ENTREVISTA | Aston Barrett Jr. (The Wailers Band): A Herança Espiritual de "Family Man"

ENTREVISTA | Aston Barrett Jr. (The Wailers Band): A Herança Espiritual de “Family Man”

Os The Wailers Band protagonizaram no Rock in Rio Lisboa 2026 um dos concertos mais positivos e relaxantes de toda esta edição do festival. O seu repertório canónico, aliado a uma conexão profunda com o público, resultou numa autêntica festa de paz, amor e unidade.

Aston Barrett Jr. é muito mais que o simples líder musical dos The Wailers Band. É uma espécie de guia espiritual, um profeta, que tem procurado manter viva a mensagem de deus (jah), a música que a veicula, o reggae, e o legado familiar que carrega em palco. Talvez tenha sido por isso, que os cinco minutos de conversa que tivemos com ele no Rock in Rio Lisboa 2026 tenham rapidamente resvalado para um discurso profundamente místico e com conotações divinas.    

Alguns dos membros originais estiveram connosco, mas a maioria deles já morreu. Agora, eu tenho que fazer o trabalho do meu pai, porque o meu pai era o rei do reggae e eu o príncipe.

Esta lineup dos The Wailers não tem nenhum elemento original. No entanto, quando se trata de música reggae, parece que a mensagem veiculada é muito mais importante que os músicos que a tocam. Concordas com isso?
Bem, os “membros originais” ainda estão aqui. Porque o Aston “Family Man” Barrett era um dos originais quando o Bunny Wailer e o Peter Tosh estavam na banda Bob Marley and the Wailers. Quando se tornou a The Wailers Band foi quando o “Family Man” e o Carlton Barret decidiram continuar. Então, ninguém pode dizer que é isto ou aquilo quando eu estou a fazê-lo. A razão para tal, é que o meu pai ensinou-me como ensinar as pessoas e a música. É por isso que quando ouves os The Wailers Band soamos à banda original. Mas, nós não vamos por aí. Somos pessoas positivas e tocamos para as pessoas. Não vamos à procura dessa negatividade. Esta música vem do céu. Não é uma música normal. Então, foi por isso que o meu pai ensinou-me. Eu venho da linhagem do homem que criou a música. O Bob é o chefe e o mensageiro. Qualquer um pode cantar a mensagem, no entanto ninguém pode cantar a mensagem como o Bob, porque o Bob é um anjo. Ninguém na Terra é como ele, além dos seus filhos, porque há uma linhagem. Mas, o meu pai foi quem criou a música, independentemente da participação dos outros músicos que tiveram também a sua parte. Eu respeito-os a todos e chamo-os de meus tios. Nós temos que olhar para uma imagem maior, não olhamos as coisas como físicas, olhamos para elas como espirituais. O meu pensamento continua a mover-se para a frente, eu não fico na negatividade nem sou egoísta. Alguns dos membros originais estiveram connosco, mas a maioria deles já morreu. Agora, eu tenho que fazer o trabalho do meu pai, porque o meu pai era o rei do reggae e eu o príncipe.

Como é que está o reggae na Jamaica nos dias de hoje?
Bem, eu saí da Jamaica quando tinha 12 anos. Quando estava lá o reggae ainda estava em cima, mas era uma mistura de dancehall. Nessa altura a música ainda era respeitada. Na altura em que saí o reggae não era tão respeitado. Nós, como jamaicanos, temos tanta influência no mundo, e temos que perceber que a nossa música, e a música do Bob Marley e dos The Wailers, influenciou tantas pessoas pelo mundo fora a fazer o bem. Lembrem-se, o Bob Marley e os The Wailers não eram inicialmente famosos na Jamaica, os jamaicanos não compreenderam o Bob Marley. Eles diziam, ele é isto e ele é aquilo, mas quando ele se tornou grande todos quiseram abraçá-lo, não só na Jamaica, mas no mundo em geral. Nós continuamos a fazer o nosso trabalho, porque quando há um momento de dor, é o momento em que todos querem fugir para os braços de Deus, e é o momento em que querem fugir para a música reggae.

Os The Wailers Band tocaram no Rock in Rio Lisboa 2026 a 27 de Junho. Podes ler aqui a review desse concerto.