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ENTREVISTA | Bryan Beller e o universo de “Duck”: quando um pato vira o centro de uma viagem musical dos The Aristocrats

14/05/2026

Os The Aristocrats regressam a Portugal nos dias 14 e 15 de maio com a “The Duck Tour”, no Hard Club no Porto e República da Música em Lisboa.

Antes da passagem pelo nosso país, o baixista dos The Aristocrats, Bryan Beller, falou connosco sobre o novo álbum a solo que acabou de terminar, a química única entre os três músicos, o humor que marca os concertos da banda e o universo surreal criado em torno do disco “Duck”. Entre histórias de estrada, improviso e reflexões sobre o papel da música, o músico norte-americano garante que o trio continua focado em oferecer ao público muito mais do que apenas virtuosismo técnico.

AS: Têm sido dias ocupados para ti ou tens conseguido relaxar?
Bryan Beller: Bem, eu… deixa-me só fechar uma coisa num segundo. Espera um momento. Pronto. Tenho estado a trabalhar em… sabes, tenho estado em casa e no trabalho, numa espécie de isolamento, porque estive a escrever um novo álbum a solo, que acabei de compor agora. Estive a trabalhar nele durante seis meses. Foi o que fiz maioritariamente nos últimos meses. Já passaram oito anos desde a última vez que o fiz. Por isso, acho que já estava um pouco atrasado.

AS: E seis meses depois, estás feliz com o resultado final?
Bryan Beller: Sim, quer dizer, sou muito minucioso quando faço coisas a solo. Crio a demo completa, bateria, teclados, baixo, guitarra. Tento tocar guitarra na demo — não sou um excelente guitarrista — porque preciso de ver e ouvir a coisa toda, e isso leva-me muito tempo, sempre. Uma coisa é escrever três músicas para os The Aristocrats. Outra coisa é escrever um álbum inteiro sozinho. E os The Aristocrats têm algumas limitações de formato porque são apenas guitarra, baixo e bateria. Os arranjos tendem a ser um pouco mais simples, embora nem sempre seja um trio completamente simples. Mas no meu material próprio, sou mais expansivo, por isso demora muito mais tempo. Mas sim, estou feliz. Estou feliz com o resultado. Acabei-o mesmo ontem à noite. E agora vamos fazer a digressão europeia dos The Aristocrats, que estou ansioso por começar, e depois volto e trabalho mais a sério no álbum.

AS: Cool. Vamos começar por essa digressão europeia. Vai ser uma digressão longa, uns dois meses, algo assim. Vocês têm dois concertos em Portugal, 14 e 15 de maio, Porto e Lisboa. O que é que podemos esperar (“what the duck”) desses espetáculos?
Bryan Beller: Bem, é o nosso espetáculo da digressão «Duck». E, sabes, é engraçado, a Europa está no fim do nosso ciclo de digressão agora; os nossos horários ficaram todos baralhados depois do confinamento da COVID. A Europa não costumava ser a última no ciclo, mas esta é a terceira vez consecutiva que fazemos o mundo inteiro e a Europa fica para o fim. E é como se estivéssemos a guardar o melhor para o fim, porque a Europa é um dos nossos lugares favoritos. Obviamente, o Marco e o Guthrie são do Reino Unido e da Europa, por isso estão no continente. Temos muita da nossa base lá, mesmo eu sendo americano. Estamos ansiosos por isso. Acho que trazemos um espetáculo muito forte. Há muito material do novo álbum, mas também alguns clássicos pelo meio.

Decidimos que cada um trazia três músicas e logo víamos o que acontecia. Acabou por ser uma fórmula de sucesso, por isso continuámos a copiá-la. “Se não está estragado, não se mexe”, como costumamos dizer.

AS: E falando dos The Aristocrats, mencionaste que quando escreves para a banda, só tens de escrever três músicas. Como é que vocês chegaram a essa decisão de cada um escrever três músicas para cada disco?
Bryan Beller: Começou no início como a forma padrão de o fazer. Quando estávamos a fazer o primeiro álbum, pensámos: “o que é que queremos fazer?”. Porque depois daquela jam e do concerto, percebemos que íamos fazer um álbum. Então decidimos que cada um trazia três músicas e logo víamos o que acontecia. Acabou por ser uma fórmula de sucesso, por isso continuámos a copiá-la. “Se não está estragado, não se mexe”, como costumamos dizer.

AS: E como é que soubeste… fizeste aquela jam e obviamente há química entre os três. Quão importante é ter essa química para conseguir fazer um álbum e, principalmente, uma digressão?
Bryan Beller: É tudo. E não apenas isso, o que nós pensamos é apenas parte da imagem. É o que o público pensa. Quando tocámos aquela primeira vez, pensámos que seria apenas uma vez. Não tínhamos um grande plano. Não tínhamos plano nenhum. O concerto quase nem aconteceu — isso é outra história. Então, quando o fizemos e o público reagiu daquela maneira… todos nós já fizemos muitos concertos e vimos como eles reagiram. Pensámos: “OK“. Sentimos isso. Só ensaiámos uma vez. Tocámos as seis músicas do set uma única vez, exatamente. Fomos música a música e dizíamos: “Ok, acho que isto está a funcionar, vamos para a próxima“. E depois fomos tocar. Acho que muito disso fala por si só. E não quero parecer arrogante, é apenas que aquele foi o reforço que recebemos de pessoas que estavam a sentir o mesmo que nós. Se sentirmos sozinhos e o público não sentir, então não significa nada.

AS: Sim. Eu já vi alguns concertos vossos. E, além da virtuosidade musical que vocês têm, há muito de comédia e diversão no espetáculo ao vivo. É importante, além de saber tocar, entreter o público entre as músicas?
Bryan Beller: Acho que é importante para nós, porque somos os The Aristocrats e essa é a reputação que construímos. Não esperaria que todos os atos de fusão instrumental chegassem lá e dissessem: “Olá, como estão todos?“. Nem toda a gente é assim. Mas acontece que tanto eu, como o Marco e o Guthrie, já tínhamos feito clínicas individuais antes. Fazer uma clínica exige muito de ti como indivíduo para manter a atenção do público. Geralmente tocas com faixas gravadas, o que é excitante para as pessoas verem, mas não é o mesmo que um concerto ao vivo. Também falas sobre equipamento e respondes a perguntas. Por isso, cabe-te a ti ser divertido para entregares a mensagem do que tentas dizer como artista. Acho que isso nos deu prática em dominar o palco de uma forma que seja, esperamos nós, divertida, mesmo tocando música instrumental, apenas pela conversa entre as músicas. Isso acabou por se traduzir quando começámos a dar concertos juntos. Acho que foi assim que se desenvolveu, porque nenhum dos trabalhos que tivemos antes como músicos de apoio (sidemen) envolvia estar ao microfone a fazer o público rir. O Marco tocava com o Adrian Belew — eles não contavam piadas entre as músicas. Eu estive em palco com o Steve Vai — não se contam piadas entre as músicas. O Guthrie tocou com os Asia… não havia histórico disso nos nossos concertos, mas havia nas nossas clínicas.

AS: Sim. Mas para mim, como fã de música, quando vou a um espetáculo ao vivo, espero normalmente mais do que apenas a música. Obviamente, com os The Aristocrats não espero um espetáculo como os Kiss, com pirotecnia e luzes por todo o lado, mas é importante dar aos fãs mais do que apenas a música. Se quisermos ouvir o disco, ouvimos o disco. Ao vivo esperamos um pouco mais. Vocês estão conscientes desse lado de entretenimento da música, que alguns fãs às vezes não gostam quando se fala da música como entretenimento?
Bryan Beller: Nós não somos picuinhas com isso. Estamos aqui para tocar muitas notas e para “gozar com o prato”, divertirmo-nos um pouco — essa é a ética do Frank Zappa resumida numa frase. Estamos aqui para tocar muitas notas e não levar a coisa demasiado a sério. Há bandas que levam as coisas a sério e isso é totalmente aceitável. As pessoas vão a concertos de Nine Inch Nails para ouvir o Trent Reznor contar piadas? Não. Imagino que os The Pineapple Thief não sejam propriamente um espetáculo de stand-up comedy, certo? Cada artista é diferente. Isto é o que nós fazemos. Não estou aqui para fazer grandes comentários sobre mais nada além de nós; cada um tem a sua cena e está tudo bem.

Então pensámos: “Estamos a fazer um álbum conceptual sobre um pato!“. E depois: “E se todas estas músicas não fossem sobre o que nos aconteceu a nós, mas sobre o que aconteceu a este pato?“. Isso deu origem a uma conversa livre no estúdio.

AS: E voltando ao disco «Duck», lançado em fevereiro de 2024… mencionámos aquelas três músicas de cada um. É fácil ter ideias para os The Aristocrats? Vocês sabem exatamente o que querem dizer instrumentalmente aos fãs? Existe algum modelo ou fórmula?
Bryan Beller: Bem, sim, estás a perguntar se há uma fórmula. Eu diria que, geralmente, agora que estamos no nosso quinto álbum, percebemos que quando escrevemos músicas queremos contar uma história de alguma forma. Geralmente é uma história de algo que aconteceu a um de nós. “Isto aconteceu e fez-me pensar nisto, por isso decidi escrever uma música que soasse assim“. Ou “ouvi este género de música e quis ver se conseguia escrever algo parecido“. Por exemplo, «Aristoclub» é uma música de dança dos anos 90. E «This Is Not Scrotum», obviamente, é uma paródia à “ballroom fusion”. A música do Guthrie, «Here Come the Builders», é suposto soar como uma Big Band, mas tocada por um trio de rock. E a faixa-título do Marco era suposto ser como uma música antiga de R&B, mas claro que não é bem assim. Tudo isto veio de histórias — às vezes a história é boa, às vezes é parva, mas é normalmente sobre coisas que nos aconteceram. O que foi diferente neste álbum é que, quando nos juntámos e fizemos o habitual de partilhar as músicas e as suas origens, houve uma conversa entre mim e o Marco. Ele tinha uma música chamada «Sitting with a Duck on a Bay» e trouxe outra curta chamada «Duck’s End». Sugeri que puséssemos essa no fim de outra música dele, «And Then They Were Just Us». Nós não costumamos interferir na composição uns dos outros, mas ele aceitou. Mas a sequência ia fazer com que a música do pato ficasse no início e a outra no fim. Percebemos que era engraçado, como o «Sgt. Pepper’s», tens o início e o fim. Então pensámos: “Estamos a fazer um álbum conceptual sobre um pato!“. E depois: “E se todas estas músicas não fossem sobre o que nos aconteceu a nós, mas sobre o que aconteceu a este pato?“. Isso deu origem a uma conversa livre no estúdio. Estávamos a fazer a entrevista de bastidores para a edição especial e estávamos literalmente a inventar a história à medida que avançávamos. O Guthrie juntou-se e criámos esta coisa enorme em tempo real. Acabámos por fazer o que chamamos de “retcon” (continuidade retroativa). É quando num filme ou série algo acontece e depois, numa sequela, muda-se o significado do que aconteceu originalmente. Foi o que fizemos. Em retrospetiva, criámos esta história sobre um pato onde coisas terríveis e estranhas lhe acontecem: cresce numa ilha, envolve-se numa luta com pinguins e tem de fugir porque um pinguim polícia o expulsa da ilha. E afinal há uma conspiração onde os pinguins gerem um império fascista… toda esta loucura. Portanto, se me perguntas se há uma fórmula… definitivamente não houve uma fórmula para o que aconteceu neste álbum.

AS: Obviamente, com cinco discos, escolher um alinhamento torna-se mais difícil. Como é que escolhem as músicas?
Bryan Beller: Vamos discutindo. Quando chegamos a um set que sabemos que funciona como espetáculo, tendemos a manter-nos fiéis a ele. Deixamos o improviso para dentro das músicas — brincamos com pequenas partes mantendo a estrutura da música, porque acreditamos em melodias. Mas não mudamos o set todas as noites. Acreditamos em entregar um espetáculo que realmente funcione, e a única maneira de saber se funciona é levá-lo em digressão. Decidimos o alinhamento antes e o início da tour é sempre uma aventura para ver o que resulta ou o que precisamos de trocar. Mas acabamos por estabilizar num setlist que funciona para aquele continente ou dependendo de há quanto tempo não vamos lá.

AS: Mencionaste que para ver se as músicas funcionam… quando tocam músicas novas ao vivo, já aconteceu perceberem que podiam estender certas partes ou que soa melhor de forma diferente?
Bryan Beller: Nós somos uma banda de rock fusion. Provavelmente não somos uma “jam band” onde o público espera que a música mude para direções inesperadas e uma música de 5 minutos passe a ter 15 porque nos apeteceu — os Phish são um grande exemplo disso. Nos EUA são enormes e as pessoas esperam isso. Nós não fazemos bem isso. Temos as nossas músicas e mantemo-nos fiéis à forma. Há partes abertas ao improviso que podem ser mais longas ou curtas, mas não creio que aconteça como descreves, de estarmos a meio de uma música e olharmos uns para os outros e decidirmos tocar mais 10 minutos. Isso não acontece.

AS: E sobre as digressões… temos uma guerra a decorrer agora, o preço do petróleo a subir, o combustível para os autocarros mais caro. Como é que isso afeta uma banda que vai estar na estrada dois meses? Como equilibram o orçamento com esta subida de preços? Sei que é cada vez mais caro para uma banda estar na estrada.
Bryan Beller: Bem, não creio que ninguém queira ver as nossas folhas de cálculo para ficar entusiasmado com o concerto. Fazer digressões é sempre um desafio; o negócio da música nunca é fácil. Temos a sorte de ter pessoas que querem ver os nossos concertos. Esperamos que o máximo de pessoas possível apareça, porque a partir do momento em que decides fazer a tour, as despesas são o que são. É sempre um risco. Temos de ir para lá, tocar a melhor música possível, dar o melhor espetáculo e esperar que as pessoas apareçam. Na Europa está sempre a acontecer alguma coisa. Lembro-me da primeira vez que vim à Europa, com o Wayne Kramer (guitarrista dos MC5) em 1999. A guerra nos Balcãs rebentou pouco antes e devíamos ter ido à Sérvia. Obviamente não fomos. Há sempre qualquer coisa. Tens de ir e fazer. Se não podes ir a algum lado, não vais. Com os Aristocrats, tivemos a sorte de tocar em Moscovo e São Petersburgo na digressão «You Know What?» mesmo antes do confinamento, em março de 2020. Quando poderemos voltar lá? Quem sabe. Estamos gratos por conseguir chegar aos sítios onde conseguimos chegar.

AS: E como músico, a Inteligência Artificial incomoda-te ou achas que é uma ferramenta que podes usar para melhorar?
Bryan Beller: Não sei se estou aqui para comentar esse tipo de coisas. O mundo é um lugar complicado. Acho que, idealmente, o propósito da arte e da música é dar às pessoas um refúgio disso. É um lugar onde as emoções podem ser traduzidas em algo que não é linguagem. É um sentimento. Quando ouço as minhas bandas favoritas, estou a sentir algo — se estou em baixo ou entusiasmado, procuro certas músicas. Não preciso de fazer uma declaração ou escrever sobre isso. Experienciar o sentimento que a música me dá é um alívio do que quer que esteja a sentir. É para isso que estamos aqui. Num mundo que não tivesse isso, acho que seria um lugar mais triste.

AS: Tens tocado com grandes músicos ao longo dos anos. Alguma vez ficaste “starstruck” (deslumbrado) por tocar com alguém?
Bryan Beller: No início, sim. Quando tinha os meus 20 e poucos ou 30 anos, fazer coisas para o Steve Vai foi tipo “Uau! Meu Deus, é o Steve Vai!“. Estava na Berklee College of Music quando saiu o «Passion and Warfare», lembro-me do impacto gigante que teve. Mas como continuei a ser contratado pelas pessoas que todos amamos, percebi que ia fazer parte daquilo. Olhava para eles na música instrumental e rock fusion — Steve Vai e Joe Satriani são dois exemplos — mas depois isso parou. Quero conseguir relacionar-me com eles como seres humanos, e é isso que eles querem. Tenho tido a sorte de trabalhar com pessoas muito terra-a-terra que só querem ver a sua visão musical executada por pessoas em quem confiam. É disso que se trata.

AS: E para ti, Brian, o que te levou a escolher o baixo como o teu instrumento? Como é que isso aconteceu?
Bryan Beller: Não é uma história muito inspiradora, devo dizer. Era miúdo, tinha 8 anos e comecei a ter aulas de piano clássico porque estava muito interessado em música. Mas era um miúdo difícil, com pouca capacidade de atenção. Os meus pais disseram: “Ok, se queres música tens de estar na orquestra da escola“. E eu não queria nada estar na orquestra. Então, como forma de protesto — tinha 10 anos na altura — escolhi o instrumento mais detestável da orquestra. Pensei que eles não iam querer carregar com aquilo e conduzir-me pela cidade com um contrabaixo acústico gigantesco no banco de trás. Mas enganei-me. Eles levaram-me. Então comecei a tocar contrabaixo na orquestra, a tocar Mozart e coisas do género, e eu só pensava: “Isto não é o que eu quero fazer. Eu quero tocar Led Zeppelin e Pink Floyd. Porque é que estou a fazer isto?“. Por isso, uns anos mais tarde, mudei para o baixo elétrico.

AS: E depois desta digressão dos Aristocrats, quais são os planos? Já mencionaste terminar o álbum a solo, mas além disso, há mais digressões?
Bryan Beller: Há. Mas há um par de projetos em preparação de que ainda não posso falar porque estão a ser formados. Por isso, só posso dizer: fiquem atentos, a continuar.