ENTREVISTA | Arde Bogotá: da sala de ensaios em Cartagena aos estúdios de Los Angeles

ENTREVISTA | Arde Bogotá: da sala de ensaios em Cartagena aos estúdios de Los Angeles

15/05/2026

Os espanhóis Arde Bogotá estreiam-se em Portugal com dois concertos em Maio, que prometem confirmar o fenómeno crescente da banda fora de Espanha.

Os Arde Bogotá passaram por Portugal nos dias 15 e 16 de maio para dois concertos no Sagres Campo Pequeno, em Lisboa, e na Super Bock Arena, no Porto, com a data portuense esgotada, depois de a banda ter transferido ambos os espetáculos para salas de maior dimensão devido à elevada procura. À conversa com a Arte Sonora, Antonio García e José Ángel Mercader falaram sobre a formação da banda em Cartagena, a importância dos concertos ao vivo na identidade do grupo, as sessões de gravação em Los Angeles com o produtor Joe Chiccarelli e o próximo álbum, previsto para o final do ano. Entre histórias de estrada, energia de palco e a descoberta de Portugal pela primeira vez, os Arde Bogotá mostram porque se tornaram um dos fenómenos mais fortes do novo rock espanhol.

AS: Bem-vindos a Portugal, antes de mais. Para aqueles que não têm noção do que é Arde Bogotá, como é que se formaram como banda? Como é que tudo começou?
Antonio García: Foi em 2017, creio. Estes três tipos já tocavam juntos porque o Jota e o Dani tinham partilhado uma banda alguns anos antes; essa banda acabou por separar-se e teve diferentes formações. Eles tinham boas memórias de tocar juntos, por isso estavam apenas a improvisar. Procuraram um baixista e o Pepe apareceu porque é do liceu. Estiveram a divertir-se a tocar os três juntos durante o verão e começaram à procura de um vocalista; experimentaram vários. Uma noite encontrei o Dani num bar e disse-lhe que andava a fazer música e a tentar escrever algumas canções. Falámos muito sobre a cena do rock espanhol, o que pensávamos sobre isso, como soava e por aí fora. Ele disse-me: «Porque não me envias uma das tuas canções e, se for porreira, procuro uma banda para ti». Era a banda dele. Então, enviei-lhe uma nota de voz de mim a tocar a canção e a guitarra e, no dia seguinte, estávamos os quatro a ensaiar. Houve logo um clique desde esse momento até hoje.

AS: E o nome da banda? Porque é algo que, se traduzirmos literalmente para português, significa «Bogotá a Arder». Como é que chegaram a esse nome?
Antonio García: Não tivemos um durante muito tempo. Na verdade, tivemos nomes diferentes. Até fizemos um concerto com um nome diferente enquanto procurávamos. Já tínhamos um par de demos e fui a Bogotá visitar uns amigos; toquei-lhes as demos e eles gostaram mesmo. Foi a primeira vez que alguém gostou genuinamente de uma canção nossa e ficámos maravilhados. Voltei, contei a história aos rapazes e já tínhamos a parte do “Arde” mais ou menos pensada, e eles disseram: «Porque não fazemos isto?». Foi ideia dele. Eu disse que não, mas o resto disse que sim. Foi três contra um e geralmente é assim que as coisas funcionam na nossa banda. Portanto, esse é o nosso nome agora.

AS: Muito bem. Vocês vão dar dois concertos em Portugal. O de Porto já está esgotado. Para aqueles que não foram ao YouTube e vivem debaixo de uma rocha, o que se pode esperar de um concerto ao vivo de Arde Bogotá?
José Ángel Mercader:
É um espetáculo muito, muito, muito potente, porque somos uma banda muito potente, pelo menos na nossa sala de ensaios. Tentamos sempre fazer muito barulho e fazer o que sempre quisemos e o que sempre ouvimos, que era todo o tipo de música rock. Acabámos por nos conhecer melhor em palco, não só como banda, mas também como pessoas. Tornámo-nos amigos por causa deste trabalho. Por causa disso, o que podem esperar é muita química, uma boa relação com o público e demasiada energia. “Demasiada” soa a negativo, mas digo no bom sentido porque somos muito românticos. Muitas canções, muitos altos e baixos. É como uma viagem. É uma viagem super porreira.

AS: As canções ao vivo costumam ser mais enérgicas do que nos álbuns?
José Ángel Mercader: Oh sim, sem dúvida! Crescemos na banda sabendo que somos uma banda de “ao vivo”. O nosso forte é a atuação ao vivo. Adoramos criar canções e gravá-las em estúdio, mas tornamo-nos nós próprios, o nosso eu real, quando tocamos em palco porque nos esquecemos de quem somos. Acho que temos uma persona real de quem realmente somos logo ali no palco. E podem ver isso nas nossas canções; tendemos a criar músicas que, quando as ouves, soam mesmo a atuações ao vivo. Divertimo-nos imenso no palco.

Crescemos na banda sabendo que somos uma banda de “ao vivo”. O nosso forte é a atuação ao vivo. Adoramos criar canções e gravá-las em estúdio, mas tornamo-nos nós próprios, o nosso eu real, quando tocamos em palco porque nos esquecemos de quem somos.

AS: Portanto, quando as pessoas forem a um concerto de Arde Bogotá, é bom que estejam preparadas para libertar energia também.
Antonio García:
É o que se espera delas. É uma exigência.
José Ángel Mercader: É um requisito nosso e do público.

AS: Lançaram um novo single, «Instrucciones». Gravaram em LA, nos EastWest Studios com o Joe Chiccarelli. Primeiro, porquê LA? O Joe, obviamente — refiro-me a alguém que começou com o Frank Zappa e trabalhou com nomes como Jason Mraz, Morrissey… a lista de artistas dele é infinita. Porque decidiram seguir esse caminho?
Antonio García: Estávamos à procura de um produtor estrangeiro. Trabalhámos com vários produtores aqui, todos mentes incríveis e tipos talentosos com quem adoraríamos trabalhar novamente. Mas para este disco, queríamos alguém que nos empurrasse para fora da nossa zona de conforto. Pensámos que, se fosse alguém que não fizesse ideia do que se passa em Espanha, de quem somos lá ou da cena dos festivais espanhóis, nos veria com outra perspetiva. O Joe recebeu as canções e adorou-as. Ficou um pouco obcecado por elas, no bom sentido. Ele disse: “Pessoal, porque não vou a Cartagena ter convosco, vou ao vosso estúdio de ensaios e improviso com vocês?“. E assim foi. Ele veio e seduziu-nos com toda a sua energia, a vibração e o estilo de vida californiano. Perguntámos onde deveríamos gravar e ele disse que o melhor seria LA ou Marselha. Eu dizia “por favor, Marselha, por favor, Marselha“, não queríamos ir para tão longe. Mas a editora disse que o estúdio em Marselha era incrivelmente caro e que devíamos ir para LA. Por isso, fomos para LA.

AS: E estar em LA, tão longe de casa, fez-vos focar mais na gravação? Menos distrações, por assim dizer.
Antonio García: Sem dúvida. Também tornou tudo mais difícil, creio. Estávamos tão focados que não dava para escapar ao processo — nós os quatro a viver numa casa juntos, a trabalhar seis dias por semana, a todas as horas do dia. Ficas um pouco obcecado com cada arranjo ou cada pequena coisa. Somado ao facto de sentirmos, não vou dizer pressão, mas sim uma certa expetativa sobre o que viria a seguir para a banda. Foi um processo estranho. Mas o Joe estava tão confiante no que estávamos a fazer que foi o nosso suporte. Sobre «Instrucciones», ele costumava dizer: “Os vossos ‘haters’ não podem odiar isto“.

AS: Ele deu muito “input” nos arranjos e melodias, ou confiou no que vocês tinham?
Antonio García: O estilo de produção dele connosco baseava-se numa metáfora: “O meu trabalho é abrir portas. Eu abro portas novas, vocês olham para elas e decidem se querem atravessar ou não“. Ele abriu muitas portas e desafiou-nos a entender as canções de forma diferente. Ele sabe o que quer, mas nunca impõe nada. Houve portas onde ele nos empurrou bastante, mas o passo final era nosso. O disco continua a ser algo muito natural para a banda; um passo em frente, mas algo que já estava dentro de nós. Ele apenas nos mostrou coisas que éramos capazes de fazer e que não sabíamos.

AS: Sentiram-se mais confiantes como músicos ao sair dessa sessão em LA?
Antonio García: Sim, de certeza. Ele pôs-nos a gravar os quatro juntos numa sala, a olhar uns para os outros, umas 20 vezes por canção. Eu dizia que, mesmo que nada daquilo ficasse porreiro, pelo menos sairíamos de lá melhores músicos.

AS: Alguma canção foi à primeira?
José Ángel Mercader: Isso é irrealista. Somos uma banda muito exigente. Mesmo quando gravamos com o telemóvel no meio da sala a criar canções, gravamos cinco ou seis vezes. Pensamos e repensamos muito. A mais fácil foi a primeira que entrou no álbum, e creio que foram oito ou nove passagens.
Antonio García: Sim, e foi no primeiro dia. Ele já sabia claramente que íamos começar por essa canção porque seria a mais fácil. Fizemo-la e pensámos: “Ótimo, isto vai ser super fácil“.
José Ángel Mercader: Mal sabiam nós!

AS: Quanto tempo durou a sessão de gravação em LA?
Antonio García: De dezembro a fevereiro. Tivemos uma pausa, voltámos no Natal e depois regressámos.

AS: E podem dizer quando sai o álbum? Algum mês?
Antonio García: Calculo que no final deste ano. Ainda não é certo porque estamos a verificar as misturas e masterizações, mas algures por aí.

AS: E depois destes concertos, quais os planos para o resto do ano?
Antonio García: Temos esta digressão europeia agora e um concerto grande em Espanha, em Tenerife, a 1 de agosto. Depois disso, se conseguirmos lançar o disco, vamos tentar apresentá-lo. Como o José disse, fizemos estas canções a pensar em tocá-las, por isso estamos ansiosos.

AS: Pensam tocar o disco todo ao vivo?
José Ángel Mercader: É uma conversa pendente, mas idealmente, sim. Adoramos tocar as canções novas e talvez quatro ou cinco êxitos antigos. Mas o que acham da ideia de apresentar um álbum agora que temos tantas músicas, dando 80% do espetáculo a coisas novas? É interessante e mantém o público atento. Vai ser divertido ver que canções funcionam e como conectam com as pessoas.

Mas há exemplos de artistas que conseguem transitar entre os dois países, como o Salvador Sobral. Talvez esse seja o caminho para criar uma cena cultural forte em toda a península. A música do Salvador Sobral é muito interessante, talvez por ter essa mistura dos dois lados, certo?

AS: Então podemos esperar que voltem cá no próximo ano com o disco?
José Ángel Mercader: A Lisboa, Portugal em geral. Espero que sim. Por mim voltava já no próximo mês, até começava a trabalhar num café. Estamos a adorar isto.
Antonio García: Gostamos mesmo de Lisboa. Passeámos hoje; o Dani já cá tinha estado, mas o resto de nós não. É uma cidade muito porreira.
José Ángel Mercader: Vir a Portugal é excelente. É a nossa primeira vez, e há muita gente de Espanha que não consegue ir aos nossos concertos lá e vem aqui à fronteira. Há 20 minutos estava a pensar: “Podemos mesmo vir a este país e divertirmo-nos em qualquer sala com pessoas de Portugal, de Espanha ou de onde for“.
É porreiro porque faz parte da geografia ibérica, podes criar uma grande digressão incluindo Portugal. É maravilhoso.

AS: É a vantagem de ser uma banda espanhola, porque normalmente para uma banda internacional vir a Portugal, precisa de tocar em Espanha. Se não tocam em Espanha, não vêm a Portugal.
José Ángel Mercader: É pena que nem todas as bandas o façam, porque podiam dar dois ou três concertos em salas pequenas e qualquer banda conseguiria fazê-lo.
Antonio García: Há que ter em conta a barreira linguística — como o público português recebe música espanhola e vice-versa. Mas há exemplos de artistas que conseguem transitar entre os dois países, como o Salvador Sobral. Talvez esse seja o caminho para criar uma cena cultural forte em toda a península. A música do Salvador Sobral é muito interessante, talvez por ter essa mistura dos dois lados, certo?

AS: Obrigado a todos. Aproveitem os concertos e espero ver-vos em breve.
Antonio García: Obrigado. Gracias.