Numa noite onde reinaram as vozes agudas perfurantes e os solos de pentatónica, os Dirty Honey demonstraram que o rock clássico é muito mais que um género datado. Com o carisma e a entrega das suas referências, a banda de Los Angeles assinou uma prestação memorável e demonstrou que o verdadeiro espírito do rock ‘n’ roll ainda anda por aí à solta.
Assistir a um concerto dos Dirty Honey é embarcar numa viagem até à primeira metade dos anos 70, período em que se deu a explosão do hard rock/blues rock. Bandas como Led Zeppelin, Free e Bad Company ajudaram a popularizar a formação clássica de um quarteto de rock que, geralmente, apresenta um frontman com uma voz bluesy poderosa e um elevado sex appeal, um guitarrista com mística apoiado num rig minimalista composto por uma Gibson Les Paul e um ou dois stacks de Marshalls, um baixista discreto mas pulsante e um baterista com uma batida reverberante que se apresenta como a espinha dorsal da banda.
Passados mais de quarenta anos, temos-nos apercebido que ainda existe todo um nicho de bandas que são adeptas desta abordagem ao rock ‘n’ roll muito mais direta, simples e crua e tudo se deve à nova vaga de bandas de rock clássico que tem adotado toda uma postura revivalista. Com nomes como Rival Sons, Greta Van Fleet e, claro, Dirty Honey, a liderar o movimento, o rock clássico tem conquistado cada vez mais fãs. Não só os mais novos, que começam a sua jornada neste género na contemporaneidade e fazem depois a viagem para trás para descobrir as origens, mas também os mais velhos que cresceram com as bandas clássicas e que depositam agora toda a sua esperança no futuro nestes novos nomes.
Provenientes dessa meca do rock ‘n’ roll que é Los Angeles, na Califórnia, os Dirty Honey são uma das bandas que mais se têm destacado dentro da cena e ainda nem cumpriram uma década de atividade. Desde alcançarem o topo da tabela Mainstream Rock Songs da Billboard como banda independente aos convites para abrirem os concertos dos The Who e Guns ‘N’ Roses com apenas o EP homónimo (2019) editado, tudo indicava que esta banda estava mesmo destinada a alcançar o estrelato.
The Bateleurs
Como já é habitual nestas tours que combinam datas em festivais, com concertos a abrir para bandas maiores e concertos como cabeça de cartaz, a escolha para banda de abertura do concerto do LAV-Lisboa Ao Vivo recaiu sobre um projeto nacional, os The Bateleurs. Com Sandrine Orsini na voz, Ricardo Galrão na guitarra, Ricardo Dikk no baixo e Rui Reis na bateria, a banda apresentou-nos o seu blues rock com várias referências retro.
Dos Big Brother and the Holding Company aos Led Zeppelin, fomos presenteados com um concerto que nos arrebatou do princípio ao fim. Em temas como “Revolution Blues”, “For All To See” e “A Price For My Soul” sentimos toda a experiência que os músicos que estiveram em cima do palco carregam às costas e isso traduziu-se numa performance com muito brio e profissionalismo. Sandrine naturalmente que roubou o protagonismo com a sua voz colossal, perfeita para cantar blues rock. O seu timbre e tessitura tanto trouxeram reminiscências de Janis Joplin como invocaram a contemporaneidade de umas Larkin Poe. Já Galrão mostrou que é possivel uma banda de abertura dispor de um tone de guitarra abafado e bem vincado no PA. Por fim, e não menos importantes, Dikk e Reis foram mestres do balanço. Do groove dos temas com mais power à pulsação mais arrastada das baladas ambos desempenharam as suas funções de forma imaculada.
Tirando um percalço repentino com o cabo do microfone que fez com que a voz de Sandrine deixasse de se ouvir por momentos e um problema semelhante com a guitarra de Galrão, os The Bateleurs apresentaram-se como a escolha certa para abrir o concerto dos Dirty Honey. O seu blues rock foi contagioso e certamente que se infiltrou no sistema imunitário de muitos novos fãs que acorreram ao LAV.

Dirty Honey
Sem os apetrechos cénicos que outros concertos exigem, os Dirty Honey subiram ao palco do LAV, com apenas o seu logo projetado, para darem uma lição de como se toca blues rock sem rodeios. “Gypsy” soltou os primeiros riffs apetitosos da guitarra de John Notto e a voz arranhada e robusta de Marc LaBelle. Mais discretas, mas sempre percetíveis na mistura estiveram as fills de baixo de Justin Smolian e a batida sempre coesa do membro mais recente da banda, o baterista Jaydon Bean.
O calor sonoro manteve-se com “California Dreamin'” e “Get a Little High”, com o público sempre empenhado em absorver toda a energia que emanava em palco. Dos refrões orelhudos aos solos hipnotizantes, do estilo digno de rockstars ao saudosismo, tudo se encontrava alinhado para deleite de qualquer amante de rock. Algo contido nas suas intervenções, LaBelle aproveitou para dedicar “Heartbreaker” a todas as mulheres presentes na sala. Com um sex appeal indiscutível, herdado das duas referências dos 70s, LaBelle sabe perfeitamente como comandar e interagir com uma plateia que se apresentou dividida sensivelmente entre 50% de mulheres e 50% de homens.
«Voámos de Barcelona e não trouxemos as guitarras acústicas. Por isso, vão ter algo diferente», disse LaBelle antes de “Down The Road”, uma balada soulful que não tem constado nas setlists dos Dirty Honey. Nas baladas o tone bem quentinho da guitarra de John Notto sobressaiu com uma clareza impar. Ao longo do concerto o músico alternou entre duas Gibson Les Paul Standard, uma Custom Shop Historic Collection ’58 de 2003 e uma “Gemini” ’59 Custom Murphy Lab. Ambas estiveram ligadas a dois half stack da Marshall, um com uma cabeça JCM 800 e outro com uma JCM 2000. Já Justin Smolian usou um baixo SLJ (Seth Lee Jones) Custom PJ de boutique, que consiste numa combinação de um braço de um Jazz Bass de 1963 com um corpo de um Precision de 1961 e pickups Bartolini. Os amplificadores usados por Smolian foram dois half stack Ampeg com duas cabeças SVT.
“Don’t Put Out the Fire” com o seu riff à la ZZ Top trouxe LaBelle para junto do público. Por momentos, o músico desapareceu do palco, e quando voltou a ser visto trazia consigo um banquinho. O frontman colocou-se então no meio do público num momento de maior intimidade com os fãs, algo que demonstrou essa proximidade que existe nos concertos de salas mais pequenas face aos grandes festivais e às grandes arenas onde os Dirty Honey também tocam a abrir para bandas mais sonantes.
Ao longo da setlist também não faltaram malhas onde o rock ‘n’ roll e as letras associadas a desgostos amorosos coexistem. Seja na mais elétrica “The Wire” ou na balada “Another Last Time”, os Dirty Honey souberam invocar toda uma costela romântica que cativou sobretudo o público feminino. Ainda antes de terminar o set principal houve espaço para um pequeno jogo de chamada e resposta entre a guitarra de John Notto e os fãs. O momento culminou no riff de “When I’m Gone”, esse êxito que gerou um falatório à volta dos Dirty Honey antes da banda ter assinado contrato com uma editora. Mais recentemente, a malha voltou a ter um novo boost ao constar na banda sonora de “Um Filme Minecraft” (2025).
Já de regresso a palco, os corações voltaram a aquecer com “You Make It All Right” antes de “Rolling 7s” encerrar o concerto numa profunda comunhão entre banda e público. Sem que LaBelle o pedisse, os fãs começaram a entoar o riff de guitarra. Impressionado, pediu a Notto para repetir mais umas quantas vezes a progressão de acordes para que pudesse filmar aquele momento com o seu telemóvel. Não estando ainda totalmente saciado do carinho que vinha do público, LaBelle ainda desceu até às grades para cantar o último refrão com os fãs. No fim, já sem música, os fãs quiseram expressar toda a sua gratidão e desejo de um regresso rápido da banda a Portugal e entoaram mais uma vez o riff de “Rolling 7s”. A banda acedeu ao jogo e deu então mais uma voltinha nos acordes. «Vocês dão-lhe bem!», exclamou LaBelle na derradeira despedida. E vocês também Dirty Honey, vocês também!

