Depois da tempestade sonora inicial, veio a calmaria, ou melhor, o equilíbrio. Os Daughtry subiram ao palco do Sagres Campo Pequeno para apresentar o seu hard rock polido, onde a melodia nunca sacrificou o peso. A visita a Portugal coincidiu com as celebrações dos 20 anos do seu álbum de estreia homónimo, o disco que os catapultou para as tabelas mundiais com power ballads icónicas como “It’s Not Over” e “Over You”. Curiosamente, a ausência de “Home” do alinhamento poderá ter sido notada, mas esse vazio foi rapidamente preenchido por uma banda decidida a provar que é muito mais do que um fenómeno romântico de outros tempos.
Com um tempo de antena mais generoso, o quinteto apostou forte no material mais recente. Do novo álbum, “Shock To The System – Part Two” (2025) dispararam temas como “Divided”, “The Bottom”, “Antidote” e a vibrante “The Day I Die” mostraram uma banda revigorada, com uma sonoridade moderna que mantém a essência que os tornou famosos.
Na frente de tudo isto, Chris Daughtry confirmou o estatuto de vocalista de elite, “a cantar nas horas” e a demonstrar um alcance vocal impressionante.
O momento de maior cumplicidade com o público teve sotaque português. Elvio Fernandes, o homem das teclas com “sangue tuga”, apresentou-se a rigor: vestia a camisola da seleção nacional, numa clara homenagem ao seu compatriota Cristiano Ronaldo. A banda apresentou-se extremamente coesa, com as guitarras no ponto e uma secção rítmica de batida forte e precisa. Na frente de tudo isto, Chris Daughtry confirmou o estatuto de vocalista de elite, “a cantar nas horas” e a demonstrar um alcance vocal impressionante.
A inclusão da versão de “Separate Ways”, dos Journey, funcionou como um autêntico “mimo” para os mais nostálgicos. “Artificial” encerrou o set com uma pujança que deixou um aviso claro: os Daughtry de 2026 são uma força do rock contemporâneo que não precisa de muletas do passado para se agigantar. Agora, resta-nos esperar que a “cunha” de Elvio Fernandes interceda por nós, para que uma próxima digressão europeia em nome próprio não deixe Portugal fora do mapa.
ALTER BRIDGE
A última vez que vimos os Alter Bridge remonta a 2023, no Evil Live, na MEO Arena. Na altura, a experiência ficou aquém das expectativas, algo deslocados no cartaz, com uma acústica que não os favoreceu, marcada por uma saturação de médios e alguma estridência que se infiltrava nos ouvidos. Ficou a sensação de que a banda merecia melhores condições, e os fãs também. Por isso, este regresso em nome próprio, agora com um novo álbum, trazia consigo uma espécie de ajuste de contas.
A receção foi calorosa, familiar até… Casa cheia para receber músicos que o público acolheu como parentes e amigos que não se viam há demasiado tempo.
E no essencial do concerto, pouco ou nada mudou, felizmente. Os riffs pujantes de Mark Tremonti continuam a soar com a mesma robustez de sempre e a voz singular de Myles Kennedy parece imune à passagem do tempo. Há uma segurança quase inabalável na forma como ambos dominam o palco, alternando entre momentos de intensidade bruta e passagens mais harmoniosas, sempre com uma naturalidade desarmante. Tremonti mantém o estatuto de um dos grandes guitar heroes contemporâneos, algo que se comprova facilmente em temas como “Metalingus” ou “Open Your Eyes”.
Com mais de duas décadas de estrada, a maturidade apresenta-se na inteligência com que constroem o alinhamento. O novo álbum homónimo, “Alter Bridge”, foi apresentado com uma confiança inabalável, integrado de forma tão orgânica que os novos temas pareciam já fazer parte do ADN clássico da banda que todos aguardavam. Dos temas acabados de sair do forno ouvimos “Silent Divide”, “Tested And Able” e “Playing Aces”.
Aqui não há lugar para vedetismo. O palco é um espaço de partilha absoluta, um casamento perfeito entre dois titãs que sabem quando dar espaço um ao outro. Em “Burn It Down”, Tremonti voltou a recordar-nos que as suas cordas vocais são tão vibrantes como a “voz” que arranca das suas PRS, assumindo o protagonismo com uma mestria que já lhe conhecemos a solo.
Contudo, a solidez dos Alter Bridge não se esgota, de forma alguma, no carisma destes protagonistas. Brian Marshall, no baixo, e Scott Phillips, na bateria, formam a espinha dorsal desta engrenagem: uma secção rítmica coesa, implacável e de uma eficácia silenciosa. São eles que ajudam a erguer aquela “parede sonora” que se tornou a imagem de marca do quarteto de Orlando. No universo desta banda, nada soa a excesso ou a exibicionismo gratuito; cada batida e cada linha de baixo estão, rigorosamente, ao serviço da composição.
Contudo, a solidez dos Alter Bridge não se esgota, de forma alguma, no carisma dos seus protagonistas. Brian Marshall, no baixo, e Scott Phillips, na bateria, formam a espinha dorsal desta engrenagem: uma secção rítmica coesa, implacável e de uma eficácia silenciosa. São eles que ajudam a erguer aquela “parede sonora” que se tornou a imagem de marca do quarteto de Orlando.
Num tempo em que a Inteligência Artificial domina as discussões na indústria da música e muitos concertos se perdem em produções faraónicas, com ecrãs gigantes, coreografias milimétricas e um aparato visual quase cinematográfico, há algo de profundamente reconfortante em assistir a um espetáculo focado essencialmente na música, algo cada vez mais raro neste campeonato do mainstreaming. Os Alter Bridge trouxeram a Lisboa um palco minimalista e projeções pontuais, sem pirotecnia, confettis ou plataformas móveis. O foco esteve onde muitas vezes deve estar: nos instrumentos, nas vozes e na ligação directa com o público. E, às vezes, só isso basta. Mas também fica fácil quando se é dono de um arsenal de “malhas” como “Metalingus”, “Open Your Eyes”, “Broken Wings”, “Fortress”, “Blackbird”, “Watch Over You” ou “Isolation” [e tantas outras que não cabem nesta lista ou no tempo útil de um concerto].

Mas há outro fator que nos faz admirar estes músicos: a espontaneidade e o sorriso com que nos recebem. Claro que um espetáculo desta dimensão exige planeamento e estratégia, mas os Alter Bridge deixam espaço para o improviso e para a atenção ao que se passa na sala. Logo à terceira música, Myles Kennedy arrancou-nos um sorriso: “Cry of Achilles” começou com um “falso alarme” porque o vocalista, com humildade, admitiu que faltava algo… precisava de voltar a colocar os óculos , tal como estava programado (depois de os ter retirado em “Addicted to Pain”). «É da idade», justificou o seu esquecimento, entre risos, nos seus bem aproveitados 56 anos.
Mais à frente, Myles interrompeu “Open Your Eyes” ao perceber que uma fã se sentia mal nas primeiras filas. Foi ao som das famosas vocalizações entre a banda e o coro do público que a equipa médica entrou em cena, num momento de civismo e respeito que não quebrou o ritmo, mas reforçou a união entre palco e plateia.
Mais à frente, o “olhar de águia” de Kennedy entra novamente em acção ao detectar um pedido de casamento em plena plateia, antes de “What Over You”. Da zona onde nos encontrávamos, a visibilidade era reduzida, pelo que agradecemos a Brian Marshall a “tradução gestual” do que estava a acontecer: o suspense, a dúvida e, finalmente, o “Sim!”. Com a bênção dos Alter Bridge numa noite chuvosa em Lisboa, a conclusão é simples: só não será um casamento duradouro se os intervenientes não quiserem.
Para o encore, a banda reservou a carga emocional de “Blackbird” e a energia crua de “Isolation”. Foi o golpe final de uma noite que provou que o rock não só goza de excelente saúde, como continua a ser o refúgio dos que procuram verdade em cima de um palco.
Esta jornada no Campo Pequeno deixou um lembrete importante: a música não deve ser uma competição, nem medida apenas pelo seu alcance comercial ou por algoritmos de popularidade. O valor de bandas como estas reside na lealdade que inspiram e na qualidade que entregam, independentemente das modas. Se o rock é uma linguagem de resistência e entrega, os Alter Bridge são hoje um dos seus mais nobres porta-vozes.
Longa vida aos Alter Bridge, longa vida ao Rock!































































































































