Antes de Whitney Houston a transformar numa das baladas mais famosas da história da música, antes de chegar ao cinema e muito antes de se tornar um clássico universal, “I Will Always Love You” era uma canção de despedida escrita por Dolly Parton. Uma canção nascida de uma separação profissional, cobiçada por Elvis Presley e finalmente reinventada por Whitney Houston quase 20 anos depois.
A história começa em 1973, quando Dolly Parton decidiu abandonar “The Porter Wagoner Show”, o programa televisivo que tinha contribuído decisivamente para o lançamento da sua carreira. Porter Wagoner tinha sido seu parceiro profissional, mentor e uma figura fundamental nos primeiros anos da cantora em Nashville.
Parton queria seguir carreira a solo, mas a saída não era fácil. Depois de vários anos de trabalho conjunto, precisava de encontrar uma forma de explicar a Wagoner que a decisão não significava ingratidão e a resposta veio em forma de canção.
Durante uma tarde particularmente produtiva, Parton escreveu “Jolene” e “I Will Always Love You”, duas composições que acabariam por se tornar referências da sua carreira. No caso de “I Will Always Love You”, a inspiração estava directamente relacionada com a necessidade de terminar a parceria profissional com Wagoner.
«Eu tinha vindo para Nashville para ser a minha própria estrela», explicou Parton anos mais tarde, recordando a vontade de deixar de ser apenas a cantora que acompanhava Wagoner.
Em junho de 1973, Dolly entrou no Studio “B” da RCA, em Nashville, para gravar a canção. A produção ficou a cargo de Bob Ferguson e a versão original seria editada em single em março de 1974. “I Will Always Love You” chegou ao primeiro lugar da tabela Billboard Hot Country Songs e confirmou que a artista estava a conseguir afirmar-se por conta própria.
Elvis Presley esteve perto de gravá-la
O sucesso da composição chamou a atenção de Elvis Presley. Em 1974, Presley mostrou interesse em gravar “I Will Always Love You”. Para Parton, a possibilidade era particularmente importante. Uma interpretação de Elvis poderia colocar a sua composição perante um público muito mais vasto e associar o seu nome ao de uma das maiores estrelas da música popular. A gravação, contudo, não chegou a acontecer. Segundo o relato de Parton, Colonel Tom Parker, manager de Presley, informou-a na véspera da sessão de que Elvis só gravaria a canção caso ela cedesse uma parte significativa dos direitos de publicação. No entanto, Dolly Parton recusou.
A decisão foi emocionalmente difícil. A cantora recordou posteriormente que passou a noite a chorar depois de perceber que a colaboração não iria acontecer. Ainda assim, manteve os direitos sobre a composição. Se Elvis tivesse gravado a canção, a história de “I Will Always Love You” poderia ter seguido outro caminho. Mas a composição continuou associada a Parton e viria a ganhar uma segunda vida alguns anos mais tarde.
Em 1982, Dolly Parton voltou a gravar a canção para o filme “The Best Little Whorehouse in Texas”, no qual também participou. A nova interpretação voltou a chegar ao primeiro lugar da tabela country norte-americana.
Foi um feito significativo, já que Parton tornou-se a primeira artista a levar a mesma canção ao número um da tabela country em duas ocasiões. A canção tinha, portanto, uma carreira consolidada dentro da música country. Faltava ainda o momento que a transformaria num clássico global.
Whitney Houston agigantou “I Will Always Love You”
Em 1992, Whitney Houston protagonizou “The Bodyguard”, ao lado de Kevin Costner. A banda-sonora do filme acabaria por se tornar uma das mais bem-sucedidas da história, mas o principal êxito estava numa canção que tinha quase duas décadas. Costner terá desempenhado um papel importante na escolha de “I Will Always Love You”. Depois de ouvir uma versão de Linda Ronstadt, gravada em 1975, sugeriu que Houston interpretasse a composição de Parton.
A proposta obrigava a uma transformação significativa. A versão original de Parton era uma balada country relativamente contida. Para Whitney Houston, o produtor David Foster criou um novo arranjo, concebido para explorar a extensão vocal da cantora. A gravação começa praticamente a cappella, deixando a voz de Houston em primeiro plano. Progressivamente, a instrumentação aumenta e a interpretação culmina num dos momentos vocais mais conhecidos da música popular.
O resultado foi muito diferente da versão de Parton, mas manteve intacta a estrutura emocional da composição. Houston chegou a manifestar preocupação sobre a reacção de Parton à sua interpretação. A resposta da compositora foi entusiástica, Dolly reconheceu a dimensão da transformação e ficou particularmente impressionada com a forma como Houston tinha conseguido levar a canção para um território completamente diferente.
Lançada como single em novembro de 1992, “I Will Always Love You” tornou-se imediatamente um fenómeno internacional. Nos Estados Unidos, passou 14 semanas consecutivas no primeiro lugar da Billboard Hot 100, um recorde na altura. No Reino Unido, permaneceu dez semanas no número um e terminou 1992 como o single mais vendido do ano.
A canção valeu a Whitney Houston dois Grammy em 1994, incluindo o prémio de Gravação do Ano. O sucesso comercial foi igualmente extraordinário. A banda-sonora de “The Bodyguard” tornou-se um dos álbuns mais vendidos de sempre e a versão de Houston transformou “I Will Always Love You” numa canção conhecida por várias gerações e em diferentes mercados. A dimensão do êxito teve também consequências financeiras para Dolly Parton, que continuava a deter os direitos da composição.
É aqui que a tentativa falhada de Elvis Presley ganha particular relevância. Ao recusar a exigência de Colonel Tom Parker, Parton manteve os direitos de uma canção que quase 20 anos depois se transformaria num êxito mundial. A versão de Whitney Houston terá gerado para Parton mais de 10 milhões de dólares em royalties durante a década de 1990. Parton revelou posteriormente que utilizou parte desse dinheiro num investimento imobiliário numa zona de Nashville com uma população maioritariamente negra, associando a decisão à memória de Houston. «Pensei que aquele era o lugar perfeito para eu estar, tendo em conta que era Whitney», explicou.
É uma história que poderia ter sido muito diferente. Se Parton tivesse aceite as condições impostas pela equipa de Presley, “I Will Always Love You” poderia ter ficado associada à voz do Rei. Se Whitney Houston não a tivesse escolhido para “The Bodyguard”, talvez nunca tivesse adquirido a dimensão que hoje conhecemos.
Mas a história aconteceu de outra forma. Dolly Parton escreveu “I Will Always Love You” em 1973, a partir de uma despedida profissional. Elvis Presley quase a gravou no ano seguinte. Whitney Houston transformou-a em clássico mundial em 1992. Ficaremos para sempre sem saber como esta canção teria soado na voz do Rei.