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ENTREVISTA | À descoberta do Tons of Rock, o gigante do rock no coração de Oslo

27/04/2026

Se nunca ouviste falar do Tons of Rock, está na altura de conheceres um dos festivais mais relevantes da Europa para fãs de rock e metal, um evento que tem crescido de forma consistente e que hoje reúne alguns dos maiores nomes do género no coração de Oslo.

O Tons of Rock consolidou-se como o maior e mais importante festival de metal e rock da Noruega, uma jornada que começou em 2014 na histórica Fortaleza de Fredriksten, em Halden, com os Slayer como grandes cabeças de cartaz. Após anos de crescimento e uma mudança estratégica para a capital, Oslo, em 2019, o festival transformou-se num fenómeno de audiências, atraindo hoje cerca de 40.000 pessoas por dia ao Ekebergsletta.

Para a edição de 2026, o cartaz destaca-se pela sua amplitude e arrojo: enquanto lendas como os Iron Maiden e Alice Cooper asseguram o legado do rock clássico, o festival aposta na ascensão meteórica de Yungblud como um dos cabeças de cartaz. Esta mistura eclética estende-se ao metal mais extremo, contando este ano com as prestações icónicas dos Behemoth, Bring Me The Horizon, Limp Bizkit, e dos Mayhem entre outros, garantindo que o “coração de Oslo” continue a bater ao ritmo do rock em todas as suas vertentes.

A conversa é com Jarle Kvåle um dos responsáveis do festival norueguês. Mais informações sobre o festival em www.tonsofrock.no.

JB: Vamos falar do Tons of Rock. Antes de mergulharmos na edição deste ano, conta-me um pouco sobre a história do festival. Como é que começou? Penso que a primeira edição foi em 2014. Como surgiu a ideia de criar um festival tão grande na Noruega?
Jarle: Bem, fomos três pessoas que se juntaram com o desejo de criar um festival de metal e rock ao ar livre na Noruega. Na altura não tínhamos nada assim. Sabíamos que isso faltava no país. Decidimos ir para um lugar pequeno chamado Halden e encontrámos uma boa localização. Ligámos para os promotores da Live Nation e dissemos: “Queremos os Slayer”. E conseguimos os Slayer. E assim começou.

JB: Começaram logo com estrondo. Ter os Slayer no primeiro ano não é para qualquer um.
Jarle: Não, tivemos um alinhamento fantástico logo no primeiro ano. Foi um início muito bom, embora um pouco caótico, como é normal num festival deste nível feito pela primeira vez. Depois tivemos alguns anos difíceis para tentar estabelecer o evento. Não vendíamos bilhetes suficientes e o início foi incerto. Mas, em 2016, as coisas mudaram quando conseguimos a digressão de despedida dos Black Sabbath. Isso foi fundamental para equilibrar as finanças. Sem essa reserva, teria sido difícil continuar.

JB: E entretanto mudaram de localização. Em termos de acessos e melhorias, é um lugar muito melhor agora, não é?
Jarle: O primeiro local era incrível e atmosférico, mas tinha grandes desafios logísticos e de produção. Além disso, era difícil atrair as pessoas até lá. Mudámo-nos para Oslo e agora estamos no coração da cidade, a 30 minutos a pé da estação central. É um espaço verde enorme, muito mais fácil para grandes produções. O local que temos agora é magnífico.

JB: Para quem não é da Noruega e ouve falar do Tons of Rock pela primeira vez, qual é o principal atrativo?
Jarle: Acho que o facto de ter um festival tão grande no coração de uma capital é algo único. Tudo é acessível a pé, podes explorar Oslo, a natureza e os pontos turísticos. É muito fácil voar para aqui de qualquer parte da Europa.

JB: E para quem não quer acampar, é fácil encontrar alojamento?
Jarle: Sim, perfeitamente. Temos campismo junto ao festival, mas esgota depressa. No entanto, Oslo tem imensos hotéis, desde pequenas unidades de charme a grandes hotéis de luxo, além de muitas opções de Airbnb. Os transportes são ótimos, temos os nossos próprios autocarros do festival e também o metro.

JB: Eu sou de Portugal e, normalmente, à uma da manhã o transporte público desaparece. Nos países nórdicos parece ser diferente.
Jarle: Sim, aqui funciona muito bem. Além disso, o festival encerra à meia-noite (o último concerto é às 23h). Isso permite que as pessoas voltem para a cidade ou continuem a festa nos bares de Oslo. Como abrimos portas ao meio-dia, as pessoas começam a chegar cedo e apreciam esse horário.

JB: Falemos do alinhamento deste ano. Têm o Yungblud no terceiro dia, o que para os “metalheads” mais puros pode ser confuso. O que vos levou a alargar horizontes desta forma?
Jarle: O festival sempre teve uma grande variedade, desde o rock “mainstream” ao “black metal” norueguês mais extremo. A carreira do Yungblud explodiu no último ano de forma insana. Eu vi o espetáculo dele no Reino Unido no verão passado e a resposta foi incrível; até as bandas de metal mais antigas querem tocar com ele. É importante tentar desenvolver o festival acompanhando estes movimentos. Adoro ter um misto de Iron Maiden e Alice Cooper com Behemoth e Mayhem no mesmo dia que o Yungblud. O público está a responder muito bem.

Adoro ter um misto de Iron Maiden e Alice Cooper com Behemoth e Mayhem no mesmo dia que o Yungblud. O público está a responder muito bem.

JB: E isso atrai um público mais jovem que acaba por descobrir outras bandas.
Jarle: Exatamente. Vemos nas sondagens que as pessoas acabam por ver bandas que normalmente não iriam ver. Podes vir pelo Yungblud ou Bring Me The Horizon e acabar na tenda a ver Mayhem. Os noruegueses são muito abertos musicalmente, e os convidados internacionais apreciam esta mistura de estrelas mundiais com as bandas que tornaram a Noruega famosa na cena metal.

JB: Preparar um festival destes deve levar o ano inteiro. Quando começaram a escolher as bandas para este ano?
Jarle: Basicamente há dois anos. Neste momento já estamos a fazer propostas para 2027 e até para 2028. A maioria das bandas confirma-se no outono anterior, cerca de 8 a 10 meses antes, mas o processo começa muito cedo.

JB: Já tiveram nomes como Slayer, Black Sabbath, Iron Maiden, Metallica, Guns N’ Roses, Pantera, Kiss… Há alguma banda que ainda não tenham conseguido e que gostariam de trazer?
Jarle: Adoraria ter uma reunião dos Led Zeppelin! [risos] Mas há sempre novas bandas a crescer. Temos tido muita sorte e uma boa reputação. As bandas gostam de tocar aqui, apreciam os fãs e a nossa equipa local. Quando tivemos os Metallica, a nossa equipa foi ver alguns espetáculos deles antes para se prepararem e conhecerem a equipa técnica deles. Esse profissionalismo no acolhimento às equipas técnicas das bandas é fundamental, porque se eles estiverem felizes e tiverem um bom ambiente de trabalho, a banda também estará feliz.

JB: Qual foi o pedido mais estranho que já receberam de uma banda?
Jarle: Houve uma vez em que um artista achou que o aeroporto era demasiado longe. Ele viu que existia um aeroporto mais perto que tinha sido encerrado e perguntou se podíamos reabrir o aeroporto para ele. Infelizmente, não temos esse poder.

JB: O que é que o público mais pede nas vossas sondagens para melhorar o festival?
Jarle: Conveniência em todos os aspetos: variedade de comida e bebida, poucas filas, boas casas de banho. O básico. Também temos desenvolvido outras atividades, como sessões de cinema, comédia e pequenos palcos, o que as pessoas apreciam, pois passam aqui muitas horas. E também áreas para sentar e descansar entre concertos.

JB: Este ano houve mudanças na disposição dos palcos. Porquê?
Jarle: Queríamos ter bandas maiores no segundo palco principal e melhorar a experiência do público com uma melhor produção e visibilidade. Isso também nos permitiu trazer uma tenda nova para o palco secundário, com a mesma capacidade (11 a 12 mil pessoas), mas com melhor formato.

JB: Qual é a capacidade total do Tons of Rock?
Jarle: Agora ronda as 40.000 pessoas por dia.

JB: 40.000! É um número impressionante para a Noruega.
Jarle: Sim, para um país pequeno como o nosso, é fantástico que um festival de metal e rock atinja estes números. Este ano os bilhetes voaram. Os passes de quatro dias esgotaram rapidamente, algo que nunca nos tinha acontecido tão cedo. Parece que os noruegueses e os convidados internacionais gostam mesmo disto.

JB: Então esta é a maior edição de sempre.
Jarle: Sim, é. Não aumentámos muito a capacidade (apenas cerca de 500 pessoas extra por dia), porque não queremos sacrificar o conforto. Podíamos vender mais 5.000 bilhetes, mas a experiência do público seria pior.

JB: Existe a ideia de expandir a marca Tons of Rock para outras edições, como uma de inverno?
Jarle: Sim, já fazemos pequenas coisas durante o ano, como o “kickoff” de inverno em Oslo. Agora lançámos uma edição nas montanhas [Tons Til Fjells] para cerca de 800 pessoas, num local lindíssimo. A natureza norueguesa reflete-se muito nas nossas bandas e quisemos criar algo pequeno mas único. A resposta foi incrível, com 70% dos bilhetes vendidos no primeiro dia.

JB: Falando na natureza na Noruega que é maravilhosa, por que razão a Noruega tem tantas bandas de “black metal”?
Jarle: Talvez porque a natureza é bela, mas também pode ser aborrecida (risos). Precisas de ação na vida! O ambiente é majestoso, mas pode ser muito escuro e dramático, o que inspira músicos, pintores e escritores. É uma natureza intensa.

JB: É interessante ver como as bandas nórdicas misturam géneros como por exemplo os AGABAS, que fazem uma mistura de jazz e o death metal.
Jarle: Sim, as bandas aqui não gostam de estagnar. Mesmo as bandas de “black metal” de há 35 anos desenvolveram-se e mudaram de estilo. É fantástico ver essa evolução.

JB: Vi uma banda portuguesa que ainda gravava em cassete…
Jarle: Eu adoro bandas “retro”, mas hoje em dia ainda bem que temos outras opções!

JB: Jarle, muito obrigado pelo teu tempo. Tudo de bom para o Tons of Rock. Esperamos ver-nos no verão, de preferência sem chuva.
Jarle: Nós garantimos o sol norueguês! Muito obrigado pelas perguntas e pelo tempo. Vemo-nos no festival.

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