novos romanticos
(c) Rui Correia

ENTREVISTA | Novos Românticos, um retrato inquieto do presente chamado “Criptopátria”

10/04/2026

O projecto Novos Românticos apresentam o seu álbum de estreia “Criptopátria” no dia 18 de abril no RCA — Radioclube Agramonte. Estivemos à conversa com David Félix sobre o nascimento do projecto, a recusa de rótulos fáceis e o processo criativo por detrás de “Criptopátria”.

Há projectos que nascem com um plano, outros que começam por acaso e acabam por dizer mais sobre o presente do que muitos discursos programados. Os Novos Românticos pertencem claramente ao segundo grupo. Formados no Porto, entre salas de ensaio e um contexto de incerteza laboral, a banda foi ganhando forma de maneira quase intuitiva, primeiro como escape, depois como linguagem própria, hoje como um nome a seguir de uma nova vaga pós-punk nacional que prefere levantar perguntas a oferecer respostas fechadas.

Depois dos EPs “Novos Românticos” e “Saudade Internacional”, a banda prepara agora a edição do álbum de estreia “Criptopátria” para 17 de Abril, um disco que se constrói a partir de inquietações políticas, sociais e pessoais, refletindo sobre identidade, pertença e as tensões de um mundo cada vez mais fragmentado. Singles como “Mesa Posta”, “Pátria” e “Comunidade Europeia” funcionam como portas de entrada para esse universo, onde a ironia e o desconforto caminham lado a lado com uma estética sonora crua e directa.

À frente da banda está David Félix, acompanhado de Emanuel Ribeiro, numa dinâmica criativa que cruza amizade, cumplicidade e um percurso partilhado que remonta a vários anos. Entre referências que vão do pós-punk clássico a uma rede próxima de músicos e amigos, os Novos Românticos têm vindo a afirmar uma identidade própria, marcada tanto pela urgência do presente como por uma dimensão profundamente pessoal.

Essa identidade ganha agora corpo ao vivo no concerto de apresentação de “Criptopátria”, marcado para dia 18 de abril no RCA — Radioclube Agramonte. Será a primeira oportunidade para ouvir o disco em palco, num espaço que a própria banda assume como simbólico, numa noite que contará também com a actuação dos Bastonada e que promete traduzir ao vivo o universo inquieto que tem vindo a ser construído nos últimos meses.

Foi nesse contexto que falámos com David Félix sobre o nascimento da banda, a recusa de rótulos fáceis e o processo criativo por detrás de “Criptopátria”.

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(c) Rui Correia

AS: Quem são os Novos Românticos? Houve algum momento ou necessidade específica que deu origem ao projecto?
Não sei bem o que somos, tão pouco o que fazemos aqui. O projecto “começou” no final de 2022 comigo e com o Emanuel Ribeiro e o Marcos Cândido, numa altura em que andávamos com alguns problemas laborais – os três – e decidimos ir para uma sala de ensaios descomprimir um bocadinho. Na altura surgiram três músicas que gostámos, e pensámos em falar com o João Losa para gravar e ver no que dava – apenas para uso pessoal e partilhar com amigos e conhecidos. A verdade é que a partir daí, desse primeiro EP homónimo, começaram a surgir concertos, e a coisa foi evoluindo, até que ficou um bocadinho mais “séria” e fomos novamente para estúdio, gravar aquele que seria o segundo EP, o “Saudade Internacional”. Esse EP já noutro registo, se no primeiro escrevemos sobre precariedade laboral, o segundo já culminou em desabafos sobre amor e desamor, e todas essas tretas.

AS: São do Porto, uma cidade com uma identidade muito própria. De que forma esse contexto influencia a vossa música e a vossa forma de olhar para o mundo?
Era uma cidade com uma identidade muito própria. Este contexto influencia a nossa música e a forma de olhar para o mundo, sim. Somos dos subúrbios – Pedrouços, Águas-Santas, Ermesinde – as zonas dormitórias onde o dia começa bastante cedo. A nível cultural sinto que o Porto se perdeu, também na eterna disputa com Lisboa. Falamos tanto de centralismo, mas se olharmos, por exemplo, para Braga, que fica já aqui ao lado, queixam-se menos, fazem mais, e as coisas acontecem. Somos um país demasiado pequenino para nos centrarmos numa só cidade e numa única forma de olhar para o mundo, na minha opinião. Somos apenas, como a maior parte dos portugueses, a classe operária, a classe média baixa, a classe que tenta fazer o melhor que pode com o pouco que tem, e lá se vai andando. Com um olhar minimamente atento quando assim tem de ser, mais desligados, quando assim também tem de ser – que a vida não pode ser só stress e contas para pagar. Mas, respondendo de forma direta: este contexto influencia a nossa música por causa de todos os amigos que temos aqui, e com quem partilhamos vivências. Mas se for por aí, influência tanto como Almada ou então Berlim, onde tenho amigos próximos e com quem partilho dessas mesmas vivências. – Nunca pensei dizer Pedrouços, Almada e Berlim na mesma frase, tirando as conversas nos grupos de WhatsApp com a malta.

A nível cultural sinto que o Porto se perdeu, também na eterna disputa com Lisboa. Falamos tanto de centralismo, mas se olharmos, por exemplo, para Braga, que fica já aqui ao lado, queixam-se menos, fazem mais, e as coisas acontecem. Somos um país demasiado pequenino para nos centrarmos numa só cidade e numa única forma de olhar para o mundo, na minha opinião.

AS: Tens uma colaboração próxima com Emanuel Ribeiro. Como funciona este romance e a dinâmica criativa entre vocês?
Partindo um bocadinho da primeira pergunta, a coisa foi evoluindo, e acabei por ser eu a tomar mais conta do projecto – e o álbum já só foi feito por nós os dois (tirando a “Mesa Posta”), que ainda contou com o Marcos. Somos amigos há muitos anos, as coisas vão funcionando, vamos trocando ideias, vamos trocando influências, vamos para estúdio e as coisas vão acontecendo. E a colaboração foi mais em estúdio – os registos ao vivo, e o próximo disco (que já está a ser trabalhado), terá outras participações, e uma outra realidade.

AS: São um projecto assumidamente político, consideras que fazem música de intervenção? O disco aborda temas como ameaça nuclear, polarização e conflitos identitários. Sentes que a música ainda tem espaço para intervir politicamente ou já só consegue reflectir?
Não considero a nossa música de intervenção. Escrevo as letras e as canções da forma como vou sentindo a realidade que me chega. É apenas a visão de só mais uma pessoa, que acaba por estar ali entre a centro-esquerda mais moderada, que coloca mais dúvidas e inquietações nas músicas, do que propriamente aqueles chavões de “meter o dedo na ferida” ou por aí fora. Não me sinto com moral para tal. Sinto-me só inquieto que as nossas liberdades estejam a ser postas em causa, sem precedentes, pelo menos desde o meu tempo de vida, e isto é só a minha opinião, logo o “Criptopátria” é isso. Para além desses temas, há o “Festival da Canção 2027” – é um bocado directo. Não consigo entender (quer dizer, com a minha profissão diretamente relacionada com a música e cultura – não a de músico em específico, consigo) – como é que, para além de todos os problemas geopolíticos, etc.; fazemos da música uma espécie de competição, com concursos televisivos, a pontuar isto e aquilo. Ainda menos consigo entender (derivado da minha tal profissão, consigo em parte) como é que bandas que ganham determinados concursos, com referências ao cante alentejano, dizem que a sua música é só música, e não precisa de tomar posição política. Ora, o cante alentejano é música de quê, mesmo? Denúncia da dureza do trabalho, da fome e da resistência silenciosa durante o Estado Novo, certo? É o ridículo da nossa pseudo indústria musical. Mas qual indústria? Qual música de intervenção? Qual posição política? Isto tudo para dizer que admiro bastante a posição dos meus colegas que participaram no Festival da Canção e assinaram o manifesto e protesto pela participação de Israel na Eurovisão. Isso sim, é intervenção.

Não considero a nossa música de intervenção. Escrevo as letras e as canções da forma como vou sentindo a realidade que me chega. É apenas a visão de só mais uma pessoa, que acaba por estar ali entre a centro-esquerda mais moderada, que coloca mais dúvidas e inquietações nas músicas, do que propriamente aqueles chavões de “meter o dedo na ferida” ou por aí fora.

AS: A vossa estética cruza o pós-punk com uma dimensão quase literária. Que referências, musicais ou não, têm sido mais importantes para construir essa linguagem?
Tudo mudou quando, numas férias na Escócia com uns amigos meus, vi o John Maus ao vivo. No final de 2025. Foi transformador. Sinto que é a minha principal referência, principalmente para os trabalhos que se seguem e pela forma simplista que estou a montar os concertos ao vivo. Um portátil a disparar os instrumentais, e um gajo inquieto em palco a deixar toda a gente ainda mais inquieta. Mudou a minha perceção. De resto, impossível fugir a referências como Sétima Legião, Heróis do Mar, BAN, Mundo Cão, GNR, Mão Morta, Joy Division, Stone Roses, The Cure, Viagra Boys, Idles, Happy Mondays (muitas delas não propriamente post-punk) – mas, a par disso, independentemente de géneros, a maior referência musical que tenho são os meus amigos, o Rui Correia da Biruta Records, o Vítor Pinto (O Homem que Fugiu do Mundo e Malibu Gas Station), o Logos (Raiz Urbana e Conjunto Corona) – e outras bandas portuguesas, mais “recentes”. Admiro muito o trabalho dos Baleia Baleia Baleia, Ermo, Marquise, Manuel Fúria, etc. Gosto também muito do Nininho Vaz Maia – as músicas dele, a alma poética e a história de vida, inspiram-me imenso. É uma referência de vida e atitude, apesar de não se refletir nas nossas músicas ou não se aproximar do leque de influências que enunciei em cima. Mas, falando de música de intervenção, há maior intervenção de alguém de uma etnia discriminada ao longo da história, que se torna, talvez, no maior símbolo da música “pop” portuguesa? Isto sim, é intervenção, luta e perseverança. Recomendo o novo single dele, a “Avelino”. Ajuda-me nos dias mais “difíceis”.

AS: Num panorama musical português bastante diverso, onde é que sentes que os Novos Românticos se posicionam? O que trazem de novo?
Não trazemos nada de novo. Somos só mais uns quantos a escrever aquilo que nos apetece, quando nos apetece, como nos apetece, e ficamos super felizes quando há malta que gosta do nosso trabalho, ouve e nos diz coisas.

AS: O que surge primeiro as letras ou o instrumental?
As letras. Acho que consigo fazer uma espécie de recap da minha vida ou inquietações através disso mesmo. O segundo álbum que estamos a preparar já vem mais sobre as coisas que estou a passar neste momento, do que propriamente o “Criptopátria” – que começou a ser escrito quando as forças de extrema-direita deturparam completamente o 25 de Novembro, e de repente andam a usar o nome do Sá Carneiro em vão. O “Criptopátria” ganhou forma com a “Mesa Posta”. Foi a primeira música que escrevemos.

AS: Em termos de gravação, em que estúdio gravaram e como foi feito esse processo. João Losa surge como peça importante na mistura e masterização. Que papel teve na definição do vosso som?
Super intuitivo. Foi no home studio do João Losa – produziu, misturou, masterizou. Fazemos música juntos desde 2010, na nossa primeira banda, O Abominável, e continuou com Malibu Gas Station. Quando lhe mostro as ideias, e vamos gravar, ele já sabe no que estou a pensar ou no que pretendo, esteticamente. Depois, lá faz a magia dele. Confio mais nele do que em mim mesmo, honestamente. E, quando surgem algumas dúvidas na produção ou assim, só me apetece enviar-lhe a música dos Da Weasel, “O que quiseres (Tá tudo bem)” – porque o que ele quiser, para mim está tudo bem. E não podia sentir-me mais grato. É a comunicação muito mais no gesto e no olhar, do que propriamente na palavra. Assume um papel principal, pelo conhecimento que tem, e pela forma como consegue ser assertivo e prático naquilo que se deve acrescentar ou não nas músicas, para além de conhecer as minhas limitações a nível vocal melhor do que ninguém, e a partir disso, conseguir sacar o melhor possível. Não é síndrome do impostor da minha parte – não sei cantar mesmo, e este pseudo spoken word – é a forma que arranjei para me exprimir.

AS: Em “Comunidade Europeia” surge essa ideia de poema geopolítico. A música é, para vocês, uma forma de cartografia emocional do mundo?
Sem dúvida. Deu para ironizar um bocadinho, e deixar coisas no ar. Tanto podemos estar a falar da Segunda Guerra Mundial como do mundo hoje em dia. Fica à interpretação de cada um.

AS: Têm também ligações a outros projectos como Malibu Gas Station e Almirante Ramos. De que forma essas experiências paralelas influenciam o som e a identidade dos Novos Românticos? Qual a razão para estas colaborações?
O Almirante Ramos nunca o tinha conhecido pessoalmente, apesar de termos trocado algumas ideias sobre o projecto. Quando escrevi o “Pátria”, senti logo que só poderia ser ele a fazer este featuring e fiquei radiante quando ele ouviu, gostou e aceitou o convite. Quanto à Malibu Gas Station, é um trio – sou eu, o João Losa e O Homem que Fugiu do Mundo. É banda de família. Passamos ensaios a falar sobre a vida do que propriamente a ensaiar. A ligação é profunda, e transcende a música. Fazer música com o Vítor (O Homem que Fugiu do Mundo) e com o João é como ir passar um fim de semana ao Gerês com amigos. (agora lembrei-me da música “Campanhã” do S. Pedro, outro artista aqui da minha zona – Maia – de que gosto muito, já desde os tempos dos doismileoito).

AS: A dada altura ouvimos em “Comunidade Europeia”: “Grita, como Madrid gritou.”. O que Pedro Sanchez tem que Luis Montenegro devia ter, ou vice-versa?
É! Vou só centrar-me no ponto positivo com um pequeno disclaimer. Enquanto cidadão europeu, sinto-me representado na voz do Pedro Sánchez. Quando digo, “Grita, como Madrid gritou”, estou só a desejar que o grito seja coletivo, e que esse grito seja apenas a manifestação de bom senso. “Make science great again!”. Quanto ao Luís Montenegro, enquanto jovem (ainda não fiz 35 anos), com uma visão mais moderada da coisa, deveria identificar-me com alguns pontos da social-democracia, obviamente, mas, quando vejo um primeiro-ministro a ficar calado enquanto, entre muitas outras coisas, a comunicação social é constantemente atacada por outras forças políticas, direitos e liberdades conquistadas são postas em causa, com pacotes laborais… Não me consigo identificar. Identifico-me apenas pelo facto de ambos sermos adeptos do Futebol Clube do Porto. E vá, sinto-me também representado na voz de Rui Tavares, Filipa Pinto, e a malta do LIVRE – acho que, se fosse por eles, não diria “Foge, como Lisboa fugiu” e estava aqui a dizer outra coisa qualquer. Temos todos opiniões, não é? Mas sejamos mais PCPT-MRPP ou CHEGA, não deveríamos ser todos mais humanos, respeitar a opinião dos outros (desde que a mesma não interfira com a liberdade do próximo), e amigos? (citando o DJ Renato Alexandre).

AS: O próximo concerto será na Radioclube Agramonte no dia 18 de Abril. Como convencias alguém a ir ao vosso concerto?
O Radioclube Agramonte é o sítio mais bonito da cidade. Por si só, já é um belo motivo. Os Bastonada são uma banda incrivelmente boa – ansioso por os ver ao vivo. Venham que valerá a pena – há uma loja de discos de vinil à porta e tudo. Relativamente a nós, pá, este é o sítio que eu mais gosto de estar com os meus amigos e está tudo bem.

AS: Para futuro, há mais datas marcadas? Alguma novidade?
Sim, temos aqui coisas para revelar – não já. Estão próximas, mas, dada esta cumplicidade com o Radioclube Agramonte, fiz mesmo questão que esta fosse a primeira e mais especial apresentação ao vivo. Depois de dia 18, revelaremos as outras datas, noutras cidades, noutros locais. De resto, o segundo álbum está a ser feito, e prevejo umas outras coisas nos entretantos.

AS: Por fim, se fossemos bisbilhotar a tua plataforma de streaming, que álbuns/canções mais têm andado a ouvir?
Super random. As últimas coisas que ouvi e que tenho para aqui são: John Maus – Reconstruct Your Life; Nininho Vaz Maia – E Agora?; Parcels c/MARO – leaveyourlove; Devendra Banhart – 16th & Valencia; Roxy Music; Djo – End of Beginning; X-Wife – On the Radio; Plutónio – 6am em Paris; Filipe Fonseca com Davi Maia – Tu És Tão Doida; Pedro Mafama – Estrada; Valete – Fim da Ditadura; Dealema – Escola dos 90; Lust for Youth – Epoetin Alfa; Fontaines D.C. – Jackie Down the Line; New Order – Love Vigilantes.

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