Começaram como uma “brincadeira de liceu” e, dez anos depois, a 06 de Março, pisam uma das mais icónicas salas de espetáculos do país: o Coliseu dos Recreios, em Lisboa.
Na atuação que assinala os dez anos de carreira, não há forma de ficar parado: João Sala, vocalista e letrista dos GANSO, promete convidados, hits que percorrem a década e o concerto mais longo de sempre da carreira do grupo.
Cifra 2015 e os nossos ouvidos captam, pela primeira vez, um baixo envergonhado que vai começando a ganhar carácter. Uma voz peculiar faz-se sentir aos 23 segundos, depois de ser empurrada por um groove de bateria, e canta “Sai-me do bolso um trunfo que eu tinha na manga”. Estamos a ouvir “Pistoleira”, o single que marca o início de um conjunto composto por 5 amigos da escola. Chamam-se: GANSO.
«Tenho memórias de ser uma pessoa muito naive nesta altura e de não ter noção do que era ser músico profissional. Levávamos tudo na brincadeira. A presença em palco e a noção de espetáculo eram muito básicas», confessa João Sala em conversa com a Arte Sonora.
Dez anos depois, já contam com quatro álbuns de estúdio e vão dar o primeiro concerto no coliseu com várias colaborações de peso. «Este marco no Coliseu era, sem dúvida, um sonho que tínhamos, porque há uns tempos nunca pensámos que fosse possível», afirma o cantor.
Depois de “Costela Ofendida”, o disco em que se dão a conhecer, segue-se “Pá Pá Pá”, de 2017. À semelhança do primeiro álbum, este LP também era virado para “miúdos de 19/20 anos”. Mas a brincadeira acaba quando o coletivo oferece, dois anos depois, “Não Tarda”, um longa-duração de 8 faixas onde, pela primeira vez, pensaram verdadeiramente no que estavam a fazer. «Quisemos ir com mais calma. As músicas são mais melancólicas, com mais silêncios e pensámos mesmo no álbum como uma obra completa», diz. “A fase do “Não Tarda” marca uma transição da maneira e do método de trabalho, no fundo».
“A fase do “Não Tarda” marca uma transição da maneira e do método de trabalho, no fundo».
«Há um ponto de viragem na banda, em que o amadurecimento e a identidade musical se fazem sentir de forma mais vincada: o lançamento de duas faixas virais. “Gino (O Menino Bolha)” e “Sorte A Minha” são da mesma altura em que estávamos a fazer os primeiros singles de “Vice Versa”, o nosso disco mais recente», alega. Esses dois temas foram-nos oferecidos mais cedo meramente por “pressão”, visto que o grupo estava “muito pouco activo” e era a fase a seguir ao Covid. «Tínhamos de lançar qualquer coisa», confessa o artista.
Em 2024, acabam então por mostrar “Vice Versa”, com selo da Cuca Monga. O longa-duração foi gravado nos estúdios La Frette, em Paris, e conta com a produção de Domingos Coimbra, dos Capitão Fausto, e Anthony Cazade, que já trabalhou com bandas como Arctic Monkeys e Black Pumas.
Os preferidos do público foram “Papel de Jornal” e “Fetiche Fonético”, a colaboração com Le Feste Antonacci. «Os Le Feste Antonacci surgiram porque conheci um deles aqui em Lisboa. Eles são uma dupla de italianos que moram em Paris. Depois, quando fomos gravar para os estúdios La Frette, achávamos que fazia sentido convidar artistas que se encontravam lá. Eles aceitaram logo», conta-nos João Sala.
Contudo, a ligação à cena musical italiana não fica por aqui. No início do ano, os GANSO lançaram o duplo single “Mal Vestido” e “Deixar-te”, que contam com o toque de Itália na produção. Com a guitarra como protagonista, são temas irónicos e de protesto que refletem algumas das maiores ânsias vividas hoje em dia.
Depois de fazerem um retiro, no ano passado, para compor música nova, os GANSO convidaram o italiano Carlo Coberllini (compositor dos Post Nebbia) para a produção daqueles que iriam ser os dois temas que iam abrir 2026. “O convite surgiu porque, para além de gostarmos das canções dos Post Nebbia, gostamos da produção e do som dos álbuns deles. Fizemos uma pequena pesquisa e descobrimos que quem tratava dessa parte era o Carlo, que é também o vocalista da banda. Mandámos-lhe uma mensagem no instagram e ele respondeu», explica.
Daqui, surge uma colaboração que vai marcar o palco do Coliseu, visto que Carlo Coberllini é um dos convidados especiais do espetáculo de comemoração de 10 anos.
Além deste, outro nome que se destaca é “o lendário José Cid”. Esta relação existe há algum tempo. É um género de mentoria que virou amizade, sempre com o respeito profissional bilateral. «É uma pessoa que nos acompanhou em algumas fases da nossa carreira. É da mesma terra da minha avó, Mogofores, ali na Bairrada. Além disso, o José Cid tem uma casa com estúdio, onde já fomos algumas vezes», explica o vocalista da banda.
A terceira convidada especial é a teclista, compositora e letrista Raquel Pimpão, conhecida artisticamente por Femme Falafel, que lançou, em Outubro do ano passado, o mais recente disco “Dói Dói Proibido”.
Além disso, a artista fez uma adaptação do tema “Curioso e aborrecido”, dos GANSO, para o EP “Vice Versa: Remixes”, lançado em Dezembro do ano passado. O curta-duração foi uma ideia de Luís Ricciardi, teclista do grupo, que acreditava que os temas podiam ter uma nova roupagem. Segundo João Sala, o rearranjo feito por Femme Falafel é quase uma novidade, algo diferente. «É uma artista de excelência. Fez o remix dela. Na verdade, é como se tivesse samplado a música e fizesse uma canção nova. Gostámos muito do resultado final».
Há mais novidades no que toca ao dia do concerto. As expectativas metem o mercúrio do termómetro no topo. Na sonoridade, destacam o “habitual”: o baixo, a bateria, os teclados e duas guitarras. Além disso, adicionaram sopros, nomeadamente o som distinto da flauta transversal, saxofone e clarinete de Fernão Biu. A acompanhar a voz que dá corpo aos GANSO, espera-se também um coro composto por duas vozes que estamos habituados a ouvir por outras bandas. Em palco, vão estar «Fernão Biu, a tocar sopros, que é uma pessoa que já partilhou palco com os GANSO muitas vezes. Como ultimamente não tem estado tanto connosco, vamos resgatá-lo. Vamos ter também João Cachola e Inês Pires Tavares a fazer coros. Além de serem atores, são vozes incríveis, cantam muito bem. São estes os convidados que vão fazer deste concerto, um concerto muito especial», afirma João Sala.
Há dois concertos marcantes neste percurso que conta com uma data redonda. O de Paredes de Coura, em 2019, que era um “palco de sonho” para o grupo, e o do Capitólio, em 2022, o primeiro concerto numa sala grande. Daqui, dão um salto para o Coliseu, onde prometem que «Este concerto do Coliseu vai estar no topo». Quanto a nós? Só temos de marcar presença.
Os GANSO, grupo composto por Luís Ricciardi, João Sala, Miguel Barreira, Gonçalo Bicudo e Diogo “Horse” Rodrigues, atuam na sexta-feira, dia 06 de Março, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.
