lucas argel c Krystallenia Batziou
(c) Krystallenia Batziou

ENTREVISTA | Luca Argel, O Homem (Triste)

23/02/2026

Do cruzamento da literatura, do ativismo político, do samba e MPB, e da reflexão sobre a masculinidade tóxica, temos o aparecimento de “O Homem Triste”. Um disco que conta com o toque de Moreno Veloso na produção e com a participação da Arnema Orchestra, sob direção de Sílvio Cortez.

Neste recente trabalho do luso-brasileiro Luca Argel, o silêncio ganha som, a fragilidade liberta-se e as emoções reprimidas ganham forma. Um projeto composto por nove faixas, onde os temas nos convidam a uma observação sobre a forma como os homens aprendem – ou não – a lidar com as próprias emoções.

Numa conversa entre a Arte Sonora e o artista vamos ficar a conhecer mais sobre a obra apresentada. Recordamos que a digressão de “O Homem Triste” conta com dois concertos especiais em Portugal com a presença de Moreno Veloso em palco: 28 de fevereiro, no Theatro Circo , em Braga, e 2 de março, no Teatro Maria Matos, em Lisboa, este último já esgotado.

“O Homem Triste” foi lançado no final de Janeiro, mas desengane-se quem considera que foi fácil, demorou anos a ser produzido. «Foram pelo menos três anos de montagem deliberada e de construção de um repertório musical, além do projeto gráfico do disco, que complementa as canções», confessa Luca Argel.

Tudo começou a partir da escrita de “O Meigo Energúmeno”, um ensaio que se debruça «mais especificamente sobre o machismo e manifestações de machismo dentro da obra de Vinícius de Moraes», alegou. Através deste choque frontal entre os estereótipos femininos e masculinos, o artista concluiu que «todas essas questões de como lidar com a frustração, com a vulnerabilidade, de como colocar sentimentos em palavras, juntamente com a ansiedade que os homens têm de corresponder às expectativas que vêm de fora» tinham de ser demonstradas através de uma obra que fosse suficientemente relacionável com todos, para não cair no que já conhecemos de ginjeira. «Não queria fazer um álbum que apontasse muito o dedo, que fosse uma denúncia contra os problemas e a violência da masculinidade. Queria um viés mais urgente, um viés propositivo, positivo, de tentar imaginar caminhos por onde seguir. Os caminhos errados dos homens, já estão bem claros», explica.

O disco começa com “O Homem Triste”. Este tema, que sucedeu o nome do álbum, é uma antítese musical. A faixa abre com a voz de Luca Argel acompanhada com o violão e transmite-nos logo uma certa ideia de imposição, raiva guardada e sensações que precisam de sair do corpo do sujeito. Contudo, de “triste”, tem muito pouco. É «um pouco mais incisivo, mais ácido, mais provocativo e queria que servisse como uma espécie de carta de intenções, de manifesto do disco», diz. «O Homem Triste é uma música sarcástica, irónica, feita justamente para provocar. Serve como uma abertura de portas, uma chamada de atenção inicial. E cumpre esse papel, além de carregar o nome do álbum

Nunca tinha gravado com uma orquestra de cordas e a “Arqueologia de Armário” era uma música que pedia muito esse arranjo. Foi tudo gravado numa manhã. Quando o técnico pressionou o botão “rec”, de repente, abriu-se um portal mágico e aquilo encaixou de tal forma na minha música que fiquei desconcertado.

Nos restantes oito temas, o LP segue de forma mais suave, mais delicada e conseguimos encontrar mais profundidade lírica. Temos faixas como “Primeiro Mar”, onde o protagonista é o filho e a relação que tem com a mãe, «a primeira referência feminina que um rapaz tem»; “Tive de Mentir”, em que Luca Argel acredita que «vem de uma experiência muito própria do masculino que é esconder o que se sente para corresponder a certas expectativas»; e, para demonstrar um bocado de versatilidade musical, temos “Pedir Demais”. Este último foi gravado num estúdio em Copacabana, onde vários artistas brasileiros já fizeram grandes criações musicais e que influenciaram o género da faixa. «Por ser assim a música do álbum que tem um teor mais romântico, fui buscar essa sonoridade mais suave da bossa nova», confessa.

A reviravolta deste mais recente trabalho do artista luso-brasileiro é a participação da Arnema Orchestra, uma orquestra de estúdio portuguesa sediada no Porto, composta por músicos de excelência. «Foi um sonho», exclama. «Nunca tinha gravado com uma orquestra de cordas e a “Arqueologia de Armário” era uma música que pedia muito esse arranjo. Foi tudo gravado numa manhã. Quando o técnico pressionou o botão “rec”, de repente, abriu-se um portal mágico e aquilo encaixou de tal forma na minha música que fiquei desconcertado», partilha o artista.

“O Homem Triste” é um disco composto por músicas que passam pela própria história do homem, outras que são dedicatórias a familiares, e outras que evocam melodias variadas que misturam o MPB com algo profundamente inovador.

O trabalho termina com “Quando a Cura Começa”, o que nos leva a pensar que tudo isto são passos para atingir uma certa resolução de um problema difícil de engolir. Contudo, não é nada disto. «O álbum em si não é a cura. A cura é aquilo que cada homem vai fazer consigo próprio a partir daquilo que pensa e daquilo que sente. É uma espécie de passagem do bastão», alega.

Toda a produção do longa-duração contou com a participação de Moreno Veloso, um músico que Luca Argel já admirava há muito tempo. A cereja no topo do bolo apareceu durante o processo de execução do disco quando o artista percebeu que Moreno Veloso «é uma pessoa muito sensível, algo que o projeto pedia: um homem com muita sensibilidade e muita disponibilidade para troca, para receber as minhas ideias e propor coisas novas, tudo em diálogo comigo e com os músicos que estavam connosco em estúdio.»

A maior particularidade do álbum é o “Mapa do Homem Triste”, um projeto gráfico característico nas composições de Luca Argel. «Eu gosto de complementar os meus álbuns com projetos diferentes, alternativos. Desta vez, associei um mapa ao masculino, devido às navegações, aos caçadores de tesouro. É algo lúdico. E mais: os homens normalmente não gostam de pedir informações na rua quando estão perdidos, preferem mais andar à deriva do que admitirem que estão perdidos e pedir ajuda.»

O desenho pretende criticar aquilo que acontece há várias gerações, quando «os rapazes são criados com as máximas de que o homem não chora, o homem precisa de ser forte e valente, é um herói». O resultado disto, diz-nos o músico, é trágico. «É o que vemos hoje em dia. Resolvemos as questões com base em guerra e violência, os homens ficam deprimidos, viram campeões do suicídio, e ficam dependentes de comportamentos nocivos não só para eles, como para os outros. Senti a necessidade de um mapa para orientar a saída desse labirinto».

“O Homem Triste” fica então como um processo de abraçar as emoções, de compreendê-las e só depois disto, começar a cura.

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