roots sepultura

ENTREVISTA | Andreas Kisser (Sepultura): Há 30 Anos a Celebrar as Raízes

19/02/2026

No ano em que o marcante e inovador álbum “Roots” dos Sepultura celebra o seu 30º aniversário e com o aproximar do derradeiro concerto da banda em Portugal no Rock in Rio Lisboa 2026, a Arte Sonora revela agora uma entrevista muito especial realizada com Andreas Kisser em 2016.

2026 é um ano em cheio para os fãs dos Sepultura. Não só marca o 30º aniversário do álbum definitivo da banda, “Roots”, mas também representa o culminar de uma longa tour de despedida que, naturalmente, irá passar por Portugal a 21 de Junho para um concerto no Rock in Rio Lisboa.

Ao longos dos anos, a Arte Sonora estabeleceu vários contactos com a banda brasileira. Uma dessas conversas teve lugar em 2016, numa conversa com o guitarrista e líder da banda Andreas Kisser aquando do 20º aniversário de “Roots”. Com o conjugar de uma efeméride importante para a banda com a sua despedida dos palcos voltamos a recordar as palavras de Kisser.

Das curiosidades reveladas por Kisser relativamente ao seu gear e à boa relação que tem com a Jackson ao papel do “Roots” no desenvolvimento da identidade sonora da banda e na sua explosão internacional, este é um mimo que damos a todos os fãs dos Sepultura num ano muito especial para a banda.

Em 2016 assinalam-se vinte anos do “Roots”. Para muita gente, este é o álbum que em termos de som melhor define os Sepultura. Concordas?
Gosto de todos os álbuns, para mim é difícil escolher um. Obviamente que o “Roots” teve mais impacto pela sua época, pelo momento em que saiu, precisamente quando o nu metal estava a começar a surgir. Mas, acho que todos os álbuns dos Sepultura são muito importantes para mim, todos têm uma característica diferente, têm um objetivo e conquistaram algo novo na nossa carreira. Mas, claro, que o “Roots” é um álbum fantástico, é um privilégio ter feito parte de um projeto tão especial, tão maravilhoso e de uma reflexão e pesquisa profunda sobre as nossas próprias raízes musicais. Desde os índios xavantes à influência dos escravos, com os percussionistas, à própria influência das grandes cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte. É um álbum onde fomos verdadeiramente a fundo nas nossas raízes, e ao mesmo tempo, é um trabalho que mostra que a banda estava muito desunida, fora dos ensaios, fora dos palcos. Não só o Max acabou por sair, como também despedimos a nossa empresária, tudo através desse processo do “Roots”. Mas eu também gosto muito do “Arise” (1991) e do “Chaos A.D.” (1993) e acho que o “Against” (1998) é o disco mais importante da nossa carreira. Após a saída do Max foi o que manteve a banda junta. Mas lá está, também adoro o “Nation” (2001) e o “Kairos” (2011), este último também considero um disco muito importante. Enfim, para mim eu vejo que cada um tem a sua vida, a sua história.

É lógico que o “Roots” foi um dos mais populares da história dos Sepultura. Até hoje, se ouvires o “Roots”, parece que foi feito ontem, é um disco muito vivo, muito orgânico, muito real, e é muito bom saber que depois de vinte anos é um disco que influencia e que ainda tem esse poder de mexer com as pessoas.

É um álbum onde fomos verdadeiramente a fundo nas nossas raízes, e ao mesmo tempo, é um trabalho que mostra que a banda estava muito desunida, fora dos ensaios, fora dos palcos. Não só o Max acabou por sair, como também despedimos a nossa empresária, tudo através desse processo do “Roots”.

E vocês, na altura, tinham noção que estavam a criar uma sonoridade tão marcante? Ao trabalharem com o Ross Robinson foi ele que trouxe muitas coisas ou veio muito dessa pesquisa que vocês fizeram?
O Ross Robinson foi o quinto membro em estúdio, o nome e a participação dele foram fundamentais para essa sonoridade do “Roots”. Tanto na nossa intenção de fazer as coisas acontecerem daquela maneira quanto na ajuda relativamente ao local e ao equipamento. Então foi um processo em conjunto. O produtor no estúdio realmente é parte da banda. O Ross teve a liberdade de trazer as suas opiniões, as suas intenções e trabalhámos em conjunto. Aliás, o Ross e o Andy Wallace que misturou o álbum. Acho que essa dupla foi fantástica. Foi fundamental contar com essa dupla a trabalhar connosco para que conseguíssemos alcançar essa sonoridade.

Em relação ao Andy, foi muito difícil o trabalho de mistura? Tendo captado coisas tão dispares, como amplificadores com distorção em sala e uma tribo a fazer música convosco no meio da selva.
Estávamos realmente, num momento da nossa carreira, com muitas condições e com confiança de todos à nossa volta para fazer o que entendêssemos. Se quiséssemos ir para Marte para gravar uma música teríamos conseguido. Tínhamos mesmo muito apoio. O “Chaos A.D.” já tinha sido um grande sucesso, foi um álbum que mostrou o som original, mais característico dos Sepultura. E o “Roots” foi um produto das condições e privilégios que todas as bandas sonham ter. Apoio total da editora, com os músicos super criativos a pensar em coisas que antes poderiam ser absurdas, como ir ao encontro de uma tribo e fazer uma música juntos. Enfim, conseguimos fazer tudo isso através desse apoio e daquele momento especial que vivemos nos anos 90.

Nos álbuns mais recentes dos Sepultura, particularmente no “Kairos”, a tua performance destaca-se bastante. Aquando da review do álbum até apelidámos-te de “Eddie Van Halen do thrash metal”. Ainda praticas muito guitarra? Pois existe a sensação de que nunca estagnaste tecnicamente.
Sem dúvida. Acho que temos que ter contacto diário com o instrumento. É algo que faço naturalmente. Além dos ensaios, dos concertos e das muitas tours com Sepultura, eu gosto de tocar outros estilos musicais. Gosto de tocar blues com os meus amigos, estudo guitarra clássica na medida do possível, quando tenho tempo para me dedicar a isso. E passo muito tempo com o instrumento. Acho que é necessário para qualquer profissional. Depois tens o privilégio de viajar pelo mundo, de conhecer outras bandas, outros músicos e outras culturas, o que traz ideias novas e diferentes formas de ver um instrumento, de tocar guitarra e de fazer música.

Agora passando para o gear. Como é que está o teu rig atualmente?
Continuo com o material de sempre. Tenho os meus amplificadores da Orange, o Rockerverb Mk II. Também tenho as minhas guitarras Fender Stratocaster, Jackson Randy Rhoads e Charvel. Ah! e tenho uma guitarra brasileira da marca Seizi. Em termos de pickups gosto de variar entre EMG e Seymour Duncan. Enfim, é o equipamento que eu venho a utilizar há alguns anos.

A minha primeira guitarra, na verdade, foi uma Charvel em 1987, guitarra que usei praticamente em todos os álbuns dos Sepultura.

E como é que tem sido a relação com a Jackson agora já como endorser da marca?
Ah, fantástica! Tenho uma relação com a Jackson há mais de 20 anos. O Randy Rhoads foi um dos guitarristas que mais me influenciou na minha carreira e esse modelo é fantástico. É um modelo completamente diferente de qualquer outro. O Randy Rhoads teve uma felicidade enorme de ter feito um design que ficou muito popular. Mas, além das Jackson, também uso a Charvel (ambas fazem parte do grupo da Fender). A minha primeira guitarra, na verdade, foi uma Charvel em 1987, guitarra que usei praticamente em todos os álbuns dos Sepultura. Mas sim, tenho uma relação muito saudável com a Jackson. Ao mesmo tempo que tenho essa possibilidade de usar os instrumentos deles, também tenho essa liberdade de usar outras guitarras de outras marcas. E isso, para mim, é perfeito. De acordo com os projetos, de acordo com as músicas, poder usar instrumentos diferentes é fantástico. E ao mesmo tempo ter esse suporte dessa grande empresa é realmente um sonho.

Também estás a usar alguns modelos Soloist, não é? Tens preferência entre esta e a Randy Rhoads?
Cada guitarra tem uma característica diferente. Inclusive, tens vários modelos da guitarra do Randy Rhoads que são um pouco diferentes uns dos outros. Tens aquela edição original, tens a minha preta que é da década de 90, tem uma mais recente. Mas, o que eu mais gosto do modelo Randy Rhoads, além do formato, é o braço. Eu gosto do braço um pouco mais grosso e acho que se adapta muito bem ao formato e tamanho da minha mão. É a guitarra com a qual me sinto mais confortável. Apesar de usar outros instrumentos.

Estavas a falar nas guitarras brasileiras, nas Seizi. Estás a desenvolver algum modelo de assinatura? Que especificidades é que considerarias para fazer a tua guitarra ideal?
Para mim isso não existe. Não existe uma guitarra ideal, pois uso vários tipos de instrumentos. Como disse, tenho várias marcas e tenho a acessibilidade para usar instrumentos diferentes. Pensei em desenvolver um instrumento aqui no Brasil, com essa marca a Seizi, e fui para um lado mais Stratocaster. Enfim, não tenho essa pretensão ou intenção de ter um instrumento perfeito. Acho que a Jackson Randy Rhoads já está bem perto da perfeição, pelo menos para mim. Então não tenho muito esse interesse, de inventar muita coisa nova só para dizer que é um instrumento diferente. Na verdade, a ideia da Seizi é um projeto que conversámos, mas que ainda não foi para frente ainda.

Além das Seizi, tu também usas amplificadores de uma marca brasileira, a Meteoro, uma marca ainda pouco conhecida em Portugal. Poderias descrever um bocado as suas características?
Já não uso os Meteoro há uns quatro ou cinco anos. Neste momento estou a usar os Orange. Mas sim, os Meteoro surgiram numa boa época em que tive a possibilidade de desenvolver uma cabeça. Eu usei Mesa/Boogie durante muitos anos e através deles acabei por desenvolver essa cabeça. Trabalhei com eles durante oito ou dez anos e foi um período muito bom de conhecimento. Para quem não conhece é uma empresa que está forte aqui no Brasil e que faz vários tipos de amplificadores.

PRÓXIMOS EVENTOS