Numa articulação perfeita entre a componente sonora e as projeções em CGI, os Enter Shikari demonstraram que continuam a dominar a cena do rock/post-hardcore eletrónico. No seu regresso a Lisboa, passados doze anos, a banda de Rou Reynolds levou os fãs numa viagem audiovisual que percorreu toda a sua discografia.
Referenciados como um dos expoentes máximos do rock eletrónico e do electronicore, os Enter Shikari são uma das bandas que melhor tem conseguido gerir esse balanço entre o legado e a atualidade. Sem nunca se submeterem a pressões do mainstream, a banda de St Albans foi evoluindo a sua sonoridade álbum após álbum, sem nunca descurar a sua matriz sonora, algo que contribui para a manutenção de uma base de fãs que continua fiel e robusta passados quase vinte anos desde o lançamento do seu álbum de estreia.
Ao vivo, a banda também apresenta um espetáculo refrescante, cativante e sempre com uma componente visual bastante vincada. No que diz respeito à escolha das setlists, e ao contrário de muitas outras bandas que parecem ter aversão ao passado e aos seus primeiros álbuns, os Enter Shikari nunca deixaram de parte dos seus concertos esses registos e sempre foram bastante democráticos na escolha de repertório de todos os seus álbuns de estúdio.
Quanto à sua relação com Portugal, esta já é algo antiga. O seu início deu-se em 2009 quando se apresentaram no então denominado Pavilhão Atlântico para tocarem na primeira parte do concerto dos The Prodigy. Após várias passagens recorrentes pelo nosso país a banda acabou por ficar afastada dos palcos deste cantinho à beira-mar plantado durante dez anos (2013-2023), com o seu regresso triunfante a dar-se no festival Vilar de Mouros 2023. Porém, tardava o regresso da banda à capital. Foi assim preciso esperar até 2025 para termos os Enter Shikari, finalmente, de volta a Lisboa pela mão da Prime Artists.

DeathbyRomy
DeathbyRomy é o alter-ego de Romy Maxine Flores. Com uma sonoridade que mistura dark pop, pop alternativo e rock, a artista procura trazer para os seus concertos uma estética que remete para o conceito de baddiecore, onde a sensualidade e a provocação fazem parte da sua performance.
Acompanhada por uma banda composta quase exclusivamente por mulheres, Romy deu a conhecer os temas da sua breve discografia que conta com dois álbuns “Monsters” (2018) e “Hollywood Forever” (2025) e três EPs. Entre a sedução de temas como “Xxx”, “I Kill Everything” e “Pray to Me”, Romy soube prender a atenção do público sem nunca perder a essência performativa de um concerto de rock e mostrou que à toda uma pop mais obscura que merece ser explorada.
Enter Shikari
Já a antecipar uma explosão de som, luz e imagem, os Enter Shikari entraram em palco com toda a pompa que se exigia para este momento de celebração com o aparato sinfónico de “Bloodshot (Coda)”. Em poucos instantes, Rou Reynolds (voz e teclados), Chris Batten (baixo, teclados e percussão), Rob Rolfe (bateria) e Rory Clewlow (guitarra), os mesmos quatro que mantêm a formação da banda intacta desde 2003 entraram pelo palco adentro para disparar “Bloodshot”. Numa explosão de sabores sonoros e visuais fomos imediatamente premiados com um vislumbre da produção exigente ao nível da CGI que se distribuiu por vários pilares e pela tela de fundo.
O rock mais radiofónico a roçar o brit pop de “{ The Dreamer’s Hotel }” trouxe uma interação de Reynolds com o público, onde o vocalista pediu para que os fãs se transformassem num coro com a metade esquerda a soltar uma nota sol e a metade direita uma nota mi. Mais à frente, em “Live Outside”, não foi sequer preciso pedir ao público um singalong no refrão, pois este surgiu de forma tão natural. Também representativa da sonoridade mais pop dos Enter Shikari foi interessante sentir esses contrastes tão naturais com os primeiros momentos de maior fúria proveniente do post-hardcore de “Anaesthetist” e da eletrónica mais vincada de “THE GREAT UNKNOWN”.
«Não me lembro da última vez que tocámos um concerto como cabeça de cartaz em Lisboa. Por isso, já deve ter sido há muito tempo», constatou Chris Batten antes dos fãs relembrarem o músico que esse concerto tinha sido em 2013 na já extinta sala TMN Ao Vivo, situada no Cais do Sodré.
Sem grandes pausas, os Enter Shikari chegaram a “Juggernauts”, malha que com o seu synth riff transportou-nos diretamente para 2009, ano em que electronicore despertou e deu a conhecer projetos influentes como Asking Alexandria e I See Stars. Os seus versos em spoken word debruçados numa certa consciencialização económica e social foram entoados por Rou em uníssono com os fãs. A exploração de outros subgéneros da eletrónica como o techno, trance e o dubstep vieram ao de cima em “Arguing With Thermometers”, “Destabilise” e “Sssnakepit”, com esta última a invocar um circle pit.
Quando Chris Batten se preparava dar início a “Jailbreak” eis que surgiu uma falha técnica no seu Novation Launchkey 49 MK4 WH. Após um compasso de espera o problema ficou resolvido e a banda pôde prosseguir com o concerto. Além do Novation, Chris recorreu aos seus baixos, Ernie Ball Music Man Stingray de 5 e 4 cordas conectados a um Kemper. Na secção dos teclados, Chris tinha ainda quatro sampling pads. Já Rory Clewlow utilizou uma Fender Telecaster Ultra com uma ponte Evertune também ela conectada a um Kemper e, tal como Chris, Rory também utilizou em palco um controlador MIDI Novation Launchkey 49 MK4 WH.
O concerto já ultrapassava a hora de duração e a ânsia de ouvir o hino “Sorry, You’re Not a Winner” extravasava. Sem qualquer tipo de introduções, eis que começamos a ouvir a introdução eletrónica em crescendo até esta desembocar no riff que culmina com a icónica salva de três palmas.
O concerto já ultrapassava a hora de duração e a ânsia de ouvir o hino “Sorry, You’re Not a Winner” extravasava. Sem qualquer tipo de introduções, eis que começamos a ouvir a introdução eletrónica em crescendo até esta desembocar no riff que culmina com a icónica salva de três palmas. Apresentada na versão remix dos Pendulum este foi certamente o ponto mais alto do concerto, que por esta altura já se aproximava do fim, com “The Last Garrison” a marcar as primeiras despedidas.
Para o encore, “Meltdown” trouxe o último cheirinho a rave antes da emotiva e esperançosa “A Kiss for the Whole World x” deixar uma mensagem positiva para esta realidade distópica para qual, infelizmente, estamos a caminhar.
Após o concerto foi momento de refletir que passados dezoito anos do lançamento do seu álbum de estreia, os Enter Shikari não se mostram datados. Pelo contrário, souberam renovar-se e desenvolver uma presença ao vivo ainda marcante e necessária. Nos seus álbuns, assim como nos seus concertos, os fãs sabem que poderão sempre contar com uma fusão que alia o passado com o presente e o futuro.
















































































