Diário de um festivaleiro: três dias dentro do Primavera Sound Porto 2026

Diário de um festivaleiro: três dias dentro do Primavera Sound Porto 2026

25/06/2026

Este é um artigo escrito pela visão de um festivaleiro no Primavera Sound Porto. Nasce da experiência vivida entre palcos, filas, encontros inesperados e aquela sensação de que o festival nunca cabe exatamente no que está programado.

Há uma diferença entre fazer a cobertura de um festival e viver um festival. A primeira permite andar de palco em palco com alguma ordem na vida, muitas vezes com melhores ângulos e som, menos filas, pausas estratégicas e até o “luxo” de ver concertos sentado. A segunda não dá esse tipo de conforto.

É esperar por um concerto debaixo do sol como se fosse uma penitência voluntária. É decidir entre bandas que tocam à mesma hora como se isso fosse perfeitamente normal na vida adulta. É atravessar o recinto já meio moído e, ainda assim, correr, porque se não corres ficas de fora. Mas também é apanhar um concerto que não estavas a contar ver e sair de lá a pensar que, afinal, foi aquilo que fez o dia.

Durante três dias deixei de ser observador e passei a ser festivaleiro. E sobrevivi. Mais ou menos.

DIA 1 – O dia em que o plano começou a falhar bem
O Primavera Sound Porto já é um lugar familiar. Boa localização, bons acessos, organização sólida, comida suficiente para não entrar em modo de sobrevivência total e um ambiente que, apesar de tudo, funciona. No primeiro dia, cheguei por volta das 16h30 e ainda consegui estacionar sem drama na zona da Anémona. Entrada rápida, revista normal e, em pouco tempo, já estava lá dentro. Primeiro objetivo: perceber onde é que isto tudo andava.

No palco principal, o Estrella Damm, a oferta de comida e bebida parecia aceitável. Mais tarde percebi que nem sempre era bem assim, mas, para já, estava tudo controlado. Do lado esquerdo, havia outra zona de comida que até salvava bem o dia. Sol forte, cerca de 26 graus. Traduzido: cerveja. Copo na mão, cerveja fria, tudo certo. Espera. Vamos falar dos copos.

Já se tornou hábito não haver devolução? São poucos os que ainda reclamam. Pagas e ficas com o souvenir obrigatório do festival, quer queiras quer não. Se ao menos tivesse uma ilustração mais especial, com os nomes das bandas ou o ano do evento. Mas nem isso. Negócio inteligente. Para eles, claro. Ah… e o copo também encolheu, mas o preço ficou igual. Pequenos detalhes que ajudam a educar o espírito festivaleiro.

A programação digital no site oficial permitia marcar concertos com estrelas. Acabou por ser uma das melhores coisas do festival: fazias o plano, tirava-se print e depois via-se se a vida deixava cumprir. Spoiler: deixava, mas pagavas literalmente com a vida.

No Estrella Damm já tocava Emmy Curl. Não estava no plano, mas vi duas músicas. Som bom, público ainda a aquecer. Segui caminho.

Primeira volta pelo recinto. Reconhecimento básico, estilo missão militar ligeira. Passei pelo palco ZYN, ainda meio vazio, mas com potencial para problemas sérios mais tarde. Na ligação para o palco Vodafone reparei logo no WC 8. Mau pressentimento imediato: ficava no eixo principal entre palcos, ou seja, vai ser guerra em horas de ponta. Decisão tomada ali mesmo: evitar aquele como regra de sobrevivência. Mais vale procurar os mais escondidos. E funcionou.

Ao lado do Vodafone estava o palco Primavera, onde os Vaiapraia tocavam. Surpresa boa. Energia meio punk, meio pop desorganizado, no bom sentido. Fiquei até ao fim sem estar à espera disso. Depois começou oficialmente a caça às estrelas.

Ao lado do Vodafone estava o palco Primavera, onde os Vaiapraia tocavam. Surpresa boa. Energia meio punk, meio pop desorganizado, no bom sentido. Fiquei até ao fim sem estar à espera disso.


No ZYN, as The New Eves deram um daqueles concertos que não se sabe bem onde encaixar. Estranho, bonito, por vezes quase torto, mas com qualquer coisa que prendia. Daqueles casos em que se vai só espreitar e se sai a pensar que se devia ter estudado melhor antes. Segui para o Estrella Damm para ver os Nation of Language. Ainda com o sol a bater forte, o que normalmente não ajuda ninguém. Mas bastou começarem para aquilo ganhar outra temperatura. Synth-pop com sabor a anos 80, mas sem parecer exercício de nostalgia. Música feita para mexer o corpo sem pedir licença. O vocalista não parou quieto um segundo. Energia constante, quase irritante de tão consistente. E, de repente, aquilo virou pista de dança em pleno fim de tarde. Sensação – o dia já tinha valido a pena. E ainda mal tinha começado.


Fotos (c) Teresa Mesquita

Depois disso veio o intervalo proporcionado pela agenda estrelada: comida. Caldo verde e uma bola qualquer com recheio que já não sei nomear, mas que resolveu o problema. Comida de festival é isto: não é para emocionar, é para continuar de pé. Fiquei a andar pelo recinto sem grande objetivo, só para confirmar que não tinha cometido erros no planeamento. Claro que tinha. Voltei ao Estrella Damm.

Adrianne Lenker e companhia entraram como entram: sem grande aviso, sem necessidade de preparar ninguém. E isso fica-lhes bem. Em Big Thief não há ali esforço para criar o momento. O momento simplesmente acontece, ou não acontece. Naquele caso, aconteceu. O concerto foi crescendo sem pressa, como se a banda estivesse a testar a elasticidade das próprias canções. Há sempre esta sensação nos Big Thief: a música está constantemente a escapar do lugar onde começou. Não é bem folk, não é bem rock, não é bem indie. É qualquer coisa a ocupar espaço com uma urgência calma. Sensação: aquela estranha de quando um concerto não parece terminar. Só muda de lugar dentro da cabeça. Foi nesse intervalo curto entre palcos que o festival voltou a acelerar.

Atravessei o recinto quase em modo automático, desviando-me de pessoas, filas e copos como se tudo fosse obstáculo temporário. Quando cheguei ao anfiteatro natural, Ethel Cain já estava em palco. E o ambiente tinha mudado.

Olhei para o telemóvel e não havia margem: Ethel Cain já tinha começado no Vodafone. O tipo de situação em que não há decisão inteligente. Só escolhas tardias. Atravessei o recinto quase em modo automático, desviando-me de pessoas, filas e copos como se tudo fosse obstáculo temporário. Quando cheguei ao anfiteatro natural, Ethel Cain já estava em palco. E o ambiente tinha mudado. Não era exatamente silêncio, mas era algo próximo disso dentro de um festival: uma espécie de atenção coletiva forçada pelo próprio peso das músicas. Fiquei a ver o que consegui. Pouco, mas o suficiente para perceber que aquilo não estava feito para distração. Havia qualquer coisa de litúrgico, quase desconfortável, na forma como o público reagia. Não era entusiasmo. Era absorção. Eu queria ficar. Mas saí. O festival não deixa ninguém ficar parado muito tempo no mesmo sítio sem pagar isso noutro lado.

Voltei a atravessar o recinto com aquela sensação típica de estar a perder uma coisa ao mesmo tempo que se vai atrás de outra. Os Texas Is The Reason estavam a começar. E aqui aconteceu uma das grandes surpresas do dia. Não havia grande encenação, nem aquele ar solene de “regresso importante”. Havia só uma banda a entrar em palco com uma segurança tranquila, como quem sabe exatamente o que vai fazer ali. E fizeram. História. Pelo menos para quem estava naquele pedaço de recinto. O concerto ganhou uma dimensão emocional inesperada. Não era só um conjunto de músicas bem tocadas. Era um encontro entre banda e público a acontecer em tempo real, sem filtro, com uma alegria visível dos dois lados. Saí dali ainda meio preso naquele estado, como se o corpo tivesse saído, mas a cabeça tivesse ficado uns minutos mais.

Foi aí que a realidade do festival voltou a puxar-me. Ethel Cain ainda estava na fase final do concerto. Voltei a correr pelo meio da multidão, ainda com o eco dos Texas na cabeça, e cheguei ao Vodafone mesmo a tempo de apanhar o fecho. Não vi tudo. Mas o que vi chegou. Há concertos que precisam de duas horas. Há outros que apanham em seis músicas e fazem o mesmo estrago. Ali lembrei-me de porque é que esta vida de festivaleiro vicia, mesmo no meio desta tempestade toda. O dia podia acabar ali. Mas não. Em apenas cinco minutos teria de me dividir novamente, porque as estrelas tinham marcado duas atrações no mesmo horário.

Oh, céus. Agriculture ou The xx? Os dois. Metade lá, metade cá.

Primeiro fui ao palco Primavera. E aqui o festival muda de temperatura. Não é subtil. Não é confortável. Não é música feita para acompanhar nada enquanto se bebe cerveja. É som que entra direto, sem pedir permissão. Os Agriculture foram intensos, físicos e difíceis de processar em tempo real. Havia violência, mas também uma espécie de procura de luz dentro dela. Fiquei a meio, como se faz quando o plano já não é plano nenhum, mas saí com a certeza de que quero voltar a vê-los com a atenção que merecem.

Aquele choque preparou-me para o regresso ao Estrella Damm. Cheguei aos The xx já com o concerto a meio. Por um momento, tive a convicção de que tinha acertado na troca novamente. O trio soava como se o tempo não tivesse passado por eles, mas também como se tivesse passado de forma útil. As músicas continuam contidas, mas ganharam corpo. Espaço. Respiração. Espaço para dançar sem perder aquela estranha distância emocional que sempre foi deles. Concerto grande não precisa de ser barulhento.
E, sem grande tempo para respirar, o festival voltou a mudar de tom. E até de idioma.

Palco Vodafone. KNEECAP! Aqui já não há subtileza nenhuma. Quando entram, o ambiente muda imediatamente. Não há construção gradual. Há impacto direto. Hip-hop acelerado, eletrónica a empurrar tudo para a frente e uma presença em palco que transforma o concerto num espaço de conflito permanente, mas também de celebração. Era gaélico com inglês acelerado. Mas mesmo quem não entende uma palavra entende o essencial: isto é sobre afirmação, energia, política e não pedir desculpa por existir. O público entrou no jogo sem hesitar. Dança, gritos, descontrolo organizado. Aquele tipo de caos que só acontece quando uma multidão decide que está tudo bem perder o controlo ao mesmo tempo.

Quando acabou, eu estava alta voltagem, como se tivesse vindo de outro tipo de festival dentro do festival que fui ver. E, nesse estado meio elétrico, meio cansado, ainda voltei a olhar para o mapa do recinto. A noite ainda não tinha acabado. Mas eu já.

DIA 2: O festival cheio demais para caber dentro dele
Acordar no segundo dia de festival é sempre um pequeno ato de negociação com o corpo. A cabeça ainda está no recinto. As pernas ainda estão no dia anterior. E o telemóvel, esse traidor luminoso, já mostra outra vez a programação com estrelas, sobreposições e pequenas possíveis tragédias logísticas. O primeiro dia tinha acabado comigo a olhar para o mapa do recinto e a perceber que a noite ainda não tinha terminado, mas eu sim. O segundo começou com uma pergunta simples: quanto é que ainda há para gastar?
Resposta: aparentemente, bastante. Mas cedo se percebeu que aquele dia seria diferente.

À entrada, água distribuída gratuitamente. Pequenas filas à volta daquele líquido essencial. Finalmente algo gratuito num festival. Quase comovente. A minha agenda estrelada mandava-me ir ver os Bestia Bebé, mas tive problemas para estacionar e perdi o concerto. O problema lá fora já anunciava o que vinha lá dentro: o recinto estava muito mais cheio. Havia mais gente em todo o lado. Mais filas, mais passos interrompidos, mais grupos a atravessar o caminho em formação defensiva, mais pessoas paradas exatamente onde ninguém devia parar. Circular deixou de ser deslocação e passou a ser modalidade olímpica. Falando em olimpíadas… não, calma. Falaremos já. Festival não perdoa. Se queres ver tudo, chegas cedo e andas. Se queres comer, esperas. Se queres ir à casa de banho, planeias. Se queres chegar perto de um palco grande, começas a aceitar que talvez já tenhas chegado tarde à tua própria ideia. Mas também é isto: festival cheio irrita, festival vazio preocupa. E aquele segundo dia estava longe de preocupar alguém.

Festival não perdoa. Se queres ver tudo, chegas cedo e andas. Se queres comer, esperas. Se queres ir à casa de banho, planeias. Se queres chegar perto de um palco grande, começas a aceitar que talvez já tenhas chegado tarde à tua própria ideia.

Sem a minha primeira atração planeada, fiquei pelo palco principal. Baxter Dury entraria dali a pouco. Não entrou. Caiu como uma bomba. Como quem já estava numa festa uma hora antes de toda a gente. Enérgico, elegante, torto na medida certa. Uma espécie de furacão com bons sapatos. O concerto pareceu uma rave pós-punk electrónico de início de noite, daquelas que ainda apanham o público a aquecer e o obrigam a acelerar antes do previsto. Foi uma boa forma de acordar o dia.

Depois veio Panda Bear no Vodafone, que trouxeram outro tipo de luz. Psicadelismo solar, canções que pareciam flutuar sem perder o chão, uma banda de locais muito sólida e aquela sensação de que o festival também sabe respirar quando quer. Mas eu tinha outro nome marcado com demasiada força.

Se a aplicação deixasse, eu teria posto três estrelas, círculo vermelho e aviso sonoro. Há concertos que não deviam acontecer a qualquer hora. Slowdive ao pôr do sol foi uma dessas pequenas decisões que fazem um festival parecer mais inteligente do que provavelmente é. Cheguei com aquela tonalidade de fim de tarde em que tudo parece começar a abrandar. O Atlântico ao fundo, parte da Anémona a fazer de cenário involuntário e o recinto, por uma vez, a colaborar com a música. Os Slowdive não entram para conquistar. Entram para dissolver. E foi isso que fizeram.

A música deles parece sempre vir de algum sítio entre a memória e o sono. Não empurra. Vai envolvendo até se perceber que já se está dentro dela. Não houve grande espetáculo exterior. Nem precisava. Houve som, luz a desaparecer e aquela rendição silenciosa que só alguns concertos conseguem criar. Ou quase silenciosa, porque silêncio absoluto num festival é uma invenção teórica. Quando chegou “When the Sun Hits”, pareceu óbvio demais e, ao mesmo tempo, perfeito. O sol ia embora, a música parecia ter sido escrita para aquele exato momento e, durante uns minutos, deu para fingir que tudo estava no sítio certo. O problema destes concertos é que não acabam logo quando acabam. Ficam a pairar. E depois é preciso voltar a andar pelo recinto, procurar comida, desviar-se de pessoas, olhar para horários e fingir que não se esteve há pouco tempo dentro de uma nuvem.

Não é fácil. Mas ninguém disse que ser festivaleiro era uma profissão digna. Agenda conferida. Sinal laranja ligado. Tempestade à vista.

A seguir, o festival pediu outra coisa. Menos sonho, mais suor. Menos pôr do sol, mais barriga, saxofone e gente a correr em círculos sem razão aparente. Há bandas que entram em palco com pose. Sebastian Murphy entra como se tivesse acordado numa roulotte, encontrado um microfone pelo caminho e decidido que aquilo era suficiente para comandar uma multidão. E, de alguma forma, foi.

O palco não precisava de muito. Amplificadores, logótipo, banda e energia. Punk rock sem cosmética de luxo, sem grande aparato visual, sem tentativa de parecer maior do que aquilo que era. Aquilo era intenso porque era mesmo. Os Viagra Boys vivem num lugar estranho entre a piada e a coisa séria. Parece tudo meio absurdo, mas a banda toca como se o absurdo fosse disciplina militar. E depois aconteceu uma daquelas imagens que justificam um dia inteiro de festival: um circle pit durante um solo de saxofone. Repetindo: um circle pit durante um solo de saxofone. Há momentos em que a razão abandona o recinto e ninguém sente falta dela. Em “Sports”, o público remava no chão, Murphy fazia flexões e percebi que havia ali uma coreografia social para a qual ninguém me tinha enviado o manual. Para esse evento olímpico, numa próxima vez, preparo-me fisicamente. Saí dali com a certeza de ter visto uma banda no ponto certo: suficientemente grande para dominar um palco destes, suficientemente suja para ainda parecer perigosa.

Enquanto os Slowdive limpam a cabeça, os Viagra Boys sujam tudo outra vez. Ainda bem. E então chegou o centro gravitacional do dia. Bastava olhar à volta para perceber. Crianças e adultos com camisolas dos bonecos, pais que provavelmente ouviram aquilo nos anos 2000, filhos que talvez tenham conhecido primeiro os vídeos, os desenhos ou algum algoritmo doméstico. Uma banda virtual que envelheceu melhor do que muita gente real. E isso, por si só, já é estranho e bonito. O recinto estava esgotado, ou parecia. Daqueles cheios em que a multidão deixa de ser cenário e passa a ser personagem. Chegar, posicionar, respirar. Absolutamente tudo exigia estratégia. Já não tinha grande estratégia. Não consegui entrar num WC, não consegui comprar cerveja ou comida. Estava tudo virando um caos. As estrelas no telemóvel não me avisaram isso. Mas a vontade de ver se Damon Albarn ainda conseguia transformar aquele universo todo em algo humano era mais forte. E eu consegui ver que ele conseguiu. Os Gorillaz podiam ter vindo apenas fazer a volta da nostalgia. Tinham músicas para isso. Bastava carregar nos botões certos da memória coletiva e sair com o público ganho. Mas não foi só isso.
Havia um peso diferente naquela noite. Uma espécie de festa com sombra. O concerto falava de perda, memória, luto e continuidade sem deixar de ser festa. Coisas leves, portanto, para uma sexta-feira à noite num recinto cheio de copos reutilizáveis.

Havia um peso diferente naquela noite. Uma espécie de festa com sombra. O concerto falava de perda, memória, luto e continuidade sem deixar de ser festa. Coisas leves, portanto, para uma sexta-feira à noite num recinto cheio de copos reutilizáveis.

Mas resultou. Porque os Gorillaz sempre foram isto: contradição pura. Bonecos no ecrã. Gente real em palco. Canções tristes que fazem multidões dançar. Canções de festa com melancolia escondida. Houve convidados, houve clássicos, houve momentos de reconhecimento imediato. Houve um Damon Albarn mais sóbrio do que noutras passagens, menos caótico, mas nunca distante. A certa altura desceu à plateia, saudou pessoas, assinou coisas, distribuiu gestos e deu àquela massa enorme de gente uma inesperada sensação de proximidade. Podia parecer artifício. Não pareceu. Pareceu encaixar na ideia daquela noite: celebrar o que ainda está vivo enquanto se pensa no que já partiu. Para o fim vieram os pesos inevitáveis. “Feel Good Inc.”. “Clint Eastwood”. Toda a gente sabia. Toda a gente queria. E mesmo assim funcionou. Há músicas tão óbvias que quase temos vergonha de ainda sermos apanhados por elas. Mas depois começa aquele baixo, aquela voz, aquele refrão, e pronto, lá vamos nós outra vez. A ausência de “DARE” ficou no ar como pequena injustiça do concerto. Ou grande. Depende da sede, do cansaço e do apego emocional de cada um.

Festivaleiro nunca está satisfeito. É uma condição clínica. Quando acabou, saí com a multidão, meio esmagado, meio arrepiado, a pensar que talvez a grande vitória dos Gorillaz seja esta: quanto mais artificial parece o universo, mais humano ele se revela. E a minha humanidade pedia comida e descanso. Amanhã precisava de estar de volta.

DIA 3 – Quando já só resta gastar o que não existe
O terceiro dia começa sempre com uma mentira. «Hoje vou com calma.» Toda a gente diz isto. Ninguém cumpre. O corpo já percebeu que há qualquer coisa errada. Os pés já não acreditam em promessas. A cabeça faz contas ao que viu, ao que perdeu e ao que ainda falta ver. O telemóvel já parece um documento oficial de más decisões. Mas o festival continua. E, se o festival continua, nós também. Mesmo que seja apenas por teimosia. O último dia tinha outra energia. Já não era a descoberta do primeiro, nem o esmagamento coletivo do segundo. Era uma espécie de contagem decrescente disfarçada. Tudo parecia vir com uma legenda invisível: última volta pelo recinto, última cerveja que talvez não fosse a última, última discussão interna entre palcos, última hipótese de ver qualquer coisa que justificasse a dor nos joelhos. E havia muito para justificar.

Cheguei cedo, ou pelo menos suficientemente cedo para fingir que havia planeamento. Perdi os Aiko El Grupo, mas desta vez a perda já vinha prevista. O desgaste dos dias anteriores fez-me acordar mais tarde do que devia e, honestamente, o corpo tinha razão. Às vezes, o corpo ganha uma. O que eu não queria mesmo perder eram The Sophs. Jovem banda californiana, energia de verão, canções com aquela sensação de pipoca a rebentar na panela. Começaram com calma e, de repente, tudo saltou. Foi daqueles concertos que acordam o dia sem pedir grande licença. O vocalista mostrou logo que há ali voz, presença e futuro. A banda pareceu feliz, solta, com vontade de provar qualquer coisa. Talvez tenha sido um dos concertos mais frescos do terceiro dia. Não no sentido de “leve”, mas no sentido de trazer oxigénio. E eu precisava. Ao fim, senti-me preparado e revigorado para começar a peregrinação. Pelo menos durante uns minutos.

Para muita gente, o terceiro dia começou a sério com os Yard Act no palco principal! E fazia sentido. Há qualquer coisa neles que funciona bem ao fim da tarde: ironia britânica, guitarras tensas, baixo a marcar território e James Smith a falar como se tivesse nascido já a comentar o absurdo do mundo. Entrou em palco com energia de quem não veio apenas cantar. Veio discursar, provocar, dançar, mandar bocas, agradecer e, se fosse preciso, transformar a secção VIP num alvo legítimo. Foi preciso. Os Yard Act não precisam de grande aparato. Precisam de nervo. E isso têm. O concerto funcionou como um soco bem-disposto: político sem ficar pesado demais, divertido sem perder acidez, dançável sem ficar confortável. O público ainda estava a aquecer, ou talvez a fingir que não estava cansado. Eu também. É uma arte no terceiro dia: parecer disponível para o que ainda vem aí.

Os Yard Act ajudaram. Não foi necessariamente um daqueles concertos que mudam o festival de eixo. Mas foi daqueles que voltam a ligar a corrente. E nesta fase isso já vale muito. Caminhada sem pressa para o Palco Vodafone.

Uma grande curiosidade. Não exatamente nostalgia, mas também não exatamente presente. Uma figura histórica a voltar à atividade e parte dos Beastie Boys em palco, D mostrou que ainda há caminho para além do peso de uma banda que pertence a demasiada gente. E isso é uma missão complicada. Porque quando alguém como Mike D entra em palco, entra também tudo o que vem atrás: Nova Iorque, hip-hop, punk, samples, adolescências alheias, memória coletiva e a ausência inevitável de MCA. Mas ele apareceu vivo, comunicativo e com vontade. E isso contou muito. O concerto teve aquele lado estranho de apresentação e despedida ao mesmo tempo. Um olá ao novo material, um aceno ao passado, uma tentativa de dizer: ainda estou aqui, mas não vim apenas abrir um museu. Houve momentos mais frágeis, outros mais certeiros. Algumas piadas caíram ao lado, como acontece quando se tenta conversar com um público que talvez esteja já meio longe, meio cansado, meio à espera de outra coisa. Mas também houve vulnerabilidade. E isso salvou muito. Quando se abriu uma janela mais direta para os Beastie Boys, o público respondeu como era inevitável. Não foi arrebatador. Foi bonito. Às vezes chega ver alguém voltar ao palco sem fingir que o tempo não passou. O tempo passou. Ele sabe. Nós também.

Depois disso, a agenda deu-me algo raro: espaço. Mais de duas horas sem atrações obrigatórias. Estranhei. Um festivaleiro com tempo livre é um animal confuso. Comprei qualquer coisa para comer, duas cervejas, já a prever a dificuldade que seria comprar mais tarde, e deitei-me na relva. Sim, na relva. Sem culpa. O tempo passou até rápido, ajudado por amigos encontrados ao acaso, que é uma das melhores formas de encontrar pessoas num festival.

Palco principal: Massive Attack. Ou melhor: a tareia. Há concertos que procuram entreter. Há concertos que procuram emocionar. E há concertos que parecem olhar para o público e dizer: vamos lá ver se aguentas.

Palco principal: Massive Attack. Ou melhor: a tareia. Há concertos que procuram entreter. Há concertos que procuram emocionar. E há concertos que parecem olhar para o público e dizer: vamos lá ver se aguentas. Os Massive Attack não foram ao Primavera Sound Porto para embalar ninguém. Quem chegou à espera de um serão elegante, trip-hop confortável, pronto para filmar “Teardrop”, levou com outra coisa. Levou com o mundo. Inteiro. Na cara. Vi pessoas a sair a meio. Vi desconforto. Vi gente à procura de outro lugar onde o festival voltasse a ser apenas festival. Percebo. Mas também acho que era esse o objetivo.

Os Massive Attack não fazem propriamente concertos. Fazem máquinas de som, imagem, texto, culpa e memória. Não deixam ficar só na música. Puxam para dentro de perguntas para as quais ninguém tem grande vontade de responder às tantas da noite. As frases surgiam em português nos ecrãs, e isso fazia diferença. Não era uma mensagem distante. Era ali. Para nós. Na nossa língua. Sem a proteção confortável do inglês como ruído estético. Depois vieram as imagens, as guerras, os líderes, as empresas, a exploração, a vigilância, os telemóveis, a Palestina, a ruína. Tudo aquilo que normalmente conseguimos empurrar para fora do recinto durante umas horas. Mas ali não dava. Era impossível fingir. E talvez seja por isso que o concerto dividiu. Porque há quem vá a um festival precisamente para não pensar no mundo. E há quem aceite, mesmo a contragosto, que o mundo também entra com bilhete. Musicalmente, foi enorme. Mas o mais forte não foi só a música. Foi a sensação de estar a ser colocado contra a parede. O contexto de festival era a armadilha perfeita. Estamos ali porque podemos. Porque temos esse privilégio. Porque podemos beber, dançar, escolher palcos, reclamar de filas e decidir se queremos ou não olhar para a brutalidade do mundo. Eles tiraram-nos essa escolha durante quase duas horas. Perto do fim, “Teardrop” chegou como uma espécie de recompensa amarga. Toda a gente conhecia. Toda a gente queria. Mas depois de tudo o que tinha vindo antes, já não soava apenas bonita. Soava incomensuravelmente pesada. E a voz de Elizabeth Fraser deu ainda mais ênfase a tudo. Inesquecível!

Os Massive Attack não deram o concerto mais confortável do festival. Deram provavelmente o mais necessário. Mesmo que isso tenha estragado a noite a algumas pessoas. Talvez também fosse essa a ideia. Para mim, que fiquei, foi perfeito! Em qualquer outro dia, talvez eu tivesse ido embora dali já satisfeito. Mas ainda havia qualquer coisa a puxar. Tinha dez minutos para chegar ao palco Vodafone e sabia exatamente o caminho. Ainda tentei pensar em hidratação, esse conceito bonito que aparece sempre tarde demais. Pelo caminho, encontrei os The Sophs. Trocámos umas palavras, falei-lhes da excelente apresentação e ouvi que talvez voltassem em breve, mas sem grandes detalhes. Que venham. Estarei lá. Já sem tempo para me hidratar e sem pensar muito bem, tomei a decisão meio imprudente de correr para o Vodafone. Senti-me a correr para o encontro do caos.
E era mesmo.

Se havia dúvidas sobre onde deixar o resto do corpo naquele dia, os IDLES responderam com a delicadeza habitual. Ou seja: nenhuma. Depois de um dia já longo, apareceram para transformar o que ainda restava de energia numa catarse coletiva. E o mais impressionante é que, nesta altura, talvez já não houvesse energia real. Havia só uma reserva emocional, uma bateria falsa, daquelas que o telemóvel mostra a 3%, mas ainda aguenta mais meia hora por milagre. Os IDLES tocam nesse lugar. Joe Talbot entrou como quem tem o dever de acordar tudo à força. Punho cerrado, voz a carregar cada frase, corpo a atirar-se contra as músicas. Há nele qualquer coisa de pregador punk, mas sem púlpito. Ou melhor: o púlpito é o caos. Nesta altura do festival, ninguém precisava de subtileza excessiva. Precisávamos de impacto, suor, refrões gritáveis e guitarras a falhar bonito. É estranho quando se escreve assim. Ao vivo, faz sentido. Os IDLES têm esta coisa rara: agressividade que quer abraçar, raiva que quer construir comunidade, barulho que insiste em dizer que o outro importa. Sim, às vezes repetem. Às vezes insistem. Às vezes parece que estão a dizer a mesma coisa pela quinta vez. Mas talvez seja esse o ponto. Há coisas que, aparentemente, ainda precisam mesmo de ser repetidas. O concerto acabou como devia acabar: com o corpo a acusar o golpe e a cabeça a dizer “pronto, acabou”. Mas claro que não tinha acabado. Nunca acaba quando devia.

Ainda havia Model/Actriz. A sério? Depois de Massive Attack, qualquer coisa parecia difícil. Depois de Massive Attack e IDLES, qualquer coisa parecia impossível. Às vezes, uma banda pode estar a fazer muita coisa certa e, ainda assim, o corpo já não acompanha. O terceiro dia tem destas injustiças. O festival cobra juros. Big Thief já tinha ficado na cabeça desde o primeiro dia. Texas Is The Reason já me tinha feito voltar no tempo. KNEECAP já me tinha posto no lugar da indignação. Slowdive ainda flutuava na minha mente. Gorillaz trazia-me fantasmas. Viagra Boys, saxofone e redemoinho. The Sophs trouxe o ar juvenil de volta. Yard Act tinha ligado a corrente. Mike D tinha aberto uma porta para os Beastie Boys. Massive Attack tinha deixado o mundo inteiro em cima dos ombros. IDLES tinha rebentado a bateria.

E os Model/Actriz apareceram quando talvez já não houvesse espaço suficiente para mais uma intensidade. Não foi culpa deles. Foi do festival. Ou minha. Ou dos dois.

No fim, há sempre aquele momento estranho em que já não se está exatamente no festival, mas ainda não se saiu dele. Caminha-se pelo recinto mais devagar. Já não se olha para o mapa. Já não há estrelas a cumprir. Já não há grande coisa a salvar. O copo está vazio ou quase. Os pés doem. A cabeça mistura palcos, músicas, frases, filas, luzes, ecrãs, gente que se viu durante segundos e nunca mais se vai ver. E há uma espécie de melancolia pequena, ridícula e inevitável. Porque durante três dias o mundo fica organizado de uma forma simples: há palcos, horários, escolhas, perdas, descobertas, cerveja, comida suficiente para não cair, casas de banho a evitar, concertos que se planearam e concertos que apanharam de surpresa. Depois acaba. E volta tudo ao normal. Ou quase.

O Primavera Sound Porto voltou a ser aquilo que já se sabe que é quando corre bem: um festival onde se pode atravessar do sonho dos Slowdive ao caos dos Viagra Boys, da multidão emocional dos Gorillaz à pancada moral dos Massive Attack, da urgência dos IDLES à ironia dos Yard Act, da juventude dos The Sophs à elegância caótica de Baxter Dury, e ainda achar que faltou ver qualquer coisa.

Falta sempre. Esse é o truque. Durante três dias, tentei cumprir o plano. Falhei muitas vezes. Ainda bem. Porque um festival não se vive só pelo que se vê. Vive-se também pelo que se perde, pelo que se apanha a meio, pelo que se abandona com pena, pelo que não estava no plano e acaba por explicar o dia inteiro.

No primeiro dia, aprendi outra vez que correr entre palcos é uma forma estúpida de felicidade.

No segundo, percebi que uma multidão pode ser cansativa, irritante e, ainda assim, absolutamente necessária.

No terceiro, aceitei que já não mandava no corpo, mas continuei.
E sobrevivi.
Mais ou menos.

No fim, talvez seja isso o diário de um festivaleiro: a tentativa falhada de pôr ordem numa experiência que só funciona porque está sempre prestes a fugir do sítio. Três dias depois, saí do recinto moído, satisfeito, ligeiramente menos jovem e com a certeza absurda de que, se amanhã houvesse mais um dia, provavelmente ainda arranjava forma de voltar. Porque a vida normal é importante, claro. Mas não tem palcos suficientes.