dead kennedys

Dead Kennedys em Portugal: Fúria reciclada com alma intacta

Review

Banda
10/10
Voz
8/10
Som
9/10
Ambiente
8/10
Overall
8.8/10
Forward to Death
Winnebago Warrior
Police Truck
Buzzbomb
Let's Lynch the Landlord
Jock-O-Rama
Kill the Poor
MP3 Get Off the Web
Too Drunk to Fuck
Moon Over Marin
Nazi Punks Fuck Off
California Über Alles
Encore 1:
Bleed for Me
Viva Las Vegas (Elvis Presley cover)
Holiday in Cambodia
Encore 2
16. Chemical Warfare

Nota de redacção: O texto de Mata-Ratos foi retirado. Pedimos desculpa pela informação completamente errada.


Os lendários Dead Kennedys regressaram a Portugal para dois concertos que celebraram o legado feroz e irreverente de uma das bandas mais icónicas da história do punk.

Os Dead Kennedys trouxeram uma dose dupla de punk ao público português nos dias 24 e 25 de junho. A primeira paragem foi no LAV – Lisboa Ao Vivo, onde esteve presente a lente da Arte Sonora. No dia seguinte, foi a vez do Hard Club, no Porto, receber a descarga elétrica, num concerto que contou também com a atuação dos Mata-Ratos, banda clássica do punk português com mais de 40 anos de estrada.

Mais de quatro décadas depois de terem incendiado o punk com sarcasmo mordaz, crítica feroz e guitarras cortantes, os Dead Kennedys continuam na estrada. E, embora o tempo tenha levado alguns rostos (e cabelos), a energia caótica e contestatária ainda pulsa com força.

A formação atual já não conta, há muito, com Jello Biafra, o vocalista original cuja presença ainda assombra cada verso ácido e cada pose de palco. Mas o espírito permanece. Skip Greer, frontman desde 2008, não tenta imitar Jello, mas carrega com dignidade a missão ingrata de dar voz a letras que ainda ecoam como socos: “Kill the Poor”, “Bleed for Me”, “Holiday in Cambodia” e a sempre urgente “Nazi Punks Fuck Off”, que fecha os encores como um aviso atemporal.

Em palco, East Bay Ray comanda tudo com a sua guitarra inconfundível, aquele som surf-punk distorcido, com frases repetitivas que cortam o ar como lâminas afiadas. Para qualquer fã de punk rock, vê-lo ao vivo já justifica o bilhete.

Em palco, East Bay Ray comanda tudo com a sua guitarra inconfundível, aquele som surf-punk distorcido, com frases repetitivas que cortam o ar como lâminas afiadas. Para qualquer fã de punk rock, vê-lo ao vivo já justifica o bilhete. O baixo firme do icónico e sempre inspirador Klaus Flouride, e a bateria agora entregue a Steve Wilson, que substitui o falecido DH Peligro, homenageado durante o concerto, completam a máquina. A banda soa coesa, barulhenta e, acima de tudo, incrivelmente atual!

O alinhamento tem-se mantido praticamente inalterado de noite para noite, mas isso pouco importa, porque cada faixa é um shot de fúria bem envelhecida. “Police Truck “, “Forward to Death”, “Moon Over Marin “, “California Über Alles”… Skip interage bastante com o público, o que, no geral, foi positivo, (embora para mim teria sido melhor menos conversa e mais música). Ainda assim, foi divertido e provocador, especialmente quando aludiu à eliminação do Porto na Campeonato do Mundo de Clubes. Houve, claro, espaço para protestos. As críticas a Trump foram recebidas com entusiasmo. Mas mais do que palavras, houve suor, e aquele sorriso torto de quem sabe que a música ainda pode ser uma arma, mesmo em tempos de desinformação, streaming e apatia.

Mas mais do que palavras, houve suor, e aquele sorriso torto de quem sabe que a música ainda pode ser uma arma, mesmo em tempos de desinformação, streaming e apatia.

A verdade é que as letras, o sarcasmo e a postura política não são invenção dos músicos atuais. Tudo isso foi moldado por Biafra nos anos 80. Mas os que estão hoje em palco – e o público que grita junto – provam que a raiva ainda é relevante. Não é nostalgia: é continuidade. É um grande legado.

Os Dead Kennedys em 2025 não são só uma banda a tocar clássicos, são a evidência de que há coisas que não deveriam ser esquecidas. E que o punk, mesmo sem moicano, ainda tem dentes.

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