(c) Inês Barrau

ENTREVISTA | Ian Shelton (Militarie Gun): Uma Missão Ao Serviço do Hardcore Alternativo

Com meia dúzia de anos de carreira os Militarie Gun já conseguiram deixar uma marca bem vincada na cena alternativa. Demasiado alternativos para o hardcore e demasiado hardcore para os alternativos, a banda de Los Angeles tem conseguido congregar fãs das duas fações numa experiência sonora que privilegia o caráter emocional da música.

Na antevisão dos dois concertos que os Militarie Gun deram em Portugal, o vocalista Ian Shelton sentou-se com a Arte Sonora para uma conversa. Desde a estreia em Portugal à gravação do mais recente álbum “God Save the Gun”, passando pelo crescimento do hardcore alternativo e pela filosofia DIY que ainda rege os seus concertos e a sua forma de trabalhar, Ian mostra que apesar do crescimento da banda, os Militarie Gun vão continuar a ser fieis às suas raízes.

Como é que o Porto está a tratar-vos?
O Porto está a tratar-nos bem até agora. Chegámos aqui um dia mais tarde do que esperávamos por causa do voo. Mas, estou animado para tocar aqui.

O vosso primeiro concerto em Portugal foi no Porto, no Primavera Sound 2024. Que memórias tens desse concerto?
O Primavera Barcelona foi um dos melhores concertos que demos. Então, chegámos ao Porto com expectativas muito altas, mas houve uma grande mudança e fomos parar ao palco principal. Nesse palco havia muitas pessoas à espera do headliner que era a SZA, e nós tocamos um estilo de música muito diferente da SZA, portanto as pessoas à frente não estavam contentes, mas as pessoas atrás dessas estavam. Então foi um momento muito divertido, uma espécie de choque cultural com uma banda de rock barulhenta a tocar para um conjunto de pessoas que estavam à espera de alguém que canta de forma brilhante.

Nesta tour estão a trabalhar com o fotógrafo português e realizador Manuel Casanova. Como é que conheceste o trabalho dele e quando é que trabalharam juntos pela primeira vez?
Nós conectámo-nos através das redes e no Primavera Sound foi a primeira vez que nos conhecemos, no lobby do hotel em Barcelona. Ele é uma das nossas pessoas favoritas. Adoramos tê-lo connosco o mais que podemos.

Agora vamos falar um pouco sobre os álbuns. Dizem que uma banda tem a vida toda para escrever o seu primeiro álbum, e só seis meses para escrever o segundo. Então, como foi o processo de composição de “God Save the Gun”, considerando as incríveis reviews que o vosso primeiro álbum teve em 2023? Sentiste alguma pressão?
Não senti pressão nenhuma porque já tínhamos a maioria do álbum escrito quando o “Life Under the Gun” foi lançado. Então, para nós, foi um momento de confiança ao sabermos que as músicas que tínhamos no bolso eram do género: «Se gostas deste álbum, então o próximo vai ser muito melhor.» Obviamente entendemos a responsabilidade de fazer um álbum que os nossos fãs gostem, mas ao mesmo tempo, a coisa que mais nos importa é fazer a música que queremos ouvir e sentir a progressão dentro de nós mesmos e a empurrar-nos para a frente. Sabíamos que estávamos a fazer isso, sabíamos que estávamos satisfeitos com isso, e pensávamos que as músicas eram melhores. Como estamos sempre a escrever tivemos tempo para aprimorar, porque quando o “Life Under the Gun” foi lançado, já tínhamos feito tanto, que era do género: «Aqui é onde pode ser melhor, estes são os tipos de músicas que precisamos de escrever para encher os buracos e as sequências.» Então, foi ótimo. Sinto a pressão, mas é agora. Sinto que o “God Save the Gun” foi esse primeiro álbum, e tudo o resto foi uma preparação para isso, e agora estamos num momento de perceber para onde vamos no próximo. Não temos o próximo álbum escrito como fizemos na última vez.

Sinto a pressão, mas é agora. Sinto que o “God Save the Gun” foi esse primeiro álbum, e tudo o resto foi uma preparação para isso, e agora estamos num momento de perceber para onde vamos no próximo. Não temos o próximo álbum escrito como fizemos na última vez.

Gravaram o álbum em dois estúdios icónicos, o estúdio 606 dos Foo Fighters e o The Church em Londres. Como foi essa experiência?
Apenas gravámos a “Thought You Were Waving” no 606 e fizemos algumas vozes para a “B A D I D E A” e algumas camadas no The Church, o resto foi gravado num estúdio chamado Big Bad Sound, em Los Angeles.

O álbum tem duas faixas muito interessantes: a introdução “Pt.II” e o interlúdio “Isaac’s Song”. Explica-nos o conceito por detrás destas composições.
Quando terminámos a “B A D I D E A” sabíamos que era a abertura para o álbum, mas sentimos que não estava a preparar o ouvinte para entender o que era o trabalho num todo. Então percebemos que precisávamos de um momento de melancolia para estar antes da intensidade. Sentíamos que seria desonesto deixar o álbum começar com uma música divertida, porque o caminho pelo qual somos levados é para baixo e não é muito divertido. Foi muito importante encontrar algo que realmente forjasse a jornada emocional do álbum.

“Isaac’s Song”, similarmente, foi um momento para reerguer o ouvinte do momento desesperado de “I Won’t Murder Your Friend”, porque esse é o ponto baixo do álbum que representa a ideia à volta do suicídio. Por isso, foi importante ter um reset, e acho que a letra do Isaac Brock serve como reconhecimento de uma saúde mental deteriorada. De que a vida pode ser má. Mas, muitas vezes estamos a convencer-nos que é pior do que realmente é, porque é assim que nos sentimos. Queríamos um momento sóbrio para fazer a sequência. Inicialmente a colaboração estava sobre a “Thought You Were Waving”, elas já estavam ligadas, e sendo assim fez todo o sentido na sequência.

Falando agora da cena hardcore é inevitável dizer que existe um antes e um depois dos Turnstile. Neste momento estamos a testemunhar uma maior experimentação e fusão com outros géneros, particularmente com o rock alternativo. Como vês este desenvolvimento e esta nova vaga de bandas que estão a emergir como os Militarie Gun, os High Vis e os Secret World?
Acho que a experimentação é anterior aos Turnstile. Olhando para os 2010s tiveste bandas como os Ceremony a lançar o “Rohnert Park” (2010), os Give com uma guitarra muito melódica, mas vozes agressivas. Os Fucked Up foram uma banda muito importante para qualquer pessoa da minha idade. E o que estas bandas tinham era um trabalho experimental ao nível das guitarras melódicas, mas vozes não melódicas. Eu por exemplo toquei numa banda entre 2012 e 2018 chamada Seattle’s New Gods, uma banda de rock alternativo, que não tem nada que ver com os Turnstile. Nós já estávamos a fazer isto. Se ouvires os Seattle’s New Gods e depois ouvires os Militarie Gun percebes a continuação. Mas, obviamente que a perceção cultural é totalmente diferente e influencia inevitavelmente um monte de impostores que tentam forçar algo. Os Militarie Gun começaram antes do “Glow On” (2022) ter sido lançado. Então é mais ou menos um acidente de momento por termos sido apanhados na onda. Mas nós agradecemos porque adoramos os Turnstile e adoramos os álbuns deles. Mas é sem dúvida engraçado ser associado a esse movimento cultural.

Considerando que as pessoas vos reconhecem como uma banda de hardcore ainda têm aquela ética de fazer concertos DIY? Ainda gostam de tocar em salas pequenas e sem barreiras?
Sim, estamos a fazer isso. É o que sempre fizemos. Não mudou nada. Nós apenas fizemos uma tour sem equipa e fizemos tudo sozinhos. Fizemos o nosso próprio merch. Somos uma banda DIY, somos pessoas DIY. Também nos relacionamos com um sentido mais amplo da indústria musical, mas sou eu quem realiza os vídeos. Isto sempre foi DIY para mim. Eu não sei como delegar tarefas, então é assim que acabamos por ser.

Somos uma banda DIY, somos pessoas DIY.

E nesta tour vão ter algum concerto sem barreiras ou vão ser todos com barreiras?
Acho que provavelmente a maior parte vai ser sem barreiras. Diria o único concerto com barreiras que posso pensar é o de Londres, mas não tenho a certeza. Não acredito que muitos desses vão ter barreiras. Nós não somos uma banda assim tão grande e pedimos sempre para tirarem as barreiras. Antes do álbum sair tocámos em salas de 150 pessoas e logo a seguir em salas de 200 pessoas e não houve uma única barreira.

Em Dezembro de 2025 vocês e os Movements foram as últimas duas bandas a tocar no Chain Reaction, uma sala lendária para a música alternativa do sul da Califórnia. Que significado é que a sala teve para ti nos anos em que eras apenas um adolescente na cena hardcore e também para os Militarie Gun quando começaram a dar concertos?
O segundo concerto que demos foi no Chain Reaction, e desde aí tem um lugar muito especial na história dos Militarie Gun. Mas, eu não cresci no sul da Califórnia, estava em Washington e lembro-me que o primeiro vídeo que vi foi de um concerto louco dos Trash Talk e isso realmente fez-me ver o Chain Reaction como uma importante parte vital do hardcore. Sempre foi um lugar onde sonhei ir tocar. Por isso, estou muito feliz que, de todas as bandas do mundo, tenhamos conseguido ser uma das últimas a pisar o palco. É uma grande honra.

Para terminar. Visto que ainda estamos em Janeiro. Qual é que foram os teus álbuns favoritos de 2025?
Não ouvi muita música nova para ser honesto. Adorei o álbum dos Turnstile, obviamente. Também adorei o do Djo. Para ser sincero acho que apenas ouvi música mais antiga, não escutei muito música atual. Lembro-me do álbum do Cameron Winter ter saído na altura em que gravámos o nosso, e escutei esse no caminho para o estúdio e de volta para casa em muitos desses dias. Mas sim, porque estamos em modo álbum, é muito mais sobre quais são as referências clássicas e as que inicialmente inspiraram as ideias.