Uma avalanche que nos leva ao encontro de tigres da serra, a um coro de mudos e a bruxas do caramelo. É assim que nos é apresentado “Trópico Paranóia”, o trabalho mais recente dos Expresso Transatlântico, lançado este ano.
Gaspar e Sebastião Varela e Rafael Matos são um trio lisboeta que nos apresenta música instrumental onde a guitarra portuguesa se encontra num triângulo amoroso com a guitarra elétrica e a bateria. Este ano, regressam com “Trópico Paranóia”, o disco mais recente da banda que decidiram baptizar de Expresso Transatlântico.
Num género de relação à distância, os três decidiram enveredar pela música juntos. Gaspar Varela, à data, encontrava-se em digressão nos EUA com, nada mais, nada menos, Madonna. O convite para o encontro com a Rainha da Pop dá-se em 2017, quando Madonna convida o músico para a acompanhar pela tour “Madame X”. Em 2019, rumou então aos Estados Unidos para apresentar sonoridades tradicionais através da guitarra portuguesa e lá ficou até Março de 2020.
«Às vezes marcávamos chamadas por Zoom ou Skype para falar um bocado e enviávamos as ideias das malhas por e-mail. Quando acabou a tour, voltei para Portugal e a Covid aconteceu. Nós queríamos os três tocar juntos e começámos a pensar: ok, então bora mesmo ter uma banda», confessou Gaspar Varela em entrevista à Arte Sonora.
O EP homónimo abriu caminho para um bilhete de identidade que deu acesso à entrada na cena musical: uma fusão de tradição e modernidade. Esta mescla não só foi aclamada pela crítica, mas sobretudo pelo público. «Acho que a receção foi boa, a malta curtiu e conseguimos dar alguns concertos, o que foi fixe», afirma.
A partir daqui, foi sempre a subir. No ano seguinte, os Expresso Transatlântico participaram na abertura da WOMEX 2022 (Worldwide Music Expo), a maior feira de negócios e festival de música independente do mundo. Além disso, começaram a surgir colaborações de grande peso, onde Gaspar Varela destaca o featuring com Conan Osiris que «é um artista cheio de talento e percebeu perfeitamente para onde é que estávamos a querer ir.»
«Pelo menos para nós… São músicas mais pesadas, refletem os tempos que estamos a viver hoje em dia, especialmente enquanto três jovens que vivem em Lisboa.»
Depois de tanta bebida musical, acordamos já em 2023 com uma “Ressaca Bailada”, um trabalho que consolidou a vertente festiva dos Expresso Transatlântico. «Este álbum surgiu à medida que íamos dando concertos pelo país. É uma música mais para festa, mais para dançar», explica-nos o músico. Três anos de espera e, no primeiro mês de 2026, o grupo presenteia-nos com “Trópico Paranóia”, um disco com uma mensagem mais densa.
Gaspar Varela confessa que é um álbum com mais peso que os anteriores. «Pelo menos para nós… São músicas mais pesadas, refletem os tempos que estamos a viver hoje em dia, especialmente enquanto três jovens que vivem em Lisboa.»
A guitarra portuguesa abre o disco. Ecoa a melodia que depois é acompanhada com bateria e com a guitarra elétrica, num ambiente quase vindo das trevas. A sensação é estarmos num sítio em que não devemos estar e tentamos fugir. São quase 3 minutos de uma “Avalanche” de emoções. O tema nasceu de várias residências criativas. «Deixámos que as coisas chegassem até nós. Temos sempre uma reflexão e um cuidado diferente que até agora não tínhamos dado às outras músicas», explica Gaspar Varela.
A faixa dois é a música homónima ao álbum e é aqui que entramos dentro de uma banda sonora digna de um filme de Tarantino. Desde ação, suspense e melodias tradicionais que, por qualquer razão inexplicável, nos fazem lembrar climas desertos e de perseguição, “Trópico Paranóia” é extremamente bem conseguido.
Nesta viagem musical, seguimos para “Tigre da Serra”, onde Gaspar Varela dá-nos a luz que necessitamos para compreender esta peça musical. «É uma homenagem ao nosso produtor musical, que é o Paulo Furtado, o Legendary TigerMan. Combinámos um tigre, num sítio onde fizemos a nossa primeira residência – Manteigas, perto da Serra da Estrela -, onde tínhamos uma vista para a Serra lindíssima. Foi daí que veio o nome.»
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“Bairro Fantasma” dá ênfase ao riff da bateria que abre caminho para cada uma das guitarras brilharem a solo. É uma viagem sonora per si.
Já o tema 5, “Flor Trovão”, é uma faixa que transpira a essência deste “Trópico Paranóia”. A canção, apesar de nos convidar para a dança, é uma viragem artística da banda. «É um pouco isso, apesar de ser dançável, convida-nos a colocar a mão na consciência. É o nosso ponto de viragem», afirma o guitarrista. É o tal plot twist dos Expresso Transatlântico nesta nova fase: sonoridades animadas, mas que carregam uma mensagem crítica e consciente sobre o presente.
O disco apresenta-nos “Fuji ao Nevoeiro”, “Bruxa do Caramelo”, “Coro dos Mudos”, “Fim de Festa” e “Canção para a Madrugada”. Todos estes temas, só pelo título, podiam ser faixas de intervenção – e quiçá assim o são porque, na verdade, convidam-nos indubitavelmente a questionar sobre o presente. Desde melodias que nos provocam revolta, emoção e que são saídas de um thriller, toda esta viagem musical é um convite à reflexão mascarado de trajes de felicidade ingénua.
Destaca-se “Não Pares o Povo”, um tema mais ritmado, consistente e que, melodicamente, nos leva a colocar mãos à obra. Um convite para a vocalização dos nossos apoquentos? Talvez.
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Gaspar Varela ainda nos fala de “Nikita Punk”, a última canção que falta abordar neste longa-duração. Deixámos para o fim porque é o tema que nos revela a vertente mais eletrónica e combatente dos Expresso Transatlântico. A banda tenciona, através de Nikita Punk, explorar e transformar a frustração em energia: «No fundo, estávamos a sentir que queríamos fazer uma música mais eletrónica, a puxar para os lados mais eletrónicos. Aproveitámos a Nikita Punk para o fazer», esclarece. «Ao mesmo tempo, também tem um pouco de frustração talvez, e então puxamos esse sentimento para a frente. É do género: estamos na luta, é para lutar». “Nikita Punk” é então fruto da eletrónica e da atitude punk.
Os Expresso Transatlântico têm dado vários concertos, depois de terem esgotado a Casa da Música, no Porto, e o Capitólio, em Lisboa. O próximo é já no dia 19 de Junho, onde vão marcar presença no Rock Nordeste e mostrar este projeto ao vivo.
“Trópico Paranóia” reflete, portanto, uma nova imagem dos Expresso Transatlântico, que não perde a essência do tradicionalismo português conjugado com instrumentalidade moderna. Este casaco que vestem é um pedido de reflexão, um grito de guerra, uma obsessão tropical.