Ainda na ressaca da celebração dos 30 anos da banda, os Tara Perdida estão de volta a Lisboa para uma grande festa punk no LAV – Lisboa Ao Vivo. O mote do concerto é a edição do primeiro álbum ao vivo do grupo intitulado “Ao Vivo Em Alvalade”.
Com uma carreira respeitável de 30 anos, já não faltam aos Tara Perdida muitas conquistas para preencher o seu palmarés. Entre uma discografia que conta com oito álbuns de estúdio, um DVD ao vivo e uma vasta lista de concertos que vai desde clubes a presenças em concertos de estádio e em grandes festivais, aquilo que parecia faltar à banda era a gravação de um álbum ao vivo que captasse a explosão de energia jovial vivida nos seus concertos.
À espera do momento certo, quis o destino que esse álbum nascesse da gravação dos dois concertos que os Tara Perdida deram em 2025 na República da Música, no seu bairro de Alvalade, naquele que foi o ponto máximo da celebração das três décadas de carreira da banda. Agora, de regresso à capital, os Tara Perdida vão apresentar, e oferecer, esse mesmo álbum num concerto no LAV – Lisboa Ao Vivo, a 10 de Abril. Como manda a tradição será certamente mais uma reunião bem “baril” de toda uma legião de fãs que ainda vive o punk de forma fervorosa.
Para saber mais sobre este novo lançamento e também com o intuito de fazer uma retrospectiva destes 30 anos, a Arte Sonora sentou-se à conversa com a banda após um dos ensaios para o concerto do LAV.
“Ao Vivo Em Alvalade” além de assinalar os 30 anos dos Tara Perdida apresenta-se como um regresso a casa. O que é que representou para vocês pisar o palco da renovada República da Música no vosso tão querido bairro?
Ruka: Podíamos ter feito o concerto dos 30 anos noutro lado, tivemos propostas para fazer isso, mas para nós fazia sentido tocar em Alvalade. Em relação à sala, já somos amigos do Carlos há 50 anos e já tínhamos falado sobre isso. Ele tinha feito a proposta para irmos lá tocar e quando chegou a oportunidade fomos. A sala renovada está espetacular, acho que a única cena meio desconfortável, mas que também acabou por dar aquele ambiente à antiga que nós queríamos, foi o calor em demasia. De resto, foi tudo espetacular. Adoramos aquele pessoal e claro, tocar em Alvalade para nós foi especial. Por isso é que fizemos dois dias. Até dava para fazer mais. Gravámos lá nesses dois dias e gravámos um disco ao vivo para lançar. Temos orgulho deste disco porque não foi “picado” em lado nenhum. Tudo o que lá está foi o que aconteceu lá em Alvalade, não houve regravações a emendar alguns erros ou assim, não, tudo o que está no disco foi o que aconteceu mesmo.
Fora das grandes cidades vocês continuam a levar o punk a locais onde o acesso à cultura, e particularmente a estas sonoridades, não é o mais fácil. Falem-me da importância de continuar a levar os Tara Perdida a locais como Chão de Sapo, Mora ou Portel.
Ruka: Para nós é espetacular levar o nosso som, que não é o pop, a outras terras. Meter a juventude a ouvir o que existe, não é? Há muita gente que nos conhece, mas se calhar conhece os singles, ou o “Lisboa” ou o “Nasci Hoje”. E assim acaba por conhecer como é que o espetáculo é feito, como é que a coisa acontece. Para nós é igual. A nossa profissão é sermos músicos. Nós vamos onde o público estiver, seja em Chão de Sapo, seja onde for. Não temos problemas com isso. Se nos chamam, nós vamos com o maior coração do mundo fazer isso. E para nós, claro, é um orgulho. O pessoal vem sempre ter connosco no final, esse mesmo pessoal que não tem acesso àquilo que nós temos aqui na cidade. Parece que evoluímos muito, mas há muitas terras que não evoluíram quase nada. Por isso, é sempre importante levarmos alguma coisa que não se passe lá. Tens pessoal que fica meses à espera daquele dia, então para nós é espetacular ir a esses sítios todos.
2025 trouxe a celebração dos 30 anos da banda. Mas, 2026 traz também algumas efemérides dignas de registo. A mais sonante é sem dúvida o mítico concerto que deram há 20 anos na Incrível Almadense e que deu origem ao DVD “É Incrível”. Levem-nos numa viagem no tempo até este concerto.
Ruka: Aquilo que nos lembramos é de uma carga policial (risos). Para nós foi altamente ter a sala esgotada. Isso foi um trabalho do Miguel Gomes aka Chibanga (fundador da Xuxa Jurássica). Na altura ele estava a trabalhar connosco no álbum “Lambe-Botas” (2005) e foi ele que fez força para fazermos isso e gravarmos um DVD. Ele é que arranjou todas as pessoas para filmarem, etc. Foi um trabalho muito da parte dele. Sobre esse dia lembramo-nos que quando chegámos lá tínhamos aquilo cheio, tanto lá dentro como cá fora.
Ganso: Foi nesse dia que mudámos de agência (risos).
Ruka: Sim, foi nesse dia que mudámos de agência. A nova agência, que por acaso está connosco até hoje, foi ver esse espetáculo e gostou. Passado uma semana estávamos sentados na mesa de reunião para assinarmos com eles. Por isso, esse dia para nós foi emblemático e está aí gravado na net para sempre. Ah e esse DVD nós oferecemo-lo, não o vendemos.
Ainda falando sobre concertos míticos. 2026 marca o regresso a Portugal dos californianos Pennywise após uma ausência de 20 anos. Em 2006 vocês abriram para eles no Jurassic Summer Fest no Pavilhão dos Lombos, em Carcavelos. Que memórias é que têm deste concerto
Ganso: O concerto foi bom. Tocámos antes dos Pennywise e os Satanic Surfers tocaram antes de nós. Esse dia foi bom. Pena a sala não ter uma grande jarda em termos de som. Eu vi depois o concerto dos Pennywise cá de fora e o som estava mauzinho. Mas para nós foi um dia porreiro.
Ruka: Os Pennywise foram uma banda que nos influenciou e é espetacular ter tido a oportunidade de tocar com eles, como também é o caso dos NOFX. Lembro-me que esse dia para nós foi uma alegria. Até estávamos de férias e fomos de propósito fazer o concerto. E mais uma vez, isso é trabalho do Miguel Gomes. Como trabalhava connosco chamava-nos para fazer as primeiras partes das bandas que ele trazia. Aconteceu várias vezes.

Falando um pouco de gear, ao longo dos anos vimos-vos a usar guitarras de variadas marcas como Italia, Framus ou Schecter. Mas, ultimamente têm assentado em modelos PRS e Gibson.
Ganso: Qualquer guitarrista começa por comprar uma guitarra mais barata quando começa a tocar, não é? E depois vais evoluindo e vais querendo coisas um bocadinho melhores. Lembro-me, quando era puto a primeira guitarra que tive foi da mítica loja dos chineses ali do Rossio. Era uma Aria Pro II que custou 20 contos e que já era um balúrdio. Depois, comprei uma Aria Pro II, já passado uns anos, que custou 60 contos. 60 contos era o ordenado mínimo nacional na altura. E eu achava que essa guitarra iria durar a minha vida toda. Mas pronto, nós sempre trabalhámos com pessoas que gostavam de nós e que nos apoiaram. Nomeadamente o Paulo Nogueira, da Castanheira-SóMúsica e da América Nogueira. Trabalhámos nessa altura muito com ele e com a PRS, que era uma marca já muito conhecida em Portugal. O Paulo começou a meter-nos PRS na mão. Começámos a tocar com PRS e gostámos mesmo muito delas. Aliás, o Rui (Ruka) ainda toca com PRS, ele adora aquilo. Eu também gosto. Mas, agora estou mais para o lado da Gibson, mas tanto a PRS como a Gibson são duas marcas fantásticas de guitarras. Não há nada a dizer.
E em termos de amplificadores continuam fiéis aos Mesa Boogie, não é?
Ganso: Mesa Boogie, curiosamente, é uma marca de amplificadores que nós mantemos de há muitos muitos anos para cá. Também é do Paulo Nogueira. Mas mesmo antes do Paulo ter a Mesa Boogie, nós já tocávamos com eles. Depois quando o Paulo passou a ter a Mesa Boogie conseguimos o endorsement e ampliámos o nosso leque de cabeças.

Foto: Mesa Boogie
No que diz respeito a este concerto do LAV. O que é que os fãs podem esperar, além daquela descarga de energia característica dos Tara? Vão trazer alguns convidados como fizeram na República? Já sabemos que vão ter um novo baterista, o Nuno José.
Ruka: O que o pessoal tem que esperar é o mesmo de sempre de um concerto de Tara Perdida. É um concerto com uma energia brutal. Vamos levar para a primeira parte o João Pedro e os Almendras. O João Pedro Almendra que é uma lenda também de Alvalade. Anda aí agora a fazer um bom trabalho. É um gajo com 60 e poucos anos e ainda está aí cheio de energia. Achámos que seria fixe levá-lo, pois é um grande amigo nosso. E, sempre que levamos convidados, levamo-lo também. E depois temos o Nuno, que está cheio de “fome”. Ele é um pouco mais novo e vai trazer uma energia que nos faz bem.
Falaram, e bem do Nuno. Qual é que tem sido para ti o maior desafio nesta aprendizagem do repertório dos Tara Perdida?
Nuno: Houve várias dificuldades. Nomeadamente na “Um Dia de Cada Vez”. Tem ali um beat muito rápido.
Para terminar, aquele cliché do Punk’s Not Dead pode por vezes soar datado, mas a verdade é que neste momento estamos a atravessar uma fase muito interessante dentro dos vários subgéneros do punk. Têm acompanhado a ascensão de bandas como os Turnstile, Amyl and The Sniffers, IDLES ou até mesmo os The Hives que já cá andam há algum tempo?
Ruka: Mais os Turnstile. Temos estado em cima disso. Achamos que é uma boa banda. Tem ali muito de Bad Brains. Tem ali punk com umas quebras diferentes. Mas sim, ainda bem que aparecem bandas assim que trazem outra vez o feeling do punk ao de cima. Isto é por ciclos. Por isso, as coisas vão e vêm. É normal. E a energia que se gera naquele concerto é uma cena incrível. Aquilo é fora do normal.
Ganso: Eu, dos Turnstile, gosto de metade das músicas. A outra metade passo à frente (risos). Acho que os gajos têm partes de músicas muito boas, mas depois quando estás no auge aquilo parece que quebra.
Os Tara Perdida sobem ao palco do LAV- Lisboa Ao Vivo a 10 de Abril. Os bilhetes ainda estão disponíveis e podem ser adquiridos aqui.
